Quando um homem ama uma mulher

Tu ama-la?” Vão no carro, Butch ao volante, Buzz enfi­ado no fato de Cas­per, o fan­tas­mi­nha feliz. Butch ainda tenta uma digres­são dis­trac­tiva: “Quem?” Mas a curi­o­si­dade de Buzz é obs­ti­nada e infan­til: “A senhora que nos cozi­nhou os ham­bur­gers…” E como é que se explica a uma cri­ança quando é que um homem ama uma mulher.

Butch e Buzz saí­ram a cor­rer de uma espe­lunca de estrada, como a cor­rer saem de todos os luga­res em que entram depois de um pequeno golpe de des­tino os ter juntado.

Butch, pre­si­diá­rio em fuga, tal­vez fosse um tipo capaz de fazer o bem a toda a gente se sou­besse como fazê-lo. Não se priva: faz o mal sem­pre que é preciso.

Buzz tem oito anos e nunca comeu algo­dão doce. A mãe, seca e soli­tá­ria tes­te­mu­nha de Jeová, não con­sente e tam­bém não o deixa andar na mon­ta­nha russa. Buzz dor­mia quando Butch e o cri­mi­noso que com ele fugiu da pri­são lhe entra­ram em casa. Corre mal a inva­são, como cor­rerá tudo mal neste filme que de tudo cor­rer tão mal tira a sua per­fei­ção. Os dois ban­di­dos levam-no, menino e de cue­cas, como refém.

Buzz des­co­bre em Butch o pai que nunca teve. O cri­mi­noso vê no miúdo o filho que nunca há-de ter. Por ele, mata o pedaço de má rês que é o seu com­pa­nheiro de fuga. Veste-o e dá-lhe de comer. Ia dizer, se lhe des­sem tempo, faria do miúdo um homem… E cor­rijo: mesmo no tempo que lhe dão, Butch faz dele um homem. Põe-no a comer doces, a con­du­zir um carro e a meter tra­vões a fundo, a ter con­fi­ança no peque­nís­simo piri­lau que, garante-lhe Butch, está muito bem para a idade que tem. O filme, incor­rec­tís­simo , é A Per­fect World e filmou-o Clint Eastwood depois de o ter muito bem escrito John Lee Hancock.

Quando já quase tudo ensi­nou ao miúdo e lhe matou a fome de tanta fuga, Butch, que no filme é um por­ten­toso Kevin Cost­ner, des­co­bre que tem mais fome do que a fome que no miúdo e nele já apa­gou. E Eileen, a senhora que cozi­nha ham­bur­guers, não deixa de ser a senhora que Buzz pensa que ela é, por ter ape­ti­tes que nem a mais aben­ço­ada cozi­nha sacia.

Man­da­ram o miúdo ape­dre­jar, lá fora, o que lhe ape­te­cesse ape­dre­jar. E aqui vol­ta­mos à obs­ti­nada curi­o­si­dade infan­til do pri­meiro pará­grafo: Buzz espreita e vê Butch bei­jar a senhora que mata a fome. Quando Clint Eastwood nos deixa ver o que os ino­cen­tes olhos de Buzz vêem, já Kevin Cost­ner beija a fundo o que mais ao fundo a senhora tem, até que, vendo que são vis­tos, páram estarrecidos.

Beijaste-a porquê?” Por­que sabe bem, por­que um tipo se sente bem, é o que Butch tenta expli­car ao miúdo. “Mas beijaste-lhe o rabo, hã”, insiste, cien­tí­fico, o garoto, “Tu amas a senhora?” E, de repente, o adulto Butch per­cebe que está salvo: “Claro que a amo. Beijei-lhe o rabo, não bei­jei?!” Num mundo per­feito só devia ser adulto quem nunca per­desse uns ino­cen­tes olhos de criança.

Este artigo foi originalmente publicado no semanário português O Expresso.

msfonseca@netcabo.pt

Manuel S. Fonseca escreve de acordo com a antiga ortografia. 

 

 

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