Os tapumes de Dilma

Só insanos poderiam criticar a decisão do governo federal de reduzir o custo da energia elétrica em 16,2% para consumidores residenciais e em 28% para a indústria. Melhor seria, porém, se o anúncio não fosse usado como moeda eleitoral e as novas tarifas começassem a valer já.

A medida foi antecipada em rede nacional de TV pela presidente Dilma Rousseff na noite anterior ao 7 de setembro, exatos 30 dias antes de o país ir às urnas para decidir o futuro de 5.565 municípios.

Mas tudo é para 2013.

O brasileiro paga a sexta conta de luz mais cara do mundo. Só perde para Dinamarca, Alemanha, Noruega, Itália e Suécia. Com impostos e encargos crescentes, que chegam a 45% da cobrança, na última década a energia nos lares subiu 119% e a industrial, 190%. Portanto, a diminuição do preço está longe de ser uma benesse.

Com a redução de tarifas, a ser detalhada na terça-feira em cerimônia no Palácio do Planalto, alivia-se o aperto da produção – emperrada pela associação da crise mundial com a política governamental bipolar de incentivos segmentados e carência de infraestrutura – e distribuem-se bondades aos eleitores.

Cumprindo um script marqueteiro, Dilma anuncia o barateamento da energia para o ano e injeta watts nas campanhas dos seus desde já.

Em favor da presidente, há de se dizer: ela faz a lição de casa direitinho.

Toda a energia de Dilma tem sido canalizada para o pleito que se aproxima. Além de transformar o pronunciamento do dia da Independência em um oba-oba de feitos do governo – algo no ritmo, tom e conteúdo semelhante ao “este é um país que vai pra frente” do regime militar -, assinou nota para contraditar o artigo do ex Fernando Henrique Cardoso, e gravou programas eleitorais para candidatos do PT de São Paulo e de Belo Horizonte.

Para si, poucos momentos sobraram. Só mostrou sua verdadeira cara – e enfezada – no palanque oficial das comemorações do 7 de setembro, em Brasília, onde não disfarçou a irritação com a demora dos desfiles.

Ali, sob a proteção de um aparato nunca antes visto para evitar manifestantes, Dilma, a mais popular número 1 que o país já teve, pode, enfim, ser ela mesmo.

A presidente passou longe dos protestos. Também não ouviu os aplausos. Não leu as faixas das esposas dos militares, perdeu as moças de topless que empunhavam cartazes contra a discriminação da mulher. Apartada pelos tapumes que enfeavam a paisagem da Esplanada, Dilma nada viu.

E nada vê.

Ergueu um tapume imaginário entre o Planalto e a Suprema Corte, como se o mensalão nada tivesse a ver com o governo Lula, do qual fez parte. Do qual defende a herança.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 9/9/2012.

Um comentário para “Os tapumes de Dilma”

  1. Só insanos poderiam criticar a decisão do governo federal de reduzir o custo da energia elétrica.

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