Uma pedra do Fórum Romano

Fui a Roma, pela primeira vez, em 1982, dois ou três meses antes da Copa do Mundo, para entrevistar o Falcão, que jogava no Roma. Eu trabalhava, ao mesmo tempo, para o Jornal da Tarde e a revista Status. A idéia era pedir ao Falcão, já um estudioso do futebol, detalhes de como jogavam as principais seleções que o Brasil poderia enfrentar. Uma matéria para a Status. A matéria foi feita e publicada.

Mas, como qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade, me apaixonei por Roma. E, na primeira vez em que surgiu oportunidade, voltei para lá levando a Lúcia, minha mulher. Isso, calculo, deve ter sido nos primeiros meses de 83. Naquela época não havia por aqui, ou pelo menos eu não tinha, cartões de crédito internacionais. Fiz as contas e comprei dólares.

O que exigia economia. Não podíamos, todos os dias, ir a restaurantes. Então comprávamos pão, frios, uma garrafa de vinho, e fazíamos piqueniques. Que comíamos na Vila Borghese, outros lugares, e no Fórum Romano. Em uma dessas idas ao Fórum, vi uma pedra, pequena, com aproximadamente 10, 12 centímetros de comprimento, por uns três, quatro de altura. Ela havia sido parte de uma coluna – tinha ainda um entalhe redondo, típico desse tipo de colunas. E eu a levei. A idéia, como diz a Lúcia, não era roubar uma pedra do Fórum Romano, mas ter em casa uma das milhares e milhares de pedras que estão espalhadas por lá.

Mas um dia caiu a minha ficha. Eu havia cometido um crime, e pior, um crime de lesa humanidade. Há quem diga agora que eu exagero, mas um peso se instalou, imediatamente, sobre os meus ombros. Por que fiz isso? Como é que eu poderia reparar essa coisa horrorosa? O que me atormentou durante os anos seguintes, principalmente quando via a pedra em minha estante. Pensei: posso fazer um pacote e mandá-lo, anonimamente, para o consulado italiano em São Paulo, explicando a origem. Mas é claro que imediatamente me ocorreu: não, isso não vai dar certo.

Até que surgiu, três meses atrás, a idéia de uma viagem à Toscana, passando por Roma. Vou levar a pedra de volta, decidi.

E contei a história e a decisão em um almoço com o Sandro Vaia e o Elói Gertel, amigos meus, jornalistas. Foi a primeira vez que falei do caso a alguém. O Sandro apoiou. O Elói argumentou: “Veja, depois do World Trade Center as medidas anti-terrorismo aumentaram muito em todo o mundo. Há câmeras em todos os lugares. Vão te ver devolvendo a pedra e não entenderão se você está devolvendo ou tirando. Você pode ser preso”.

Mas eu já havia decidido. E lá fomos, 29 anos depois, a Lúcia e eu, com a pedra em uma mala. A primeira coisa que fizemos, depois de chegar a Roma e nos instalarmos em um hotel, foi ir ao Fórum. A Lúcia levava a pedra na bolsa. Chegando lá, peguei-a e a coloquei em um dos bolsos do meu jeans. Fazia algum volume, mas as pessoas só notariam se estivessem olhando para minhas calças.

E nos dirigimos para o lugar em que eu acreditava que a pedra estava quando a peguei. Tanto tempo depois eu só tinha uma idéia aproximada. Mas o acesso já não é possível: colocaram uma proteção metálica, baixa, impedindo a entrada. Bem, pensei, a única maneira é jogar a pedra lá. Foi o que fiz. Fomos andando devagar e joguei a pedra.

O alívio que imediatamente senti não consigo descrever. Continuamos andando, e um casal de brasileiros, baixinhos, que eu não havia notado, passou por nós. Eu ouvi o rapaz dizer à garota:

– O cara jogou uma pedra lá!

Ela não deu bola. Nem olhou para trás.

 Maio de 2012

Em Histórias que os jornais não contam mais, uma coletânea de reportagens de Anélio Barreto.

2 Comentários para “Uma pedra do Fórum Romano”

  1. Anélio, me desculpo imensamente por não me conter e lhe dizer isto: você não passa à História por ter atirado a primeira pedra, mas a última.

  2. AB, isso é que deixar pedra sobre pedra, hehehe. Parabéns pelo texto, excelente como de sempre.

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