A mão que embala o mal

Se o Ministério Público desagrada, reduza-se o poder do MP. Se o STF causa dissabores, cortem-se as asas do Supremo.

Se a imprensa critica e denuncia, controle-a. Essa é a lógica que impera no PT, partido que não se satisfaz com a maioria, nem mesmo acachapante.

Quer tanto a hegemonia plena que golpeia qualquer um que ouse discordar da ordem unida, cassando a palavra e o voto.

Que o digam os senadores Jorge Viana (AC) e Wellington Dias (PI), este último líder do PT, impedidos de discordar do prazo de vigência para as novas regras ditadas pelo governo para a criação de novos partidos.

Direta ou indiretamente, a mão e a mente do PT estão em todos os atos que castram os poderes daqueles que o perturbam.

Chegou ao cúmulo de fazer aprovar na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara um revide ao Supremo, que impôs reveses irrecuperáveis à imagem do PT.

Com votos dos mensaleiros José Genoíno e João Paulo Cunha, ambos do PT-SP, o projeto do deputado Nazareno Fonteles (PT-PI) retira prerrogativas constitucionais pétreas do STF, transferindo-as para o Parlamento.

A afronta foi tão assustadora que o aliado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), presidente da Casa, antecipou-se em suspender a tramitação da matéria.

Pôs panos quentes, mas não conseguiu evitar o acirramento da crise com o STF, que o PT não se cansa de atiçar desde o julgamento do mensalão.

Na outra ponta, por meio do aliado Fernando Collor (PTB-AL), o PT tentou intimidar o procurador-geral da República Roberto Gurgel, inimigo número 1 do partido, com a ameaça de uma CPI.

A idéia não prosperou, mas o partido estimula o projeto que limita as possibilidades de investigação do MP. Ainda que o PT tergiverse e diga que nada tem com isso, a PEC de autoria do ex-delegado Lourival Mendes (PT do B-BA) dificilmente chegaria onde chegou sem o aval do partido.

Quanto à imprensa, repete sempre que pode: não vai abandonar o projeto de controle, que, sem pudor algum, chama de democratização.

O PT tem poder legítimo e popularidade recorde. Mas parece invejar o conforto totalitário do governo da Venezuela, nação com democracia de mentirinha, que acaba de receber, assim como a derrapante Argentina de Cristina Kirchner, mais afagos da presidente Dilma Rousseff.

Não se chegou ao absurdo da ditadura bolivariana que quer encarcerar o líder oposicionista e mandou cortar salários e vozes de parlamentares que não reconhecem a vitória de Nicolás Maduro, arremedo mal acabado de Hugo Chávez.

Mas o PT está se empenhando em aproximar-se de tais descalabros. Move-se para sufocar a oposição, anular o Judiciário e pôr rédeas na imprensa.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 28/4/2013.

3 Comentários para “A mão que embala o mal”

  1. Uma corte como o Tribunal Constitucional da Bolívia estaria na medida para as exigências do PT. Evo Morales não poderia disputar o terceiro mandato, porque a lei só permite dois. Mas Evo sempre argumentou que o primeiro mandato ocorreu antes da refundação do País. Ora, se ele presidiu um país que não tinha sido refundado, o mandato também não tinha. Portanto, aquele primeiro não vale. O tribunal concordou, e liberou-o para buscar o terceiro mandato. E o presidente da corte explicou essa história de refundação direitinho, em coletiva à imprensa.

  2. O ideal seria que a América Latina, em sua inteireza (políticos, clérigos, empresários, jornalistas, instituições e cidadão comum), alcançasse um contrato social à la Rousseau.
    A América Latina aproximar-se-ia da Europa.

    Mas o que se viu, em 2002, são os canais de televisão venezuelanos e norte-americanos convocando o golpe de Estado na cara-de-pau, conspirando contra a quase-democracia do Chávez – à época, haviam lampejos de democracia -, em se invocando a liberdade de golpe, que eles qualificavam como liberdade “de expressão”.

    Os bolivarianos, competentes ou não, responderam com força.

    Sem o contrato social de Rousseau, não se pode esperar que os governos progressistas cucarachas sejam plenamente democráticos. Cairiam como castelos-de-cartas. Nem se podia esperar isso do francês Robespierre, e nem do russo Lênin.

    A decência da Europa é apenas um sonho abaixo do Equador. Para que cobrar isto de Caracas?

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