Fitas de vídeo levam brasileiros para perto de casa

As emoções foram intensas para o brasileiro Fabio Cristino na semana passada.

“O cara não via a filha há 15 anos”, disse Cristino, sobre a novela que ele assistira na noite anterior. “Eu achei a cena linda, porque é muito parecida com a minha história. Eu sei que essa cena significa muito pra outros brasileiros que, como eu, estão longe há muito tempo.”

Cristino, que trabalha em construção e está fora do Brasil há 15 anos, faz parte do grande número de imigrantes brasileiros que mantêm contato com a terra natal através das fitas de vídeo dos shows da televisão brasileira.

Variando entre três horas e meia e seis horas, as fitas mantêm os imigrantes em dia com as notícias, os programas humorísticos e naturalmente, as novelas.

“Eu sigo três novelas”, disse Cristino. “Eu não tenho nenhum dia de folga, mas eu vejo as fitas de noite.”

Pelo menos meia dúzia de lojas brasileiras em Framingham recebem as fitas, que normalmente são entregues às quartas-feiras. As lojas pagam $8 dólares por fita e alugam cada fita de um dia para o outro por $3.

Os donos de loja parecem ter uma atitude bem brasileira na hora de exigir a volta das fitas.

“Eu não ligo se eles não trazem a fita no dia marcado”, disse João Bosco do Carmo, da loja brasileira Rio Doce Travel. “Nós somos todos brasileiros, então nós damos um jeitinho e aceitamos, a não ser quando a gente repara que tem alguém se aproveitando da situação. Nesse caso a gente cobra a taxa extra. Mas o jeito brasileiro não é esse de ir cobrando taxas logo de cara.”

A maioria das fitas que chega em Framingham vem de Nova York, de uma companhia chamada Brazil Update. Outras vêm de companhias menores, como Brazil News, Aqui Brasil e Desert Sun.

O dono da Brazil Update, Carlos Wattimo, veterano da Guerra do Vietnã, entrou pra esse negócio completamente por acaso.

“Eu importava roupas do Brasil e quando eu ia lá, normalmente trazia umas fitas com as novelas gravadas pra minha irmã”, disse Wattimo, numa entrevista pelo telefone, de Nova York. “Eu notei que as amigas dela ficavam doidas com a novidade e vinham ver as fitas.”

Assim, Wattimo começou com um amigo brasileiro uma pequena operação em Nova Jersey, com fitas que ele copiava da Rede Globo. Um anúncio num jornal causou uma resposta enorme e ele começou a ter que distribuir cerca de 300 fitas por semana.

Logo um advogado da TV Globo ligou pra ele e três meses depois, a Globo abriu um processo contra Wattimo, dizendo que ele estava violando direitos autorais.

“Eu conversei com eles e fiz uma proposta”, disse Wattimo. “ E aí eu virei distribuidor exclusivo das fitas nos Estados Unidos e no Canadá.”

Isso aconteceu em 1991. Hoje em dia ele está negociando pra trazer a TV Globo diretamente para os Estados Unidos via satelite, mas o custo ainda é muito alto, disse.

Wattimo, 51, veio pra os Estados Unidos numa aventura, trabalhando num navio quando tinha 16 anos. Aqui fez um teste supletivo pra terminar o curso secundário e começou a cursar Ciências Políticas na Universidade de Columbia. Eventualmente conseguiu se formar, quando estava servindo exército no Panamá.

Wattimo disse que tentou três carreiras diferentes, mas nada foi tão bom quanto o negócio das fitas do Brazil Update.

“Eu gravo mais de 8.000 fitas por semana e consigo atingir cerca de 150.000 brasileiros”, disse Wattimo, que tem 21 empregados. “Cerca de 2.000 pessoas são assinantes que recebem as fitas diretamente, porque eles não moram perto de nenhuma comunidade brasileira, mas outros buscam as fitas na lojas brasileiras.

Os assinantes diretos pagam US$55.80 por mês por uma fita de uma hora e meia. Wattimo também oferece uma assinatura de US$40 for quatro horas e meia de fitas, que não incluem as novelas. Segundo Wattimo, muitos assinantes dividem o custo entre amigos e depois compartilham o uso das fitas.

“Eu assisto mais ou menos 12 horas de fitas brasileiras por semana”, disse Lúcio Tomich, do restaurante Cantinho da Mainha. “Assisto duas novelas e uma fita de notícias em geral. Realmente gosto de ficar sabendo do que acontece por lá. Mas eu sempre assisto as notícias do Canal 5 e do Canal 11, além das notícas do Canal 56, às 10 da noite.

Tomich sempre mostra as fitas no seu restaurante, que fica na Hollis St, número 85 (em Framingham, Massachusetts).

“Eu coloquei a fita do jogo Brasil-Polônia na minha TV e muita gente queria comprar a fita”, disse Tomich, que não está no negócio de fitas. “O restaurante ficou mais cheio que de costume.”

Alguns brasileiros da área de Framingham acreditam que as fitas atrasam o ajuste das pessoas à vida nos Estados Unidos.

“Eu não gosto dessas fitas e nunca assisto nada delas”, disse Clóvis Mendes, da Companhia de Seguros GV. “Muitos brasileiros assistem essas fitas o tempo todo e eu não acho que isso seja uma coisa boa. Eles estão aqui, mas eles continuam a viver no Brasil. Eu acho que isso é uma atitude estúpida. Não estou dizendo que você não deva assistir o que vem de seu país, mas que você deve assistir o que acontece à sua volta, ou então você não vai assimilar a cultura, você não aprende nada.”

Mendes disse que fica chateado especialmente porque os shows brasileiros continuam perpetuando a imagem da mulher brasileira como bela e burra. E tendo vivido nos Estados Unidos por 25 anos, acha difícil aceitar como o comediante brasileiro Chico Anísio continua fazendo graça às custas das pessoas com necessidades especiais.

Mas pra muitos brasileiros, as fitas são a conexão necessária e eles ficam satisfeitos de poder encontrá-las.

José Barbosa Marques, um freguês da loja Rio Doce Travel, estava checando três fitas ao mesmo tempo.

“Com isso aqui cê mata a saudade”, disse Marques.

Este artigo foi originalmente publicado no Middlesex News, em Framingham, Massachusetts, em Março de 1997. A tradução para o português é da autora.

 

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