Sonho meu

Não o da bela canção de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho, mas aquele ou aqueles que nos chegam em uma madrugada fresca de outono, sem muita lógica, sem avisar. Uma cena que invade nosso sono noturno e traz lembranças de pessoas e coisas passadas, arquivadas no fundo do baú da memória.

Eu me confesso um sonhador. Prefiro imaginar que o melhor virá do que lamentar o que ainda não aconteceu nem sei se ocorrerá. Assim foi quando (“se o poeta é o que sonha o que vai ser real”) acreditei firmemente que a ditadura que infernizou os brasileiros por mais de vinte anos estava caminhando para o fim. Minha crença era baseada em um olhar atento para a realidade que vivíamos. Não era delírio, o que se comprovou.

Há cerca de dois anos, conversando com um amigo sobre as dificuldades e preconceitos sofridos pelos casais do mesmo sexo, disse-lhe, com a certeza típica de um profeta, que a questão, já levada ao Supremo, se resolveria da forma mais civilizada. Ali, onde onze juízes se responsabilizam pelo fiel cumprimento da Constituição, os direitos e garantias individuais e o compromisso com a igualdade para todos os cidadãos seriam vencedores.

É o mesmo que sinto hoje, quando os direitos dos autores nacionais, protegidos por cláusulas pétreas da Lei maior, é atacado por bárbaros que renegam a criatividade humana e a cultura. A intolerância que se voltou contra a doce ministra Ana de Hollanda não vingará. O pesadelo não vencerá o sonho.

Acabei fugindo de minha reflexão inicial, da surpresa do aparecimento de imagens e pessoas de que há muito não tinha notícia. E o sonho tem o poder de tornar real o que nos fugira. Amigos e amigas verdadeiros tomam rumos diversos, ganham o mundo e saem de nosso campo de visão, sem nenhuma desavença, apenas porque se mudou de casa ou faculdade. São desencontros que ocorrem a todo momento, compensados com novos encontros e afetos que descobrimos.

Minha timidez, e como fui tímido meu Deus, foi um embaraço para mim durante muito tempo. E, naqueles dias, eu me deparei com outros belos exemplos humanos de igual insegurança. O jeito foi partir para aprender tudo o que encontrasse em minha área de interesse. Do pequeno saber adquirido eu pude crescer, substituindo por confiança a inibição que me pesava.

Foi essa mesma busca que fez com que certas pessoas seguissem outras estradas, construíssem suas vidas de forma diferente da minha. No meu sonho havia delicadeza e sorrisos de uma juventude que queria ser feliz e fazia o possível para entender o estar no mundo. Uns foram para a canção, outros para a poesia, outras, depois de muita procura, mergulharam na filosofia. A cultura prevaleceu e nos desinibiu.

 Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em maio de 2011.

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