Vamos ler o Bartô

Quando se morre não há mais possibilidade de página em branco, a obra está completa. É deixar de existir e passar a ser, diriam os existencialistas, se é que aprendi bem a lição. Fechado e imutável, porém, o livro está ali, pronto para ser lido e desvendado.

A existência é o espaço do fazer, conviver, amar e construir. Uns edificam vidas que merecem aplausos e admiração. Outros, incitam nosso desprezo e indignação. Mas não é hora de gastar cera com os desnecessários.

No universo da família e da amizade, quem se vai deixa marcas robustas nos corações dos que ficam. Exemplos, palavras, gestos e ações são lembrados e não há como apagar os sinais deixados na passagem. Certas pessoas, ao se desprenderam do nosso círculo de gente que respira e se move, parecem saltar de sua inexistência para dentro de nós. Não ficam nos cemitérios ou crematórios. Ficam quietos dentro de nós e, quando menos esperamos, se manifestam. Não sei como explicar isso, pois me acontece, mas é uma dose de memória boa que me fortalece, me anima a prosseguir em meu caminho, cuidando melhor de minha plantação. É uma presença que me fala do passado, mas me diz mais do presente, do futuro e do universo em que habito.

Há o caso dos artistas, dos criadores. Esses nos deixam, além da possível grandeza humana, algo concreto. Ainda agora está anunciado nos cinemas a exibição do filme A Música segundo Tom Jobim. Dizem que é de chorar de felicidade estética. Guimarães Rosa, que se encantou tão cedo, nos deixou um mundo de alegria, conhecimento e arrepios em seus livros que encontramos nas melhores livrarias. O poeta Drummond, depois de morto ficou quase dez anos esquecido. Hoje é lido como se estivesse por aí dando sopa.

Eles se vão, param de escrever, pintar, compor e filmar, mas o que eles são está nos livros, quadros, canções e filmes que criaram. Essa a maravilha da arte, que permanece além da existência de quem a cria.

Há muitos anos, Antonieta Cunha, minha mestra, me falou do Bartolomeu Campos de Queirós. Só fui ter uma conversa longa e proveitosa com ele muito mais tarde, numa tarde de inverno, no restaurante do Minas. Com muitos amigos comuns, eu me encontrei com ele muito menos do que merecia. Nos poucos encontros, bebi com prazer de sua sabedoria. Poucos dias antes dele nos deixar, assisti embevecido, na TV Assembléia, a um longo depoimento seu . Uma aula de vida, criatividade, liberdade, educação e arte. Um ser humano, educador e escritor que precisamos continuar a ler.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas.

2 Comentários para “Vamos ler o Bartô”

  1. Fernando,

    com atraso, leio sua homenagem – mais que merecida – ao Bartô, escritor incrivel, amigo leal.
    Aprendi muito conversando com ele, lendo-o, ouvindo seus depoimentos aqui, ali, depoimentos, como você registrou, criativos, libertários e líricos.

    Um beijo da
    Vivina

  2. Ler os textos do Bartô será ouvir sua voz, conviver com a pessoa discreta, empenhada, sensível, criadora, doce de se conhecer e fácil de amar. Mas não há como escapar da ausência…

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