O país está vivo

As ruas se enchem de jovens e todos pensávamos que eles estavam nos shoppings, nos bares e nas baladas, de costas para vida real. Meus olhos estão molhados e minha alma canta: estarei mesmo vendo o que eles me revelam? A vida nas cidades anda tão difícil, desgastante e perigosa e os jornais e as tevês insistindo em nos dizer que estamos no melhor dos mundos e tudo vai pelo melhor.

Tudo o que eu vivi já não vale nada, a sabedoria está é nas pesquisas escritas e faladas pelos jornalistas e pelos cientistas políticos?

Diante de qualquer problema real e fundamental para o dia a dia dos brasileiros, chame-se o marqueteiro oficial e ele doura a pílula, transformando fel em mel, enganando com imagens bonitas e palavras vãs os incautos.

Até quando abusariam de nossa paciência?

O que o povo está dizendo nas ruas nesses dias me traz à lembrança fatos que ocorreram há muitos anos, em 1977. Vivíamos uma ditadura violenta e há muito tempo não se ouvia a voz do brasileiro, só sussurros ao pé do ouvido, todos desconfiados e amedrontados pela repressão que se anunciava a cada esquina e entrara sorrateiramente no íntimo de cada um.

Sinais de esgotamento do regime militar se evidenciaram nas vitórias da oposição nas eleições de 1974 para o Senado. O pacote de abril foi uma resposta pesada dos ditadores, mas as manifestações diante do corpo de Vladimir Herzog reabriram as veias do povo no rumo da reconquista da liberdade.

Foi aí que a juventude saiu às ruas, ela que estava calada pelas baionetas.

As ruas voltaram a anunciar um novo tempo. Comovido, fiz com Milton Nascimento uma canção de esperança e alegria pelo reencontro com a cidadania. A partir das passeatas era inevitável que a ditadura se dissolvesse. Em homenagem aos jovens de hoje recito o nosso “Credo”:

“Caminhando pelas ruas de nossa cidade

acendendo a esperança e apagando a escuridão

vamos, caminhando pelas ruas de nossa cidade

viver derramando a juventude pelos corações

tenha fé no nosso povo que ele resiste

tenha fé no nosso povo que ele insiste

e acorda novo, forte, alegre, cheio de paixão

vamos, caminhando de mãos dadas com a alma nova

viver semeando a liberdade em cada coração

tenha fé no nosso povo que ele acorda

tenha fé em nosso povo que ele assusta

Caminhando e vivendo com a alma aberta

aquecidos pelo sol que vem depois do temporal

vamos companheiros pelas ruas de nossa cidade

cantar semeando um sonho que vai ter de ser real

caminhemos pela noite com a esperança

caminhemos pela noite com a juventude.”

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em junho de 2013.

2 Comentários para “O país está vivo”

  1. “tenha fé no nosso povo que ele acorda
    tenha fé em nosso povo que ele assusta”
    Meus olhos também molharam e marejados me revelam que os irresignados estão nas ruas.

  2. Fernando,

    é reconfortante perceber que, também nos dias de hoje, os jovens pensam. Mais: sentem.

    Beijo
    Vivina

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