O espírito do tempo

Assombrados, vemos um senador que foi obrigado a deixar a presidência do Senado por ligações suspeitas com empreiteiras e por uso de notas fiscais falsas voltando à presidência do Senado.

Vemos, não menos assombrados, um suplente de deputado condenado à prisão por corrupção ativa e formação de quadrilha assumindo o cargo deixado vago pelo titular levantando os braços como fazem os lutadores de boxe e aclamado pelos seus pares, como fazem os “segundos” no canto do ringue do vitorioso da luta.

Zeltgeist, o espírito do tempo, explicariam os filósofos alemães.

Se essa é apenas uma pequena amostra do espírito do tempo, como alguém pode se espantar que num país onde essas coisas acontecem como se fossem naturais, um sujeito esperto abra uma boate que é uma ratoeira, com uma porta única de saída e cubra o teto clandestinamente com uma camada de espuma inflamável sem que ninguém perceba?

Na indescritível tragédia de Santa Maria seria de mau gosto politizar a culpa pela morte de mais de 230 jovens quando as famílias ainda tentam metabolizar as perdas que alterarão para sempre o rumo de suas vidas?

Mas a política, em seu sentido mais amplo, como a definiram os gregos, vem de politikós e, como repetia Bobbio, é uma atividade que diz respeito àquilo que é da cidade, da pólis, do interesse do cidadão perante a sociedade.

A pólis é do prefeito da cidade, a pólis é do governador, a segurança das pessoas está nas mãos das autoridades, está na mão dos fiscais que não fiscalizam, da polícia que não policia, dos bombeiros que não vistoriam.

Quantas culpas?

A do garoto estúpido da banda que comprou um sinalizador de 2,50 porque aquele mais adequado custava 70 e o acendeu em direção a um teto inflamável?

A dos donos da boate que montaram a ratoeira?

A do prefeito que deveria saber de tudo e não sabia de nada?

A dos bombeiros que talvez soubessem de tudo e fingiram não saber de nada?

Existe o destino, existe a fatalidade nas grandes tragédias e existe a soma de negligências, existe a indiferença diante do perigo que depois se transforma em choro convulsivo e arrependimento fatal, tudo isso existe.

E o que tem tudo isso a ver com eleição de senador suspeito, com deputado condenado e aplaudido? Tudo isso tem a ver com País, com nação, com maneira de uma comunidade ver e lidar com as coisas, por mais diferentes que sejam ou que pareçam ser.

Tudo isso tem a ver com zeltgeist. O espírito do tempo é a indiferença. Choramos e nos revoltamos no momento do choque, e quando se apagam as luzes da TV viramos as costas e esquecemos que tudo isso é nosso.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 1º/2/2013.

Um comentário para “O espírito do tempo”

  1. Excelente o texto do Sandro. Qual a pior notícia? A morte de 238 jovens ou a eleição da velha raposa para presidir o senado?
    Apagamos a TV e viramos as costas. Somos os culpados pelas mortes e pela eleição da velha e nojenta raposa.

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