Uns versos

Fui tomado de uma violenta vontade de ouvir, pela décima bilionésima vez, a gravação de “Luar do Sertão” que o velho Lua fez com Milton Nascimento para seu disco de 1981, A Festa. Para mim, é uma das mais belas gravações que já foram feitas na história da música brasileira – e a música, tenho certeza disso faz muitos anos, é nosso melhor produto, nossa melhor commodity.

Michael Caine disse, uma vez, que “o Brasil é um clichê por um ótimo motivo: eu acho que o Brasil produz mais gente bonita do que qualquer outro país”. Michael Caine entende de gente bonita – casou-se em 1973 com um avião, um Boeing 747-400, Shakira Baksh, então com 26 aninhos (ele tinha apenas quarentinha).

E ele está certo: as mulheres brasileiras são estonteantemente belas, talvez mais que as mulheres de qualquer outro país. Porém, mais do que mulheres estonteamente belas, a música é o melhor produto brasileiro.

Depois de ouvir umas cinco vezes “Luar do Sertão” com as vozes espetaculares do velho Lua e de Mirtão, tive vontade de ouvir as mesmas vozes privilegiadas cantando “Légua Tirana”. Queria fazer um post no Facebook chamando para o pernambucano e o mineiro-carioca cantando a música de beleza estonteante. Não achei a gravação dos dois no YouTube.

Foi feita para um disco não de Lua, não de Milton, mas de Gonzaguinha, Coisa Maior de Grande, de 1981. Se você bota o CD Coisa Maior de Grande no seu aparelho de som, ou no seu computador, só aparecem 8 faixas. No computador, no iTunes, não aparece “Légua Tirana” – ela é assim apenas uma vinheta da primeira faixa, uma coisa longa, de 14 minutos, uma montagem de várias canções.

Por que, raios, os caras da EMI, na transcrição do LP para o CD, não separaram direitinho cada uma das muitas vinhetas que compõem uma faixa de 14 minutos?

Tentar ouvir “Légua Tirana” com o velho Lua e Milton, uma maravilha, das maiores maravilhas da música brasileira, é um exercício de paciência.

Mas não era bem isso o que eu queria dizer.

Queria falar de uns versos geniais – e uns versos bocós.

 ***

O eventual leitor já atentou para a beleza destes versos?

Oh, que estrada mais comprida

 Oh, que légua tão tirana

 Ai, se eu tivesse asa

 Inda hoje eu via Ana

 Quando o sol tostou as foia

 E bebeu o riachão

 Fui inté o Juazeiro

 Pra fazer a minha oração

 Tô voltando estropiado

 Mas alegre o coração

 Padim Ciço ouviu a minha prece

 Fez chover no meu sertão

 Varei mais de vinte serras

 De alpercata e pé no chão

 Mesmo assim, como inda farta

 Pra chegar no meu rincão

 Trago um terço pra Das Dores

 Pra Reimundo um violão

 E pra ela, e pra ela

 Trago eu e o coração

 ***

O parceiro do velho Lua que fez a letra para a melodia do pernambucano de Exu, o cearense de Iguatu Humberto Teixeira, era um sujeito preconceituoso, machista, conservador, mau marido, pai ausente e portanto mau pai, como comprova o magnífico documentário sobre sua vida produzido pela sua filha, a excepcional Denise Dumont. Mas que capacidade de fazer versos de beleza extraordinária…

O cara foi capaz de escrever isto aqui:

Quando o verde dos teus olhos

Se espalhar na prantação

Eu te asseguro não chore não, viu

Que eu voltarei, viu

Meu coração

 ***

Ah, meu, vá tomar…

Dá até raiva.

 ***

Pois então. Aí chego à minha idéia inicial, que era falar de versos bobos de gente de primeira da música brasileira.

No meio de tanta coisa genial, cometem-se pecadinhos.

Adriana Calcanhoto, uma das melhores coisas que já aconteceram na música brasileira depois da geração de ouro que estourou nos anos 1960, cometeu esta pérola:

E o inverno no Leblon é quase glacial

Ô Adriana, péra lá: como assim, glacial? Na pior madrugada do pior inverno desde que o Leblon existe, a temperatura mais baixa registrada deve ter beirado o quê? Uns 15 graus.

Em Três Homens e uma Noite Fria, do finlandês-carioca Mika Kaurismäki, um personagem, finlandês, em dezembro – inverno lá –, exclama, ao sair de dentro de um prédio protegido pela calefação: “Isso aqui é o Pólo Norte!”

Numa noite de dezembro na Finlândia a temperatura pode perfeitamente chegar a menos 20 graus. Talvez menos 30.

15 graus positivos, mesmo no Rio de Janeiro, não poderia jamais ser uma temperatura chamada de “glacial”.

Tudo bem: os cariocas estão acostumados a temperaturas malucamente altas. “Rio 40 graus” é de 1955, De lá pra cá, avançamos celeremente, à velocidade da luz, no nosso plano de destruir o planeta em que vivemos, e hoje 40 graus não chegam a assustar.

Mas é fantástico pensar que o verso “o inverno no Leblon é quase glacial” foi escrito por uma gaúcha, e não por uma carioca.

Bem, é claro que Adriana estava sendo irônica.

 ***

Mas e estes versos aqui, de “O Trem Atrasou”, de Arthur Villarinho-Estanislau Silva-Paquito, que Nara gravou no disco 5 na Bossa, de 1965?

Patrão, o trem atrasou

 Por isso estou chegando agora

 Trago aqui um memorando da Central

 O trem atrasou, meia hora

 O senhor não tem razão

 Pra me mandar embora !

 Se a Central fosse expedir um memorando para cada atraso de trem…

Mas tá legal. Pode ser apenas uma licença poética.

***

Mas e que tal este aqui, de “O Portão”, de Roberto e Erasmo?

Eu cheguei em frente ao portão

 Meu cachorro me sorriu latindo.

 Acho o verso “meu cachorro me sorriu latindo” uma das coisas mais feias da música brasileira. “Meu cachorro me sorriu latindo” é tão horroroso quanto é belo “Quando o verde dos teus olhos Se espalhar na prantação Eu te asseguro não chore não, viu? Que eu voltarei, viu?, meu coração”.

Nada contra Roberto e Erasmo. Sou tiete deles desde sempre. Mas que o verso é ruim, caramba, lá isso é.

Adriana, mulher bonita, daquelas de fazer Michael Caine babar, cantora e compositora extraordinária, bem dizia:

Escrevo uns versos

 Depois rasgo. 

13 de dezembro de 2012. Exatos 44 anos depois do dia do AI-5 – o primeiro ano, que eu me lembre, que nenhum dos grandes jornais fez matéria sobre a data. 

4 Comentários para “Uns versos”

  1. Sérgio os versos citados não são tão tolos, são como você diz, licença poética.Licença inteligente, pérolas da analogia, que transformam o concreto em poesia ou música. Calcanhoto, gaúcha,transformou o calor carioca num inverno “quase” glacial, pois 15 graus no Rio faz carioca vestir casacos e sobretudos, cafonice inteligentemente captada. Inverno quase glacial!
    Quanto aos memorandos, outra inteligente e lírica sacada aos costumes da época. Meu pai contava que os patrões exigiam a motivação do atraso aos empregados, que à época se valiam de um comunicado expedido pela Central do Brasil justificando o atraso dos trens. Destes se valiam os empregados.
    Quanto ao Roberto, duvido de sua inteligência, incapaz de tais versos.
    Para colaborar, outra pérola, para ilustrar este nosso papo furado. De Newton Teixeira
    Letra de Jorge Faraj.
    “Na rua uma poça d´água
    Espelho da minha mágoa
    Transporta o céu para o chão,
    Tal qual o chão da minha vida
    A minh´alma comovida
    O meu pobre coração”.
    Gravada por Silvio Caldas, Nélson Gonçalves e por Roberto Carlos dentre outros. Destaco ainda que a música foi musica-tema no filme “Lisbela e o prisioneiro” de Guel Arraes com interpretação de Geraldo Maia e violão Yamandú Costa (tema de Lisbela).
    Registro que seus papos furados são analogiamente deliciosos, bom de degustar, se papo se degusta.

  2. “Meu cachorro me sorriu latindo” e “Lua é que descanta,escondida na garganta
    desse galo, a soluçar” licenças poéticas fazem cachorro sorrir e galo soluçar. Os primeiros versos na verdade não sei de quem são,dizem de Erasmo e Robero os segundos de Catulo da Paixão Cearense.

  3. Miltinho: Meu cachorro me sorriu latindo é sem dúvida licença poética. Mas se essa licença tivesse que ser concedida por alguém, e eu fosse esse alguém, não concederia.
    Coisa de mau gosto!

  4. Entendo que o Inverno glacial do Leblon,é o que se instalou no coracão,após a partida do ser amado,naquele dia em que o poeta tinha um misto de alívio e felicidade.Assim nos sentimos com o final de alguns relacionamentos.É o inverno glacial da solidão.

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