Eu reacionário filho da mãe me confesso

O leitor mais fiel e constante deste site – ou, pelo menos, o leitor que mais comenta o que sai aqui – é um ex-petista empedernido.

As coisas tomam rumos absolutamente imprevisíveis.

Como se os autores de uma obra de ficção se surpreendessem com seus personagens adquirindo vida própria e assumindo eles mesmos as rédeas de seus destinos, até mesmo contra a vontade de quem está escrevendo.

Como se Anna Karênina, ou Piotr Bezukov, se revoltassem contra Liev Tolstói e resolvessem fazer eles mesmos sua história.

Como se alguém se virasse para Deus e berrasse, indignado: “Não sou seu filho!”

Aliás, qual é mesmo o personagem de um grande filme, baseado, tenho quase absoluta certeza, num grande livro, que berra, indignado, “Não sou seu filho”?

***

A idéia original era criar um site para publicar meus textos antigos, coisas que escrevi na vida – reportagens, resenhas, trechos de memórias, lembranças. Mais um ou outro texto que expressasse minha indignação com os absurdos do país. Foi Mary que sugeriu que agregasse também textos de amigos queridos. Como escrevi na Apresentação: Este site foi criado no final de novembro de 2009 para reunir alguns textos que escrevi ao longo da vida. Agrupa também textos de amigos meus. E, já que o espaço existe, vou colocar aqui o que me der na telha escrever de agora em diante – queixas, reclamações, comentários, pau no que acho absurdo. Uma coletânea do passado, misturada com uma espécie de blog de leitor de jornal, um espaço para exercer o sacratíssimo jus sperneandi.

Com o tempo, os textos antigos começaram a ralear. Ainda há muita coisa que escrevi no passado que não botei aqui – reportagens, resenhas sobre discos –, mas é preciso digitá-los, e estou sem que os digite, e com preguiça e sem tempo para fazer isso eu mesmo.

Muitos dos amigos não comparecem com a assiduidade que seria de se esperar.

E, com os artigos semanais de Mary Zaidan e Sandro Vaia escritos para o Blog do Noblat mas republicados aqui porque os autores são mais próximos de mim que do Noblat, mais o meu semanal pau na Dilma e no lulo-petismo, o 50 Anos de Textos acabou virando um blog quase de uma nota só.

Impedem que ele seja um blog de uma nota só o artigo semanal de Manuel S. Fonseca sobre filmes & política portuguesa e a vida o amor a morte, que esse extraordinário intelectual português permitiu que eu republicasse aqui, e eventuais colaborações de Valdir Sanches, com seu texto sempre saborosíssimo, o grande Fernando Brant, com seu crônica semanal do Estado de Minas naquele estilo despojado, simples, mineiro, e  Jorge Teles, com seu texto desconcertantemente, bergmaniamente metafísico.

Às vezes o próprio Valdir manifesta uma certa inquietação com os caminhos que o 50 Anos tomou, por conta própria.

Mas quem mais cobra, reclama, xinga, protesta, comenta, é meu leitor mais fiel e constante, meu amigo Milton Jorge.

***

Uma figura, o Milton.

A cada semana, implica com o Más Notícias do País de Dilma. Basta eu postar mais um volume do Más Notícias do País de Dilma, lá vem uma mensagem do Milton reclamando, protestando, chutando o pau da barraca.

Me chama às falas. Diz que gosta mais quando eu falo de música do que quando eu falo de política. Deixa claro que gostaria mais de ler textos meus do que me ver perdendo tempo compilando textos publicados na Grande Imprensa.

A rigor, o que ele quer dizer é que eu não entendo porcaria nenhuma de política, de economia, de nada – só de música. E então eu deveria me ater a falar de música.

Mais que pejorativamente, me chama, de maneira agressiva, de compilador.

Nisso, ele faz, cariocamente, algo parecido com o que faz, suavemente, o Valdir Sanches. O Valdir, educadissimamente, sem dizer com todas as palavras, me manda mensagens que querem no fundo significar que prefere meus textos sobre música a minhas compilações jus sperneandi sobre o Estado da Nação.

Valdir, como Milton, é um ex-petista – ou quase. Ou talvez. Não sei bem. Mas Valdir é suave, tranquilo. Milton é bravo, furibundo.

***

Demorei para entender a posição atual do Milton. Demorei muito. Talvez eu seja, como ele acha, um imbecil, politicamente falando.

Eu não conseguia entender como um ex-petista protestava tanto contra textos anti-petistas.

Ué: se ele é ex-petista, não é mais petista. Então por que se indignar tanto com críticas ao partido que ele já abandonou?

Foi alguns dias atrás que me caiu a ficha.

Milton abandonou o PT quando o PT, no início do primeiro mandato de Lula, traiu seus ideais, abandonou o socialismo e abraçou o neoliberalismo de Fernando Henrique Cardoso. (Isso na visão dele, é claro.)

Então Milton acha que os 62% que aprovam o governo Dilma são massa de manobra, inocentes úteis, imbecis úteis. Porque estes 62% – os pobres, os que precisam da Revolução Socialista – apóiam um governo que finge que é socialista, mas na verdade age como neoliberal reacionário capitalista filho da puta.

O resto, os outros 38%, esses aí, que votam nos tucanos filhos da puta, reacionários, retrógrados, direitosos, trogloditas, capitalistas de primeira linha, esses estão contra a Revolução Socialista porque têm medo de perder suas jóias, suas propriedades, seus apartamentos em Miami.

***

Interessante. Pelo que vejo do raciocínio do Milton – e me responda, com argumentos, Milton, pelamordeDeus, dizendo onde eu errei aqui –, não há 1% certo. Quem apóia o lulo-petismo, os 62%, são inocentes úteis, que estão sendo comprados – dinheiro da Bolsa Família em troca de não se inscrever na guerra mundial pela implantação do Socialismo. Os outros 38%, esses são todos filhos da puta, reacionários – quase mesmo fascistas, quase nazistas.

Não sei bem onde eu me encaixo – nem onde ele, Milton, se encaixa. Não sou propriamente um inocente útil, nem tampouco um fascista, quase nazista.

Ele também não.

Mas ele não admite a existência de sequer 1% de brasileiros que não sejam ou bem inocentes úteis, ou reaças filhos da puta.

***

Acho que, ao menos em parte, o Milton tem razão. Eu sou imbecil que só sabe mesmo é falar de filmes e discos. Os petistas e ex-petistas é que compreendem como o mundo funciona. Nós, os reacionários filhos da puta, só somos isso mesmo, reacionários filhos da puta. Nós queremos que o país continue tendo esse profundo abismo entre os riquíssimos e os pobres. Nós queremos perpetuar a desigualdade.

O que a gente ganha com isso, não sei muito bem. Ao que eu saiba, quem mama nas tetas do Estado e se dá muito bem com elas são os companheiros socialistas, comunistas, ah, isso não importa muito – todos petistas, enfim.

Euzinho, tornado reacionário filho da puta depois de velho, não ganhei um tostão furado de ninguém – nem de Washington, nem de qualquer tipo de federação ou sindicato de indústria, comércio, agricultura, coisa alguma.

Mas um bando de cumpañeros (de tempos atrás ou recém chegados), esses recebem dinheiro do Banco do Brasil, da Caixa, da Petrobrás, de qualquer um das 108 ou 219 estatais ou para-estatais.

Mas nós que ganhamos sequer um tostão de porra alguma somos reacionários filhos da puta, enquanto os cumpañeros estão aí para fazer justiça social, e então tudo bem.

Eles são geniais, eles é que entendem o mundo, eles é que sabem tudo, inclusive roubar e fingir que não roubaram nada, e depois dizer que a culpa do roubo deles é da oposição, da burguesia filha da mãe.

***

Pois então é assim, caríssimo amigo Milton.

Vou continuar dando meu murrinho semanal em ponta de faca.

Pra falar bem a verdade, adoro dar meu murrinho semanal em ponta de faca. Não adianta coisa alguma – a única coisa que consigo é que meu amigo ex-petista socialista eterno diga que eu preciso parar de fazer isso.

Cada vez que um ex-petista socialista eterno me disser que é pra parar com isso, mais me dá vontade de continuar meu murrinho em ponta de faca.

Sou do tempo antigo. Sou do tempo em que jornalista tinha que ser necessariamente oposição.

Jornalismo é oposição, dizia Millor Fernandes. O resto é armazém de secos e molhados.

Eu não sou comprado. E não sou armazém de secos e molhados.

Outubro de 2012

11 Comentários para “Eu reacionário filho da mãe me confesso”

  1. Aleluia, legal, porreta, genial o texto. O compilador se emputeceu! È isso aí amigo Sérgio Vaz, você não entende só de música e filmes. Tem seu próprio conhecimento político,nada reacionário. Sua opinião contra o Lula é bem vinda, não suporto sua submissão aos reacionários que compila. Se é para compilar que seja: Sergio Vaz, Brant, Vaia, a sogrinha, o português, o esperantista do Paraná. Porra! para de compilar matérias mediocres e enganjadas. Continue anti Lula, sempre! ele merece. 50 anos de textos é uma descoberta para mim, me aproxima e reaviva meu sonho socialista. Não tenho muita coisa, tenho o suficiente, mais que muita gente. Leio, escuto, opino, contesto,”50 anos de texto” é meu espaço. Aprecio os seus belos textos originais e recheados de existência. Textos políticos, poéticos, vividos, baseados em livros, filmes, discos, e na política. O blog é como se diz, espaço nas redes sociais, é democrático no qual exerço minhas insurgências. Estas, caro Sérgio, se dirigem, com seu perdão, aos textos babacas compilados(babacas os textos, não o compilador em seus murros em ponta de faca).

  2. Sérgio meu amigo, fugir da idéia original pode dar a “50 anos de textos” um novo horizonte. Você escreveu por 50 anos, mas não esgotou os 50 anos por vir. Escreva amigo, compile seus amigos e colaboradores, fale de música, de livros de vida. estarei sempre aqui te lendo, apoiando, e respirando…!

  3. Ufa, ainda bem! Por um momento, lá pelo meio do texto, achei que você iria parar de escrever sobre política!
    Abraço!

  4. “É necessário que se lembre que a generosidade que existe no mundo vem muito mais de pessoas comuns, aquelas que vivem e sofrem o mesmo que seus vizinhos. Não de quem quer se promover, sair nos jornais e postular posições na política ou na sociedade”. (Fernando Brant em “50 anos de textos”). Existe muito mais de 1% de inocentes úteis, são 62% pessoas comuns que engrossam as estatísticas de aprovação de um governo considerado legítimo. São pessoas solidárias e que sofrem como seus vizinhos. São esperançosos, são pessoas que vivem do próprio trabalho, não possuem poupança e são escravizadas pelo mercado de consumo global. Sonham com um telefone celular, uma tela plana, um churrasco na lage, pagam contas de água, pagam energia, aluguel, carnes das casas bahia, transporte, comem pouco em relação ao muito que suam. São otimistas por natureza, formam um contigente de “imbecis úteis” que legitimam, pelo voto, os poderosos de plantão.Não sou exceção, me encaixo e sou solidário com os 62% que aprovam o governo Dilma, por inocência e solidariedade com os meus. O restante 32% do eleitorado, fazem oposição e acreditam no mercado, no FHC, na globalização, no consumo. Estes 32% acreditam no capital, creem piamente que a igualdade será conseguida com oportunidade para todos, amam o capitalismo sem considerar os modos de produção e as desigualdades por eles produzidas. Não se avexe não compilador, minhas criticas são voltadas aos textos, inocentemente compilados. Ao se confessar reacionário filho da mãe, o compilador (sem pejorativo) mais uma vez se equivoca ao fazer o autopiedoso julgamento. Paticipar de “50 anos de textos” faz exercitar o instinto polêmico existente em mim, anarquista por natureza, mas dócil, crédulo e solidário. Respeito as opiniões do meu amigo Sérgio, sou solidário com algumas e divergente em outras, mais especificamente àquelas compiladas e de autoria duvidosa. Exerço aqui publicamente meus “achismos” em virtude do democrático e relevante espaço aberto. Afinal o forum em questão “não é um armazém de secos e molhados”.

  5. Milton não tem razão. Adoro seus textos antigos,suas reportagens passadas, mas,acho maravilhoso você expressar sua indignação com o momento político atual . Continue com seus murros em pontas de facas, mas, de quando em vez, fale de música, de filmes,pois a indignção não tira de você a delicadeza e o amor às artes.
    Abraços
    Lúcia

  6. Da minha parte, é que prefiro ler um bom e revigorante Sérgio Vaz da música e da vida, seus relatos de viagem, do que aumentar a produção diária de bílis produzida pelo noticiário. Nunca fui petista, apenas dava preferência a candidatos desse partido, por considera-los mais éticos do que o rebotalho geral. Quando caí na real, tive forte ânsia de vômito e me curei.

  7. Aqui do meu cantinho em Brasília, confesso que fiquei com ciúmes ao ver esse tal de Milton ganhar o título de mais fiel e constante leitor do blog. Apesar de quase não postar comentários, sou um leitor bastante frequente. Duvido que ele já tenha acessado o blog enquanto apreciava o mar de Ponta Verde-Maceió, como eu. O Sérgio sabe do que estou falando. Reivindico, portanto, uma vaga na fileira da frente da categoria de macacos de auditório do Sérgio Vaz, principalmente devido às suas análises políticas. Além disso, levo certa vantagem sobre o Milton por não ser ex-petista, por não ter do que me arrepender nessa questão. Nunca, na verdade, fui enganado por essa turma. Desde o início senti um cheiro de facismo nesse partido, que demoniza seus adversários políticos, tratando-os como inimigos em uma guerra, e gostaria mesmo é de ter o monopólio eterno do poder. Eles nunca entenderam que democracia e liberdade significam, primordialmente, o reconhecimento do direito que os outros têm fazer oposição às nossas idéias. Não admitem críticas, detestam a liberdade de pensamento e não cansam de elogiar ditadores, inclusive admiradores confessos do nazismo, como ahmadinejad. Afinal, o mensalão não passou de um atentado à democracia, perpetrado por gente que sente desprezo por ela e pretendia implantar aqui uma farsa no estilo Chaves, aquele filhote de Mussolini.

  8. Seria maravilhoso se o Sérgio Vaz expressasse suas próprias opiniãoes políticas e as dos seus colaboradores. Veja como as opiniões de Lucia Zaidan,Valdir Sanches e Luiz Carlos enriquecem “50 anos de textos”. Notícias já divulgadas pelo Estadão, O Globo e Veja merecem apenas citação para dar maior ou menor credibilidade a séria oposição do Sérgio ao govêrno Dilma. A oposição (atual), pouco eficaz e eficiente não entendeu que o fim do Lula será através da Dilma, assim espero. Ou quem sabe os tucanos voltem ao poder, e eu da minha parte me tornarei, outra vez, oposição.
    Não sou PT, faço parte de 62% que aprovam o governo Dilma (a gerenta de plantão)e não quero exercer a minha “imbecilidade útil” votando em FHC,Serra,Alkimim,Aécio, etc…
    Continuo respeitosamente discordando do rumo que o Sérgio está dando para “50 anos de textos” no entanto tenho conseguido mexer com seus brios de jornalista e de outra maneira abrindo espaço para o saudável debate. Mesmo causando ciúmes fica claro que outros seguidores estão atentos aos textos publicados. As opiniões e textos editados pelo Sérgio, não os compilados,reforçam em muito o meu sonho socialista. O socialismo, caro Sérgio, virá com certeza através da necessária fraternidade entre os humanos, pela cooperação e respeito mútuo, e pela educação. Liberdade e igualdade são retóricas do Estado opressor e escravizador. “…os reacionários filhos da puta, só somos isso mesmo, reacionários filhos da puta. Nós queremos que o país continue tendo esse profundo abismo entre os riquíssimos e os pobres. Nós queremos perpetuar a desigualdade”. TRANSCREVO palavras e pensamento roubados do próprio Sérgio Vaz.

  9. Luiz Carlos, como fazer para agradecer pela sua mensagem? Ela me lava a alma…
    Valdir, agradeço a você também por sua mensagem que esclarece sua posição.
    E, pô, Miltinho, essas frases que você compilou do meu texto na sua mensagem mais recente são ironia, cacete! E você sabe disso!
    De qualquer forma, você tem razão quando diz que o debate é saudável. Debate é sempre saudável. E prometo que vou continuar me esforçando para que o 50 Anos não fique só no pau na Dilma e no lulo-petismo. Ele terá sempre pau na Dilma e no lulo-petismo – mas não só!
    Obrigado a todos vocês, e um abraço.
    Sérgio

  10. Desculpe Sérgio, entendi a ironia. Retifico para a mim autoria:” os reacionários filhos da puta, SÂO isso mesmo, reacionários filhos da puta. QUEREM que o país continue tendo esse profundo abismo entre os riquíssimos e os pobres. Querem perpetuar a desigualdade”.
    Ironicamente foi apenas uma forma de críticar compilações, foi mal me desculpo mais uma vez.
    Continue dando pau na Dilma, faça a obrigação com força.
    Fraternalmente,
    Milton

  11. Meu Caro Sérgio Vaz,
    li a sua proclamação que, como vocês dizem, amei. Sinto-me ainda mais honrado por me dar o privilégio de publicar aqui os meus delírios metafísicos lusíadas.
    No seu veemente despacho, há no entanto um lapso, chamar-me “extraordinário intelectual” é um manifesto exagero que qualquer portuga terá o prazer de alegremente desmentir.
    Mas o que lhe quero dizer é que simpatizo profundamente com a sua forma de ver o mundo e a política. Há muitos anos, e como se dizia nos tempos de libertação de Angola, eu também “engajei”. Hoje estou com esses solitários e humildes 1%. Junte a isso a escura angústia com que se vive o dia a dia em Portugal e o meu amigo tem em mim uma personagem de Beckett.
    Sei pouco da política brasileira, que vou tacteando pela leitura da “Veja”. Agora já sei onde posso vir “cuscar”, aproveitando para beber um copo.
    Um abraço rijo meu amigo.
    manuel s. fonseca

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