O pequeno tomateiro

É preciso prestar atenção às pequenas coisas que acontecem ao nosso redor. Não é só uma homenagem à vida, mas uma maneira de se integrar ao que há de natural e surpreendente no chão que pisamos, na beleza eterna do que nos envolve desde o dia em que nascemos.

Respirar fundo o ar que nos é dado desfrutar ininterruptamente e é motivo para estarmos vivos. Reparar nas mudanças na grama e nas folhas ( e para isso, no meu caso, necessários são os óculos contra a miopia), nos pássaros que pousam ou bebem a água limpa da piscina. Reparar no céu azul de inverno, sem nuvens, claro como em poucos lugares do mundo. Exuberante.

Sentar ao sol e aquecer o corpo, sugar a energia que dele vem. Pensar em crianças brincando, correndo alegres e inocentes pelo jardim. É assim que desejo prosseguir na viagem humana para a qual fui escalado e procuro fazer o melhor. O que aprendi nos meus tempos de menino, o que a casa, a escola e o mundo me ensinaram, eu busco passar para frente, transmitir à descendência e compartilhar com os amigos.

Quero os beijos das pessoas amadas, os abraços solidários, conselhos e afetos. Principalmente quando a realidade nos joga na cara os podres da mentira, da violência e da incompetência. Ainda  está fresca a memória  do movimento dos brasileiros em centenas de cidades do país, momentos mágicos em que gente de todas as idades resolveu ir às ruas para protestar contra tudo o que não agrada aos cidadãos.

Cada um tem sua lista de prioridades, mas está evidente que o mundo político está estagnado em suas atividades, cuidando de irrelevâncias que só a ele interessa e deixando de lado, esquecidas e na penumbra as reais necessidades da maioria. Todos nós sabemos que a educação de qualidade é ponto de partida para cada um e para o país se desenvolver. Há muito discurso e nenhuma ação efetiva. A saúde é bem maior de todos, mas se investe pouco e o dinheiro que surge é comido pela corrupção e pela incompetência. E o transporte público, triturador diário dos trabalhadores das cidades? E as estradas assassinas, o saneamento básico inexistente e a insegurança pública?

Os congressistas, acuados, medrosos diante da vozes das praças, saem aprovando barbaridades demagógicas. Não entenderam nada e parece que dificilmente, em sua maioria, vão entender.

E aprovam, como se estivéssemos em tempo de guerra, em um só dia, sem discussão,  um horroroso projeto de lei que interfere, contra a Constituição e suas cláusulas pétreas, nos direitos de mais de duzentos mil autores musicais. Eles pensam, diante da pressão de alguns artistas, que fizeram a coisa certa. Não fizeram. O jogo político se encerrará com a sanção da Presidente. Do outro lado da Praça dos Três Poderes o Supremo Tribunal Federal definirá a questão.

Me entusiasmei  tanto que me esqueci de dizer que, nesses dias de inverno, um pequeno tomateiro brotou espontaneamente em meu quintal.  Admiração e  espanto é o que sinto diante dele. Viva a vida.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em julho de 2013. 

Um comentário para “O pequeno tomateiro”

  1. Uma tomatada, pouco mais de 500 congressistas interferem no direito de mais de 200 mil autores musicais. Coisas da nossa remendada constituição, elaborada por estes mesmos congressistas. Creio que tem razão quem propõe uma constituinte exclusiva e soberana.

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