O insuportável Diego Mainardi

(Diogo não se incomodou nem um pouco com a possibilidade de o título acima ser dado a esta matéria. Ele próprio, em entrevista à Gazeta do Povo, reconheceu que nos últimos meses se transformou numa “pessoa bastante insuportável”. É um título chamativo, concordou. Especialmente para provocar a atenção de quem não gosta dele. Na certa, essas pessoas vão devorar as linhas que se seguem, em busca de sangue. Resta saber se ficarão saciadas.)

Um agente provocador com cara de galã do cinema italiano? Um dom-quixote que cutuca feras com lança curta? Um sujeito atrevido que só quer saber de sair bem na fotografia? Um direitista que defende George Walker Bush e a invasão do Iraque? Uma mente brilhante que zomba com estilo dos malfeitos de políticos, artistas e empresários brasileiros? Tem gente que concorda, no todo ou em parte, com o que está dito acima.

(Nota: esta matéria de Melchíades Cunha Júnior foi publicada originalmente em O Estado de S. Paulo, em 22/1/2006.)

O certo é que, depois de uma conversa de mais de três horas, a impressão que fica dele é a de uma figura zen, de fala educada, expressa em frases bem torneadas. Confessa, por exemplo, que sofre feito um iniciante em jornalismo para escrever sua coluna na Veja. Passa dias e mais dias da semana pesquisando temas e a forma de abordá-los nos 2/3 de página de que dispõe na revista. O mesmo sofrimento se repete ao receber a pauta do que será debatido no programa semanal de tevê a cabo Manhattan Connection, da GNT, onde contracena com Lucas Mendes, Caio Blinder e Ricardo Amorim. O consolo é saber que a internet fornece respostas para quase tudo do que precisa para não fazer má figura. Um outro é que, de seu escritório, com um virar de cabeça, ele dá de cara com a bela paisagem do Atlântico se esparramando pelos continentes ocidentais.

De nome inteiro Diogo Briso Mainardi, ele nasceu na hoje agonizante Maternidade São Paulo, na Rua Frei Caneca, em 22 de setembro de 1962. Uma de suas características mais marcantes: não liga a mínima para o que dizem seus críticos e detratores – que não são poucos. Diz isso com tamanha convicção e serenidade que fica difícil supor que ele não esteja sendo sincero. O pai é filho de italianos e a mãe filha de portugueses (o sobrenome Briso foi inventado pelo avô materno, que o achou bonito e teve por bem incorporá-lo aos descendentes, entre eles Diogo e seu único irmão, o cineasta Vinicius).

Nada mais brasileiro que um descendente de italianos e portugueses, não é? Mas o rapaz implica com o Brasil (até escreveu um romance chamado Contra o Brasil) e abomina São Paulo – a cidade onde nasceu. Também se fica sabendo, entre outras coisas, de seu extremado amor pelos filhos, em especial por Tito, de 5 anos, como se verá mais adiante.

Uma das histórias protagonizadas pelo filho do publicitário Enio Mainardi, tão polêmico quanto ele: acusado de subversão da ordem constitucional, foi absolvido no Supremo Tribunal Federal, num processo relatado pelo ministro Celso Mello e que lhe fora movido por um advogado inconformado com as críticas do rapaz ao presidente Lula.

Um assunto delicado

Existe pecha mais infamante que a de dedo-duro? Pois ele foi assim chamado, pelo veterano Alberto Dines, tido, com justiça, como um dos pais-fundadores da virada, para melhor, do jornalismo brasileiro. Um breve histórico: em sua coluna na Veja, edição de 7 de dezembro último, Mainardi citou nomes de jornalistas influentes, entre eles o do próprio Dines, como comprometidos e/ou a serviço do governo Lula ou do petismo. No site do Observatório da Imprensa, uma espécie de ONG por ele comandada, Dines deu uma primeira resposta: “Diogo Mainardi apenas se assumiu como representante nativo do macarthismo. A classificação é do próprio. Macarthismo mainardiano não passa de uma combinação da ancestral caça às bruxas com um despudorado narcisismo. Estes tipos de ‘dedo-durismo’ e delação não existem apenas em ditaduras e tiranias. Estão em toda parte, das gôndolas de Veneza aos bares da moda. Trata-se de um vírus mutante que pode manifestar-se ora como palhaçada, ora como megalomania ou, na sua versão mais recente, como furor inquisitorial.”

Diogo continuou no ataque de seu front no semanário, e Dines voltou a atirar: “É preciso reconhecer que Diogo Mainardi está prestando um enorme serviço ao jornalismo brasileiro. E quiçá mundial. Mais algumas tentativas de ressuscitar o macarthismo e o rapaz será convidado para a ceia de Natal da Casa Branca. À direita de Dick Cheney.”

(Em seus arrazoados, Dines poderia ter lembrado, como contraponto, que até pouco tempo as redações brasileiras adotavam uma espécie de pensamento único em relação ao PT. Poucos jornalistas tinham coragem de sair do armário para criticar, intramuros, Lula e seu partido. Desde Lenin, o esquerdismo, e não a esquerda, é considerado uma doença infantil. Daí não ser razoável confundir antiesquerdismo com reacionarismo, coisa que Dines não fez, aliás. O certo é que a queda do Muro de Berlim desnorteou muita gente que se diz de esquerda, e animou outro tanto que nunca aceitou o ‘socialismo real’ que era servido nos países do leste europeu. Aqui, a onda antipetista começou a ganhar volume com a revelação do escândalo Waldomiro e, com Roberto Jefferson, virou uma tsunami. O PT perdeu o encanto. A exemplo do que dizia o jardineiro português de Nélson Rodrigues a propósito do sábado, o Partido dos Trabalhadores é uma ilusão.)

Ironias

A polêmica prosseguiu, é claro. Provocados pelo site Comunique-se (feito por e para jornalistas), poucos nomes da lista de Mainardi aceitaram a luva. Vale registrar a verve com que um dos citados, o articulista Luiz Garcia, de O Globo, saiu-se da provocação: “Merda! Ele descobriu tudo!”

Nesta conversa com o Estado, Diogo fez ironia sobre sua polêmica com Dines. Disse que vai cobrar direitos autorais, já que foi ele próprio quem se classificou de ‘dedo-duro’. E repetiu: jornalistas traem sua missão quando se comprometem com o governo de plantão. E ninguém mais feroz do que ele quando se trata de um governo chefiado por Luiz Inácio Lula da Silva. Ele quer que o presidente não seja meramente derrotado em outubro, mas impiedosamente massacrado. Diz que Serra já ganhou a eleição, e adverte que daqui a três anos provavelmente estará pregando a sua derrubada.

Outra história de repercussão intensa no meio jornalístico, protagonizada por nosso homem. Ele decidiu por conta própria não respeitar uma revelação em off – uma instituição sagrada do jornalismo, qual seja a de não publicá-la, num compromisso tácito equivalente ao do padre confessor da Igreja Católica – que obteve do deputado José Janene, do PP, envolvido no mensalão do valerioduto. Em sua coluna na Veja, transcreveu o teor da conversa que teve com o parlamentar, quando o dito-cujo entregou o deputado cassado José Dirceu. O ex-chefe da Casa Civil de Lula, segundo a inconfidência de Janene, de fato cooptava deputados para votar a favor dos projetos de interesse do governo Lula. “Eu imaginei que o Janene não fosse falar comigo. Ele falou porque queria me usar como garoto de recados. Outros repórteres são obrigados a fazer esse papel, para manter fontes, para conseguir interlocutores políticos. Eu não tenho o menor interesse em ter interlocutor político de qualquer partido. A minha coluna não se baseia nisso”, explicou-se Mainardi na entrevista referida lá em cima.

Parajornalismo?

O jornalista Luís Nassif, em sua coluna na Folha de S. Paulo, disse que Diogo não faz jornalismo, mas parajornalismo. Os dois trocaram insultos de seus postos na imprensa, cuja malignidade maior ou menor pode ser aferida nos sites de pesquisa da internet.

Mas Mainardi concorda que nem sequer pode ser chamado de jornalista, já que não possui o registro profissional que a lei exige. Revela não dispor de qualquer diploma de curso superior. Depois do colegial, fez apenas o primeiro ano do curso de Economia da PUC de São Paulo e, durante sua estada na Inglaterra, freqüentou por tempo igual a London School of Economics, na qualidade de aluno ouvinte. Lembra não ser um exemplo isolado. Diz que Ivan Lessa e Paulo Francis – seus modelos de jornalista – têm um currículo escolar tão pobre quanto o seu.

Não foram poucas as rajadas de críticas ferozes endereçadas ao colunista, desde que passou a dispor de um espaço certo na Veja – dois terços de página, não mais do que três mil toques, ou caracteres do teclado de um computador. Considera os ataques recebidos como parte do ofício a que se propôs. E ele o exerce com um estilo que é também malhado por seus detratores, que o classificam de um subproduto de Francis. Brigas com cachorros grandes, de outras áreas extra-imprensa, também engordam o seu currículo. Dois exemplos: as que trava com o banqueiro Daniel Dantas e com o empresário Carlos Jereissati, irmão do presidente nacional do PSDB, que lhe move um processo na Justiça.

Seus escritos estão sempre entre os temas mais comentados na seção de leitores da revista. No Google, há 75 páginas com registros a seu respeito. Cada página remete a dez conteúdos. E ele acha que já chegou ao auge como colunista. Improvável.

À beira-mar plantado, cultivando a estima pelo silêncio

O visitante fica com inveja , sem a menor vontade de parar de contemplar a paisagem que se oferece do imenso living room do apartamento do terceiro andar, um legítimo Vieira Souto, onde mora Diogo, sua mulher Ana e seus filhos Tito, de 5 anos, e Nico, de 6 meses. Ana é de Veneza, historiadora, especialista em arte bizantina; desempregada, por suposto. O metro quadrado da Vieira Souto é o mais caro da orla carioca. Ninguém se refere a ela como avenida, e ninguém também está interessado em saber quem foi esse homem que dá nome a esse logradouro de Ipanema. Recorde-se que, pouco depois da morte de Tom Jobim, surgiu um movimento na cidade para dar o nome do compositor à avenida, que começa no Arpoador e só troca de nome quando a Praia de Ipanema passa a ser chamada de Praia do Leblon. De qualquer forma, um apartamento ali é chamado de um “Vieira Souto”. “Esqueçam essa história de trocar o nome para Tom Jobim”, aconselhou-se na época aos líderes mudancistas. Não se falou mais no assunto. A família Vieira Souto deve ter gostado. Mas isso também não tem a menor importância. Vieira Souto é mais do que uma placa; virou sinônimo de coisa chique, cara e exclusiva.

O apartamento é alugado. O prédio tem apenas quatro unidades, uma por andar, já que construído na época em que o gabarito máximo permitido para a região era de quatro pavimentos. (Ou seriam cinco?) JK morou num desses prédios, não muito longe de onde mora Diogo. O living room é amplo e com decoração mínima, estilo clean: dois imensos sofás brancos separados por uma mesa de centro retangular, quadros na parece com fotos do Rio antigo, e um televisor grande de tela plana. O casal Mainardi deve ter pensado que, por mais coisas atraentes que colocassem no living, elas se chocariam com a paisagem oferecida pelos janelões: o mar aberto, pontuado pela silhueta das Cagarras, encostando na linha do horizonte. A vista se oferece desde o fundo do living, e também do pequeno escritório do locatário. Para quem se aproximar dos janelões, o panorama se enriquece com a visão da praia e dos corpos de dezenas de garotas de Ipanema, neste meio de tarde de um janeiro em que o sol se abriu e o céu ficou azul, pondo fim a uma temporada de chuvas intensas e diárias.

O colunista de Veja e debatedor do Manhattan Connection, da GNT, diz que ganha bem, mas que gasta tudo. Só com o aluguel e condomínio já lá se vão mais de R$ 6 mil; o filho Tito consome outro tanto – fisioterapia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, escola… No fim das contas, não sobra um centavo para a poupança. Revela que vive sem esbanjamentos, que não tem automóvel, que praticamente não sai do quarteirão onde mora, que não se desloca mais do que dois quilômetros à direita de seu prédio, pela orla, ou por Ipanema adentro, e que quando tem que ir a lugares mais distantes vai a pé ou de bicicleta.

Diogo tem amigos famosos. Considera isso uma sorte. De São Paulo, cita o hoteleiro-restaurateur Rogério Fasano e o jornalista Mário Sérgio Conti, que foi quem o levou para Veja. Do Rio, Millôr Fernandes e Danuza Leão, com os quais janta com uma certa regularidade. Diz que, ao vivo, Millôr e Danuza são tão interessantes quanto aparentam ser para quem os lê. Explica que nesses encontros fica calado, escutando. Concorda com a observação feita por Paulo VI, quando de sua visita a Nazaré, de que é preciso ter estima pelo silêncio. Em seu caso, acha que é de caso pensado. Por isso, ouve mais do que fala, classificando seu mutismo de contemplativo, não de isolamento. Ressalta que a melhor coisa que fez na vida foi calar a boca na hora certa. Isso lhe valeu, entre outros ganhos, um convívio afetuoso com o falecido Francis e com os vivíssimos Ivan Lessa e Millôr – seus eternos paradigmas.

Polemista, no ataque e na defesa

Em sua entrevista ao Estado, Diogo Mainardi se defendeu e também deu sua opinião sobre pessoas e acontecimentos. Alguns exemplos:

Lula

“Hoje em dia sou muito cumprimentado por homens e mulheres. A maioria me diz: ‘Vai lá, acaba com o Lula, bate nele, você está batendo até pouco.’ Em 2005 eu defendi que o Lula fosse tirado da presidência, e acho que ele deve ser responsabilizado penalmente. A questão é se ele vai ou não para a cadeia. Não é sobre se ele vai ganhar a eleição ou não. Eu considero ilegítimo o seu mandato atual e acho que ele nem poderia ser candidato à reeleição, por tudo o que aconteceu. A recandidatura Lula, se ocorrer, é fruto de uma maquinação entre o PSDB e o PT. Ele foi salvo pelo PSDB, que não teve peito para propor seu impeachment.”

Serra e Alckmin

“Se for candidato, o Serra já levou a eleição. O nível de rejeição, o ódio que a classe média tem hoje em dia pelo Lula é algo que não pode ser contornado. Todos esses votos vão para o candidato com melhor chance não apenas de derrotar, mas de esmagar o Lula. E Serra é o único que pode fazer isso. Acho até que o Alckmin pode ganhar do Lula. Mas eu quero alguém que o esmague. E meu projeto futuro será derrubar o Serra daqui a três anos. Por que não? Acho uma estupidez o voto nulo em outubro. É preciso dar uma punição exemplar ao PT e ao Lula.”

Gore Vidal

“Eu o conheci em São Paulo, quando fui convidado pelo Luiz Schwarcz para ser seu intérprete quando ele veio ao Brasil fazer a promoção de seu livro de ensaios chamado De Fato e Ficção. Foi um dos primeiros lançamentos da Companhia das Letras, para quem eu já fazia uma espécie de consultoria em literatura anglo-saxônica. Na Itália, voltei a conviver com ele, e a grande frase a respeito desse convívio quem fez foi o próprio Vidal. Assim que ele me conheceu, ele me disse: ‘Olha, você não precisa se preocupar, porque você é velho demais para mim.’ Velho porque eu tinha 22 anos… Nessa época ele não era casado. Ele tinha o secretário dele, com o qual ele jura não ter tido nenhum tipo de relação.”

Arnaldo Jabor

“Ninguém é mais divertido do que ele, e nada mais divertido para mim do que debocharem do Jabor. Ele se expõe, não tem medo do ridículo. Ele fala mal de mim, em particular. É claro que ele é muito mais divertido do que eu. Mas no jogo de cena público, ele não fala nada a meu respeito, ele não quer levantar a minha bola. Mas no primeiro ano e meio do governo, Jabor era lulista. Dizia que o Lula era pessoa digna, que soube resistir aos acadêmicos de esquerda e ao sindicalismo burro, que conseguia pairar acima de todo mundo. Jabor fazia o panegírico da figura Lula. Mas, ultimamente, ele e todo mundo metem o pau no Lula.”

Jornalistas

“Eu estou me lixando de poder ou não ser chamado de jornalista. O Luís Nassif disse que eu sou um parajornalista, e eu acho uma definição perfeita. Ainda existem lulistas camuflados na imprensa. E eu gostaria de saber quantos jornalistas sabiam do esquema Marcos Valério antes que ele viesse à tona na entrevista do Roberto Jefferson. É inacreditável, para não dizer escandaloso, que o caixa dois do PT tenha ficado sem qualquer registro na imprensa por tanto tempo. Gostaria de saber se os jornalistas de Brasília falaram com seus chefes sobre os boatos que corriam a respeito, se fizeram alguma coisa para apurá-los. Sem falsa modéstia, fui dos primeiros a desmascarar o Lula e o PT. O jornalista no Brasil se considera o guardião da civilidade. Esse é o problema. Ele acha que pode determinar o que o leitor deve ou não deve saber. Acha que o leitor deve saber apenas o que ele, jornalista, acha que é bom para o processo civilizatório. Na política, o jornalista de Brasília tem informações privilegiadas, sabe de coisas que o leitor não sabe. Na economia, o de São Paulo é o mais informado; o do Rio sabe de mais coisas na área cultural.”

Delação

“Existia nas minhas palavras uma tentativa de romper essa onda corporativista, onde jornalistas não revelavam intenções recônditas de colegas. No caso Janene, sem dúvida cometi uma traição; no caso dos jornalistas, também. Mas existiu um trabalho de apuração. Eu obtive as informações e as transmiti de maneira grosseira, tentando dar a linha ideológica de cada jornalista que citei. Mas essas informações não saíram do nada. Eu uso muito o meu faro, que funcionou em alguns casos. Mas não fui leviano em nenhum momento, e não recebi até agora nenhum tipo de evidência que contrarie o que eu escrevi. Os piores insultos que me dirigiram fui eu mesmo quem os atribui a mim mesmo. Me acusam de dedo-durismo, de macarthismo, isso está lá no meu texto. Agora que estou sendo processado pelo Carlos Jereissati, ele usa as minhas frases contra mim, o que não deixa de ser paradoxal. Para demonstrar que sou injurioso, ele cita os meus artigos, onde eu faço auto-ironia, me autodeprecio.”

Dinheiro

“Não sou um homem rico, não tenho nenhuma propriedade. Meu pai? Coitado, torrou todo o dinheiro que ganhou. Ele foi rico. Apartamento em Nova York, em nome dele? Coitado, tá tudo penhorado ou vendido. Ele não tem nada. Moro aqui na Vieira Souto com o que ganho. Não tenho um tostão em caderneta de poupança. Eu gasto exatamente tudo o que eu ganho.”

Iraque

“Acho que a guerra já deu resultados, como a derrubada do Saddam Hussein e a realização de eleições livres, três até agora. Ela vai fazer bem aos iraquianos. Não tenho dúvidas de que é possível criar lá uma democracia. Mas eu sempre disse que essa guerra vai fazer mal aos Estados Unidos.”

Falando de um moleque, com paixão e otimismo

O pequeno Tito chega à sala no colo da mãe e encara o visitante. São muito belos e sugestivos os olhos desse menino. Daí a pouco ele decide caminhar com as próprias pernas, com umas das mãos agarrada no braço da mãe. Embora não fale, é como se ele dissesse a todos os que o vêem naquele momento: “Vejam, já sou capaz de andar.” E Tito cumpre uma pequena caminhada sem o andador. Sabe que ainda não chegou aonde quer chegar, aonde seus pais, os parentes, os amigos de seus pais querem que ele chegue num dia desses. A primeira caminhada, assim meio desajeitada como essa de agora, é uma conquista recente. Foi um momento mágico que os pais continuam a festejar nesta segunda segunda-feira da segunda semana de janeiro de 2006. O pai diz estar vivendo um porre de felicidade por ter gerado e por conviver com esse menino. Um porre que já dura cinco anos, nos quais se desconta apenas uma paroxística temporada no inferno, com cinco dias de duração. Por incompetência do obstreta da maternidade pública de Veneza, Tito ficou sem respirar por uns mínimos instantes, logo após ser retirado do ventre da mãe. Paralisia cerebral, foi a seqüela do descuido médico. Levado para a UTI, passou cinco dias brigando com a morte. A vitória do bebê deu início à temporada de mistérios gozosos de Diogo, rejuvenescida com o nascimento de Nico, há seis meses. São do pai este depoimento sobre seu primogênito:

“Meu filho nasceu quase morto. Passado esse período na UTI, não tive mais sofrimento por um único segundo. É um moleque que só me traz amor, dedicação e prazer. E isso é perfeitamente explicável: é uma criança maravilhosa, inteligente, rápida, bem-humorada, que tem uma couraça sentimental absolutamente inatingível. Nosso intercâmbio é rico como jamais tive com nenhum ser humano. É recente que ele ande sem o andador. Com o andador ele faz quilômetros, é um andarilho. O prognóstico para o futuro é extremamente favorável. Hoje em dia a gente nem se pergunta mais. Eu e minha mulher sabemos que é um moleque que vai se virar na vida. De alguma maneira ele vai se virar…”

E por e-mail, Diogo Mainardi esboçou, a pedido, este breve auto-retrato:

“Sou um otimista, um idiota panglossiano, acho que todas as dificuldades podem ser superadas. E, quando não podem ser superadas, pelo menos podem ser toleradas. Falta-me profundidade psicológica. Eu já disse: sou unidimensional, raso. Me vejo como um bode cubista: está tudo ali, achatado no mesmo plano. É assim que vejo os outros também: somos todos uns chimpanzés. Não dá para exigir uma intensa vida interior de chimpanzés. Importante, para mim, são as tarefas domésticas, sobretudo catar piolho na meninada.”

P.S.: Diogo não quis deixar seu belo filho ser fotografado pelo jornal. Disse que iria consultá-lo, mas considerou improvável obter a concordância do menino. Explicou que Tito não gostara nada de ver sua cara estampada recentemente na Veja, em companhia do colunista e do irmão Nico.

Esta matéria foi originalmente publicada em O Estado de S. Paulo, em 22 de janeiro de 2012. 

Meu amigo Melchíades Cunha Júnior, colaborador (bastante bissexto, é verdade) deste 50 Anos de Textos, me perguntou o que eu acharia de publicar aqui esta matéria. Ele, Melchíades, havia relido o texto, e achado legal, especialmente na parte que trata do filho de Diego Mainardi, objeto do livro A Queda, lançado poucos meses atrás.

Melchíades lembrou que o doutor Ruy Mesquita detestou a matéria, achando que o personagem não merecia tamanho destaque no jornal dele. O diretor de redação à época, Sandro Vaia, estava fora, e, pelo que Melchíades se lembra, o doutor Ruy chamou o segundo dele, Flávio Pinheiro, e deu-lhe uma grande bronca.

Eu, aqui no meu cantinho, digo que não tenho nenhuma admiração por Diogo Mainardi. Na verdade, não conheço muito o que ele diz, porque, por preguiça, jamais li mais do que as primeiras linhas de seus textos. Mas se o Melchíades sugere que se publique aqui a matéria dele, publicada está. (Sérgio Vaz)

 

 

3 Comentários para “O insuportável Diego Mainardi”

  1. Justa a publicação em 50 anos de texto. O Diogo é disparadamente o melhor representante do antilulopetismo. Provocativo e mordaz, consegue irritar a todos os hipócritas e falsos moralistas. Suas idéias sobre os jornalistas deseperta ódio de uns e inveja de outros. Não gosto do Diogo. Leio o Diogo, ele me faz sentir um imbecil de babar na gravata. Nelson Rodrigues, Ivan Lessa, Paulo Francis,Millor, Joâo Saldanha, Tostão e Diogo Mainardi usam as palavras como um fino estilete que perfura sem sangrar muito, apenas o suficiente.

  2. Diogo é brilhente, casado com um amulher linda e seus filhos são jóias amdas pelo paie pal mãe. O que elke diz é pouco essa enganação chamada PT é admirada por gente
    mal informada e que queria saber como seria uma experência e se deu mal o que ele fez foi por amor ao Brasil e ele nem ama o Brasil. Como amar um pais que não trata seus cidadãos que recebe iopostos e não dá retorno a quem paga. è so ver os jornais é roubo e norte em todos os canais as pessoa nãoprecisam matar mas o ódio está na pessoas basta provocálas. Ele é infaliível e dá mesmo na cara Alguém tem de dar. Esse 19,5 tem de sumir de cena de vez. Deixar a Dilma governar, pelo menos isso se ekl osta do Brasil

  3. não conhecia tão bem o Diogo Mainardi, embora sempre o tive em excelente conceito. Mais ainda agora, que sei que odiamos Lula e eu também odeio São Paulo (sampa), onde também nasci e, a propósito, na mesmíssima Maternidade São Paulo!!!!

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