A Espécie Humana. Capítulo 40

na manhã seguinte, durante o café:

vovô, o diabo existe?

existe. diabo é o nome da burrice humana.

e ainda se queima pessoas por causa da religião?

claro! o Poder sempre queima vivas as pessoas. há muitas maneiras de fazer isto. deixá-las sem justiça. proibi-las de mostrar o rosto. exibi-las peladas na TV. mas a pior delas é mantê-las na burrice.

meu pai saiu logo após o café. e, no portão, ele me falou:

pior do que as múltiplas facetas das revelações, pior do que isso é essa mania de todos eles se dizerem o povo escolhido. isto é de uma infantilidade sem limites. toda criança pensa isto, eu sou o preferido de meus pais, e de certa forma está certa. as crias dos animais superiores poderiam dizer a mesma coisa, é uma questão de proteção à espécie. mas daí a fazer com que um povo inteiro seja o filhinho de seu papai e, pra isso, é claro!, o seu papaizão tem que ser o único verdadeiro, ah!, cresçam e apareçam, monoteístas presumidos, vaidosos e imaturos. até mais, filho, não gostaria de falar mais sobre estas coisas.

crianças chegaram a seguir. espalharam-se. peguei meus papéis para algumas anotações.

parou um carro diante do portão. já sei quem é. abri o portão, entraram o ex-aluno de meu pai e seu filho adolescente.

o seu filho não está?, perguntou o rapazinho.

está na cascata com uns amigos.

ele tem aula de tarde?

está mudando de escola e agora só em fevereiro. esse semestre ele está comigo.

e ele: pai, vou descer.

não demore muito.

e enquanto esquento a água pro café:

estou sem graça com teu pai, nem sei como apresentar o fato a ele.

ele não está. mas já sabia o que ia acontecer.

como assim?

ele me disse que vocês provavelmente não publicariam o texto dele.

como ele sabia? foi estranho, todo mundo que leu achou interessante mas sempre falava: não era bem isto que a gente queria. o professor não vai ficar chateado?

acho que não. conversamos sobre isto. estava esperando. ele disse pra mim: imprensa é imprensa.

o que quis dizer?

ele fez o seguinte comentário: todos têm o seu limite. os pais e professores do jornalzinho estão comprometidos com todos os pais e professores. o mesmo se dá com a imprensa geral. certos compromissos são mais fortes que a liberdade. há ideologias. vamos imaginar que um candidato à presidência de um país seja usuário de cocaína. é claro que os jornais sabem disto.

quer que eu te conte uma história? tenho um amigo que trabalha num dos maiores jornais do país, se não o maior. e ele me disse que esse fato aconteceu, o do candidato tal que fazia uso da cocaína. os diretores tinham em mãos um dossiê. por que eles não publicaram o dossiê às vésperas da eleição? há compromissos, resta saber com quem. meu pai diz que os jornais e os outros meios de comunicação não passam de meros espaços para caríssimas propagandas.

fico mais sem graça ainda. acho que vou lá embaixo.

tome antes um café.

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Para ler a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

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