A censura tinha acabado. Sarney trouxe de volta

O artigo brilhante de Manuel S. Fonseca sobre o dia em que ele – na época programador da Cinemateca Portuguesa – e amigos resolveram exibir em Lisboa o filme Je Vous Salue, Marie, de Jean-Luc Godard, me deu comichão nos dedos para escrever também. Ainda que sem a verve, a graça, a elegância do texto dele, que tenho a honra de republicar neste site.

O comichão veio pela lembrança do fato maior, o fato histórico, e também porque eu tive uma historinha pessoal com o filme.

Primeiro, o que de fato interessa.

Não sei se o eventual leitor vai se lembrar, mas Je Vous Salue, Marie foi um dos primeiros tropeços de José Sarney na presidência da República, que então se dizia Nova.

Não era – e disso nos lembramos todos, e nos lembraremos para sempre – para Sarney ter tomado posse na presidência. Assumiu por um golpe triste do destino que nos levou Tancredo após um calvário longo, doloroso.

Mas, de qualquer maneira, era a Nova República, o primeiro governante civil após 20 anos de presidentes-generais, de ditadura, de censura às artes, à imprensa.

O ministro da Justiça era Fernando Lyra, pernambucano digno, que batalhara no lado de oposição firme, autêntica, do MDB à ditadura militar.

Com festa, fanfarra, o governo Sarney anunciou o fim da censura prévia aos filmes, às peças de teatro, aos jornais.

Por alguns meses, houve uma sensação de alívio no País. Pouco depois, Fernando Brant, em letra inspirada para melodia inspirada de Milton Nascimento (veja abaixo), compararia aquele breve instante de início da redemocratização a um sorvete que se esvai em pleno sol.

Vivíamos aquele arzinho de enfim liberdade, litertas quae sera tamen, quando Je Vous Salue, Marie foi lançado na Europa.

A Igreja Católica Apostólica Romana chiou. Os bispos progressistas que haviam ajudado a combater a ditadura calaram-se, e o que se ouvia era o clamor da ala conservadora da Santa Madre.

Não havia mais censura de filmes no Brasil. Isso havia acabado, conforme nos prometera, com fanfarra, Fernando Lyra.

Sarney proibiu a exibição do filme em todo o território nacional.

O sorvete da esperança de novos tempos esvaiu-se a um sol forte, como se o Brasil fosse um imenso Maranhão.

***

O Brasil às vezes é como um imenso Portugal. Às vezes Portugal é um Brasilzinho.

Lá como cá, os católicos conservadores berraram como se fossem fundamentalistas muçulmanos. Em Portugal, nos relata Manuel S. Fonseca, foram os exibidores que não tiveram culhão de enfrentar a horda fanática que protestava contra o filme sem tê-lo visto. Aqui foi o presidente da República.

Se a hipocrisia, a tibieza de José Sarney não tivesse impedido os brasileiros de ver o filme, o respeitável público poderia ter ido às salas de cinema e constatado o cerne da questão:

Je Vous Salue, Marie é um filme chato.

Depois de uma semana de exibição, o filme teria saído de cartaz por falta de público.

***

Bem, agora vai a minha historinha.

O episódio da proibição de Je Vous Salue, Marie se deu em 1986, o segundo ano do governo que era para ser de Tancredo e para infelicidade geral da nação foi de Sarney.

Estávamos na revista Afinal, eu e um bando grande de amigos (que inclui alguns dos autores dos textos deste site: Anélio Barreto, Sandro Vaia, Valdir Sanches). A revista, então a terceira semanal de informações do país, era uma aventura, um destróierzinho que tentava concorrer com o porta-aviões Veja e a já consolidada IstoÉ. (Destroier? Melhor imagem seria uma pequena lancha.)

Não me lembro quem teve a idéia numa reunião de pauta: vamos contar tintim por tintim como é o filme que a Nova República está censurando. Vamos achar uma cópia pirata, fotografar diversas tomadas, e reproduzir como se fosse uma fotonovela.

Acho – não tenho certeza, de forma alguma – que a idéia foi do Carmo Chagas, então editor de Política, jornalista tarimbadíssimo, idéias de pauta sempre brilhantes e aos borbotões. Mas de uma coisa tenho certeza: a obrigação de transformar a ótima idéia de pauta era realidade recaiu sobre a minha pessoa.

Não me lembro como consegui a cópia do filme. Não deve ter sido difícil. De qualquer maneira, a cópia que obtivemos, uma fita VHS pirata copiada de pirata, era de péssima qualidade. Vimos o filme na minha casa, na Rua Ministro Godoy, num dos meus primeiros, talvez o primeiro videocassete, importabandeado (os nacionais eram umas três vezes mais caros), com cores horríveis. As fotos, as reproduções daquelas imagens pouquíssimo nítidas, foram assinadas por Ronaldo Kotscho, então chefe da fotografia da revista. Fiz um textinho de abertura de uma página – e em seguida vinham nove páginas reproduzindo 54 fotogramas do filme, cada fotograma com uma pequena legenda escrita por mim.

(Confesso que, por timidez, ou medo, ainda não tive coragem de reler a besteira que escrevi lá.)

Completava a matéria uma página dupla com uma reportagem mostrando como um grupo de intelectuais, artistas e políticos do Rio de Janeiro – Fernando Gabeira à frente – desafiavam a censura com exibições do filme.

A capa do número 79 da revista Afinal – que circulou com data de 4 de março de 1986, e custava Cr$ 22.000, sei lá o que é isso – trazia uma das reproduções do vídeo, e o título, em letras garrafais, seguramente de autoria do diretor de redação Fernando Mitre: TODAS AS CENAS DO FILME PERSEGUIDO. E, embaixo da foto, o complemento: “Doze páginas em cores – Je Vous Salue, Marie”.

A gente podia fazer qualquer coisa, e fizemos belas coisas, lá – a revista Afinal simplesmente não acontecia, não deslanchava, não ia em frente.

Em março de 1986, Mary estava em Brasília, trabalhando na Política da sucursal de O Globo. Quando, hoje, por causa do artigo de Manuel S. Fonseca, resolvi escrever sobre esta história, Mary disse que se lembrava de ter folheado a revista. Falava-se muito em Brasília do episódio da censura ao filme, e a revista foi comentada.

Mary fez então uma busca no Google e encontrou, no Estante Virtual, um sebo que vende o exemplar daquele número da revista por R$ 10,13.

São duas provas – embora tênues – de que a revista Afinal existiu. E de que até fizemos umas coisas boas lá.

8 de abril de 2012

A canção citada no texto foi lançada no disco de 1987 de Milton Nascimento, Yauaretê. É um belíssimo retrato daquele momento que o país vivia.

Carta à República (Milton Nascimento e Fernando Brant)

Sim é verdade, a vida é mais livre

O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas

Com o povo daqui

E até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo

Mas eu não posso esconder a amargura

Ao ver que o sonho anda pra trás

E a mentira voltou

Ou será mesmo que não nos deixara?

A esperança que a gente carrega é um sorvete em pleno sol

O que fizeram da nossa fé?

 

Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,

Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,

Eu saí pra sonhar meu país

E foi tão bom, não estava sozinho

A praça era alegria sadia

O povo era senhor

E só uma voz, numa só canção

 

E foi por ter posto a mão no futuro

Que no presente preciso ser duro

E eu não posso me acomodar

Quero um país melhor

8 Comentários para “A censura tinha acabado. Sarney trouxe de volta”

  1. Estimado Sérgio, não sabia desse episódio brasileiro. Parece-me muito mais importante do que o meu incidente local. Mais tarde, é cuioso, já programando uma televisão nacional, acabei exibindo o filme para Portugal inteiro sem que houvesse o mínimo protesto. Obrigado pela forma simpática como sempre me trata e obrigado pela partilha deste seu texto sobre um momento relevante da democracia brasileira. Um abraço

  2. Sérgio Vaz, impecável seu texto. Sérgio Augusto lembra, no último Sabático, o que Millor escreveu sobre o Brejal dos Guajás, lançado por Sarney em 1986: “Não se pode confiar o destino de um povo, sobretudo neste momento especialmente difícil, a um homem que escreve isso”. Pois é, caro Manuel, este é o homem, presidente do Congresso Brasileiro.

  3. Ah, Sérgio, mas que grande solução a da revista Afinal. Muito bem caçado. O Godard ficou sabendo? O homem ia gostar, saber-se herói aventuroso de um episódio destes!
    Um abraço

  4. Moro no município de Cipó-Bahia – uma cidade de 15 mil habitantes, turística por suas águas termais e recordo-me de quando um dos meus amigos chegou na praça com uma sacola preta e confidenciando que havia conseguido copia do filme do Godard. Ficamos os cinco apreensivos mas movidos pela curiosidade de adolescentes diante da repercussão do filme, seguimos juntos para a casa que ficava a menos de 50 metros da igreja matriz de Nossa Senhora da Saúde… Ás três horas da tarde de muito calor iniciou-se a exibição com péssima qualidade de imagem e som… Portas e janelas fechadas, cerca de 20 minutos depois ouvimos barulho de carro, sirene tocando lá fora e alguem gritou–é a policia! Agonia geral, corremos para o fundo do quintal,pulamos o muro em fuga… O tempo tardava para passar bem longe dalí, eu, católico, orava arrependido, até que viemos a descobrir que a sirene era da padaria local, invenção do dono para avisar a cidade que o pão havia saído do forno… Hoje leio esta matéria aqui e relembro esse dia.

  5. Que delícia de história, Ranieri!
    Muito obrigado por enviar.
    Um abraço.
    Sérgio

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