Ulysses Alves de Souza

O jornalismo brasileiro perdeu esta semana Ulysses Alves de Souza, que participou das equipes que criaram o Jornal da Tarde, em 1966, e da revista Veja, em 1968.

Três jornalistas que conviveram com Ulysses escrevem suas lembranças – extremamente pessoais – sobre Uru, como ele era conhecido entre os amigos.

Sandro Vaia:

“Eu arrumei emprego no JT através de uma carta que mandei ao Marcelino Ritter, redator-chefe do Estadão, que a encaminhou ao Mino Carta. Ele achou a carta de alguma forma interessante e mandou o Ulysses me telefonar e me chamar para uma entrevista. Foi, portanto, meu primeiro contato e meu primeiro chefe de reportagem do JT, que me mandou fazer uma matéria na CMTC, que ficava na rua Martins Fontes, do lado do jornal. Eu, moleque do interior, não sabia onde era e gastei uma boa hora para achar uma coisa que ficava a 50 metros da redaçao. Fazia parte do método de chefia dele não facilitar a vida do repórter.

O apelido dele era “Uru”, e tinha uns 15 anos a mais do que eu. Era mais velho que o Mino Carta. Era um chefe de reportagem tipo “old fashion”, aqueles que nos filmes americanos usavam uma viseira e um elástico na altura do braço, lembra? Tinha um humor sarcástico, quase destrutivo, mas daqueles que no fundo escondem uma boa alma. Lembro que ele, como uma espécie de preceptor do Luiz Merlino, aquele jovem santista meio aristocrático que foi morto pela repressão, praticou uma célebre crueldade: lia a matéria, devolvia e dizia: não serve nem pra jogar no lixo. Aí o pobre Merlino suava sangue para reescrever, entregava pra ele, que lia e dizia: agora, sim, serve pra jogar no lixo. E jogava.

Tinha um grande sonho, que nunca chegou nem perto de realizar: criar uma rede de jornais do interior. Em vez disso, saiu com aquela turma que acompanhou o Mino Carta para fazer a Veja. Depois da Veja, o perdi de vista. Sei que fazia algumas assessorias, que trabalhou em alguns órgãos públicos, mas que nunca mais o vi. Era uma figura de livro. Seria, tranquilamente, personagem de alguma coletânea sobre velhos jornalistas, se alguém tivesse escrito uma. Acho que ele já era um velho jornalista quando nós nem jornalistas éramos ainda.”

Sérgio Rondino:

“Para mim Ulysses Alves de Souza é inesquecível. Março de 1967, chego ao Jornal da Tarde para meu primeiro dia na redação. Estagiário, 20 anos, foca trêmulo, fui encaminhado ao Ulysses, então chefe da Reportagem Geral. Apresentei-me. Mal interrompeu o que fazia. Deu-me um recorte de jornal e ordenou: escreva 20 linhas sobre esta notícia.

Passei uma eternidade no suplício dessas 20 linhas. Terminei, lá estava Ulysses em pé, conversando com alguém. Aproximei-me e estendi a lauda. Ele a pegou e amassou sem ler. Apenas disse:

– Isso não serve nem para jogar no lixo. Faça de novo!

Puta que pariu! No que foi que errei? Se ele nem leu…

Obedientemente, lá fui eu escrever de novo.

Mais algumas horas torturantes depois, tirei a lauda da Olivetti e lá fui novamente em direção ao chefe – que mais uma vez estava em pé falando com alguém. “Porra, como esse cara conversa…” Estendi a lauda.

Ele pegou e novamente nem leu. Amassou o papel e me disse:

– Ótimo, agora já dá para jogar no lixo. Volte amanhã.

A bolinha voou em direção à lata e o foca retirou-se com o rabo entre as pernas, humilhado, espumando de ódio.

Tenho essas imagens na mente como se tivessem ocorrido ontem. Inesquecível.

Nos tempos que se seguiram, claro, descobri que aquele tratamento era pura diversão dele. E que aquele velho rabugento não era um velho rabugento. Só fazia o gênero rabugento para encher o saco dos focas. Hoje me divirto lembrando aquele dia – e sinto enorme saudade!

Convivemos pouco tempo, pois Ulysses logo deixou o jornal, junto com Mino Carta. E poucas vezes o encontrei nos anos seguintes. Mas só me lembro dele como um bom sujeito.”

Tão Gomes Pinto:

Sobre o Uru: devo minha carreira ao Ulysses Alves de Souza. Trabalhávamos mesa a mesa no inesquecível Noticias Populares , do Jean Mellé. Ele era ‘editor de Internacional’ do NP. Devia ter outro emprego pois sempre chegava na redação por volta das 18h30.

Não havia, na época, sequer teletipos. Motoboys precursores levavam o material das agências internacionais em rolos e deixavam nas portarias. Como também não tinhamos porteiro, muito menos portaria, várias vezes os entregadores da AP, UPI, France Presse, Ansa, etc…. deixavam os rolos na minha mesa, vizinha ao do Ulysses para eu entregar ao editor de Internacional.

Escusado dizer que o Ulysses, também conhecido como Uru, era o único funcionário da editoria. Ele chegava, limpava a mesa, me pedia os rolos com o noticiário das agências…Ia desenrolando e lendo… Às vezes achava alguma notícia interessante, principalmente no material da Ansa e da France Presse. Então gritava para o Narciso Kalili, que era o diretor de redação: “Eu tenho uma chamada pra primeira”. Gritava, porque a mesa do Kalili ficava a menos de 10 passos de distância. Lembro do dia em que o Uru gritou: “Eu tenho a manchete !” De fato, a manchete do NP no dia seguinte saiu da área internacional, notícia transmitida pela Ansa ou France Presse: ” Familia janta rapaz com vinho na Argentina !” .

Esse era o Uru, com quem eu trabalharia no JT e na Veja por anos a fio…

Um jornalista à moda antiga, como não se fazem mais…

Maio de 2011

3 Comentários para “Ulysses Alves de Souza”

  1. esse cara era relmente maluco, maluco por jornalismo.
    mas era um heroi me fezia rir até nos momentos de dor ,me fazia avaliar cada passo de minha vida me fez acreditar que tudo era possivel
    desde de criança ja me incentivando rumo ao futuro com suas metaforas
    tenho tantas pra falar dele quando eu ia as redações todos me falavam dele com o super profissional;e eu me orgulhava muito.
    esse cara constituiu 2 familias lindas
    é eu posso falar faço parte delas
    porisso que digo meu pai meu heroi
    ps; muito obrigado fico cada vez mais orgulhoso ao saber que todos lenbrarão com carinho ou com a bagagem que ele proporcinou aos antigos focas, hoje otimos jornalista
    do seu filho rodrigo diniz fotógrafo

  2. Muito mais que um professor exemplar que um jornalista memorável foi acima de tudo um ser humano que viveu todos os momentos de sua vida tirando dela o que de melhor podia ser extraido. Ficará para sempre na minha memória, o tio jovial, alegre, o amigo debochado, os seus sábios conselhos e os momentos indescritíveis que só nos da família pudemos vivenciar a seu lado. De sua sobrinha que estava tão longe,mas com o coração tão perto do seu.

  3. Saudades. E tristeza! Estava procurando no Google referências sobre o Ulysses e me deparei com essa página. Agora é que fiquei sabendo do seu falecimento. Me emocionei e ri com os comentários acima. Realmente, esse era o Ulysses. O conheci na redação do Jornal Paulista, um diário da colônia japonesa, lá pelo início da década de 80. Eu era um repórter iniciante e ele, já idoso, me contava que já tinha passado por tudo na imprensa, eu não acreditava. O tempo todo fiquei desconfiado que era tudo conversa fiada, mas verdadeiramente aprendi a respeitá-lo e reconhecê-lo como, afinal, grande jornalista que era. Aprendi quase tudo com ele. Uma vez, loucura, me incumbiu de cobrir um concurso de “Miss Nikkey” internacional que o jornal promovia. Loucura, porque durante uma semana acompanhei toda a agenda das candidatas, praticamente fiz sozinho as reportagens e entrevistas, tirei as fotos, escrevi as matérias e editei o caderno especial do concurso (tinha pelo menos umas oito páginas, já não me lembro), publicando-o completo no dia seguinte ao evento. Mas gratificante demais, porque, no fundo, Ulysses me ensinou na prática a fazer jornalismo. Naquela semana, aprendi mais do que em muitos anos, em outras atividades jornalísticas. Com ele, no mesmo jornal, tive outras experiências semelhantes e dei muita risada. Alguns anos mais tarde, encontrei-o numa Secretaria de Estado, trabalhando com a mesma disposição e o mesmo jeitão de sempre. Depois disso, nunca mais o vi. Saudades!!

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