Amigos que se foram antes da hora

A amizade e o amor são combustíveis essenciais para uma vida boa. Quando a morte nos leva os que amamos, um vazio se instala em nossa alma e fica ali, presença constante até que nos chegue o último suspiro.

Toda perda é uma dor sem medida. Lembro-me agora, quando a noite cai em minha cidade, de três entes queridos que se foram muito cedo, todos ligados à minha profissão de compositor. Quarenta e cinco anos se passaram daquele momento primeiro em que, diante de uma melodia arrepiante de Milton Nascimento, eu me dispus a casar minhas modestas palavras com aquela beleza. Daí nasceu nossa primeira canção, que abriu para ele o mundo e para mim uma profissão.

Essa primeira parceria teve, para impulsionar sua trajetória de sucesso, as mãos afetuosas de um cantor brasileiro que iluminou minha adolescência, Agostinho dos Santos. Foi ele que inscreveu nossa música, sem que o Milton soubesse, no Festival Internacional da Canção do Rio de Janeiro, em outubro de 1967. O menino que eu era se viu, de repente, em meio aos aplausos do público do Maracanãzinho. Foi meu alegre ponto de partida. Uns quatro anos mais tarde meu amigo cantor encontrou seu destino final em um vôo entre o Brasil e a França. Quanta tristeza, meu Deus, ao vê-lo partir tão cedo.

Pouco mais de dez anos se passaram. A cantora que nos abraçara e nos interpretava com talento, sentimento e alma, voz divina e humana que nos entendia como ninguém, que espalhou nosso canto pelo Brasil e pelo planeta, foi-se, novíssima, num acidente de percurso. Elis, cuja exposição, “Elis Vive”, acabei de visitar no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, continua sendo aquela voz que é a voz de todos nós. Os vídeos de sua vida artística emocionam até hoje os que a conheceram e espanta de prazer as novas gerações que só agora ficaram sabendo de sua genialidade. Êta Elis que nos faz falta.

Outro que foi precocemente foi meu companheiro de música, conversa, cerveja e futebol. O brasileiro Gonzaguinha, amigo que guardo no peito com amor e dor. Que bom perceber que suas músicas continuam acalentando os corações de nossa gente. Quanto vezes acordo pela manhã e ainda espero por sua visita, com sua variant preta. Aboletávamos em uma mesinha que tínhamos na cozinha e ali ficávamos por horas, discutindo arte e política do país e do mundo. Sua trajetória de vida e canções, sua integridade absoluta vão poder ser conhecidas e reconhecidas por quem for ver o filme sobre ele e seu pai, que deve estrear nos cinemas ainda este ano.

Quarenta anos sem Agostinho, trinta sem Elis e vinte sem o amigo que virara mineiro e parente. A vida continua, a música continua, mas esses amigos eu tenho guardados no peito, debaixo de sete chaves, dentro do coração.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em agosto de 2012.

Um comentário para “Amigos que se foram antes da hora”

  1. Há muito tempo, numa noite quente em Acari(RJ) escutei pela primeira vez, na voz do meu xará, Travessia. Voz, melodia e letra marcaram minha existência. Agostinho dos Santos foi o responsável então.

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