O consórcio de anjos

Os filmes de advogado são mais divertidos na TV, principalmente porque os advogados norte-americanos são muito objetivos, nunca falam “data máxima vênia” e estão sempre atrás daquilo que o Garganta Profunda recomendava a Woodward e Bernstein: follow the money- sigam o dinheiro.

Como o direito anglo-saxônico escapou das complexas formulações da retórica latinória, não há perigo de ouvir, naqueles filmes, advogados dizendo que seus clientes foram a Portugal comer pastéis de Santa Clara ou pedir aos juízes que tenham piedade dos réus porque aquele julgamento pode significar “a bala de prata” para alguns e muita tristeza para suas famílias.

No quinto dia daquele que se afigurava como “o julgamento do século”, ao final do qual afinal saberemos por que querem proibir-nos de usar a palavra “mensalão”, paira sobre o assunto um tédio tão mortal que não só faz adormecer os venerandos juízes no aconchego de suas togas, como torna uma partida de handebol feminino entre Austrália e Nova Zelândia um modelo de eletrizante emoção.

Desde o dia em que o procurador Gurgel nos enterneceu com os baixos decibéis de seu interminável solilóquio, com toda a carga de acusações que lhe foi possível juntar, parece que estamos ouvindo uma interminável oração fúnebre. De novo, como nos filmes norte-americanos, onde os elogios fúnebres fazem parte dos rituais de despedida.

Os desolados amigos contam a outros desolados amigos como eram maravilhosas essas pessoas que tão prematuramente abandonaram o nosso convívio deixando para trás inesquecíveis lições de vida. Assim foram até agora os réus do mensalão.

Isso faz parte do ritual e ainda vai demorar um tempo, considerando o alentado número de acusados. Muitos cochilos ainda ressoarão na Egrégia Corte.

Ouviremos ainda muitas histórias de reputações ilibadas (salvo a de alguns poucos mequetrefes) de pessoas que nada mais fizeram do que dedicar-se ao bem comum, com a ajuda de generosos bancos que jamais pensaram em dedicar-se à mesquinha tarefa de cobrar empréstimos feitos com o único objetivo de ajudar os outros.

Para que serve o dinheiro senão para oferecê-lo a quem precisa? Que banco seria tão estróina a ponto de pedir o dinheiro de volta?

Estes são os primeiros dias do julgamento do – com perdão da palavra, senhores censores – mensalão. Cada um dos 11 juízes do Supremo Tribunal Federal deve guardar no segredo das suas togas uma sentença já formada para cada um dos 38 acusados.

Lá pelo começo de setembro é bem possível que saibamos de que material são feitos os nossos anjos e para que espécie de País os nossos futuros campeões olímpicos vão procurar ganhar as suas medalhas.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 10/8/2012.

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