Na hora do chá

Há tempos não nos víamos, mas nos reconhecemos de imediato. Não há cabelo branco, rugas, artrite, dor, que impeçam uma colega de jardim de infância de reconhecer a outra. Às vezes, com as do colégio, isso é difícil, mas as do jardim… sei não, não há dificuldade alguma! Será que é por que o olhar é o mesmo?

Foi um reencontro simpático, um alvoroço na sala, uma alegria, tudo de bom. E muitos ‘e aí?’ ‘e então?’ ‘e o hortelino?’ ‘nos trinques?’ ‘que bom!’ ‘ainda o nosso Mastroianni?’ ‘e a prima-bolha?’ ‘e aquele papalvo, com aquela fuinha?’…?

Para três velhotas fazíamos um bom barulho e as mais moças foram aderindo porque nós somos criaturas animadas, com um vocabulário que a maioria desconhecia e adorou!

Até que chegou o noivo, com o pai e o sogro e os irmãos. Estávamos num chá de panela e era preciso nos comportarmos de acordo. Foi o que fizemos.

O pai do noivo, que me deu a honra de me reconhecer aqui do Blog do Noblat, nos tirou da sessão nostalgia para perguntar em quem eu pretendia votar ano que vem.

“Eduardo Campos”.

Quando ele ia continuar o papo, uma emperiquitada, com mais maquiagem que a Saúde Pública deveria permitir, alteia a voz e me pergunta, quer dizer, pergunta não, atira:

“Mas você tem coragem, hein, depois de 12 anos de martírio votar num outro nordestino, aliás, outro pernambucano?”

Não sou muito de contar até cinco… mas lembrei a tempo que estava ali como convidada. Vá lá, pensei, um sorrisinho basta por ora. Mas ela estava a fim e, em nova investida, perguntou:

“Por que é que você vai cometer essa insanidade? Você é da elite!”

Suspiro profundo. Resposta:

“É verdade. Sou neta de imigrantes, dos dois lados. Meu pai era homem altamente inteligente e quem quiser ler a biografia dele, que não foi autorizada por mim porque isso não se faz, mas foi escrita por um excelente jornalista, Celso de Campos Jr, poderá descobrir como fui parar na elite. Já adianto que foi através do melhor caminho que há: colégios, aulas e livros”.

E, envolvendo as duas amigas com os braços, continuei:

Fui matriculada no Solarium Dr. Massilon Saboia, em Ipanema, sob a orientação das Tantes Margrete e Helena, uma escola infantil onde imperavam a ordem e a disciplina. E livros e brinquedos, muitos livros e brinquedos. Muita praia. E boas amigas.

Se todas as crianças recebessem a atenção e o cuidado que nós recebemos, este seria um país onde ser da elite era a regra. Qual a senhora acha que é o segredo da Suécia? Nem desconfia?

Um dos principais efeitos do ambiente de verdadeira elite do Solarium – sem Tartufos – é nunca dizer a ninguém o que a senhora me disse. Nem fazer a pergunta que me fez.

É saber que não há, em nenhum país, estado, cidade ou rua, pessoas só desse tipo ou daquele. Que somos todos seres humanos e como canta a grande Alberta Hunter, “there’s no difference after dark“…

Hoje é um bom dia para se pensar nisso. A passagem de João Goulart por Brasília… Tanto sofrimento, nenhum ocasionado por ele, ao contrário, se ele não fosse um homem simples e bom, o golpe teria sido uma revolução.

E para que tudo isso? Para voltarmos ao voto de cabresto?

Até mais ver.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 15/11/2013. 

Um comentário para “Na hora do chá”

  1. Ainda existem os cabrestos. O “bolsa família” esta seamana tão badalado e que a oposição teima em se dizer precursora. E agora “+médicos” iniciativa inegavelmente necessária só que tardiamente implementada e que será explorada coo cabresto da sociedade.
    Marina’S neles, com Eduardo Campos, FHC, e outros. Através do voto e não por golpe igual ao aplicado ao legítimo porqu eleito e plebiscitado Jango.

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