Construir, destruir

Semear, plantar, colher. Muita gente no mundo se esmera em construir, para si ou para outros. Formar uma família é um prazer e quase um dever para os que amam a vida e querem que ela prossiga de um jeito amoroso, pacífico e sempre renovador. Se existem tristezas em nossa existência, que ao menos não sejamos responsáveis por elas.

Mas a alegria é uma elaboração diária, uma criação que frutificará se fizermos a nossa parte, nossa compromisso solidário com os que nos cercam. A felicidade de assistir ao nascer e ao crescer de gente nova em nossa casa é imensa e conforta os corações.

O operário que trabalha a massa, o tijolo, e levanta paredes que serão abrigo de semelhantes é exemplo desse espírito de edificar. Compor uma canção, escrever um livro, executar cálculos matemáticos, pesquisar novos rumos e soluções para a humanidade. Estudar, ler, dançar, adquirir uma profissão e exercê-la com dignidade. Tudo isso são coisas simples e pessoais que, se não mudam o mundo, têm o poder de tornar melhor a vizinhança. E se cada um cuida de seu quintal, todos os quintais do planeta estarão limpos.

Existem também os que trazem no sangue e na alma a vontade de tudo destruir, explodir tudo o que foi construído. Só enxergam o ódio e a vingança e envenenam os ambientes em que circulam. Não é coisa de deus e diabo, é gente mesmo e também, seres que se comprazem em arquitetar estratégias e intrigas para levar ao caos, à demolição de tudo que foi elaborado para o bem comum. Querem explodir, fazer desaparecer, evaporar as conquistas do direito e da justiça. Só se quer democracia quando se está na oposição. No poder, esses esquecem toda a pregação de antes e embarcam no barco do autoritarismo.

Nenhuma lei é perfeita, naturalmente. Mas muitas delas são editadas depois de um consenso. Por carregarem, como tudo, imperfeições, não há mal que sejam alteradas no que couber. Mas corre no Brasil, há muito tempo, a visão de que para qualquer problema real que apareça se exploda o que existe e se faça uma lei inteiramente nova.

Em conversa, certo dia, com um ex-senador, defendi a idéia de que o Legislativo deveria cuidar mais de deslegislar do que em legislar. Pois, segundo a regra jurídica, ninguém pode alegar em sua defesa que desconhece uma lei. Ora, nenhum jurista conhece todas as leis do país, muitas delas inúteis e defasadas. Muito menos tem ciência delas o homem comum. Esse não seria um destruir, mas construir um melhor entendimento.

Poeta, na etimologia, é o que faz. Então, todos os homens e mulheres que, mesmo em modestos trabalhos, em pequenos lugares longínquos do interior dos países, elaboram qualquer obra em suas vidas-oficinas, são também poetas da humanidade.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em abril de 2013. 

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