Mulher cheia de graça

Na foto, o rosto sereno de uma mulher negra, de óculos, 65 anos. Ela não esconde idade, nem sua história. Formada em filologia alemã pela Universidade de Lisboa, essa moçambicana lutou pela independência de seu país, contra o colonizador português. Casou-se, em l976, com Samora Machel, líder militar e primeiro presidente de Moçambique após a independência de Portugal. O marido morreu dez anos mais tarde, em acidente aéreo ocorrido em terras da África do Sul.

Ministra da Educação e Cultura de Moçambique, durante 14 anos, combateu o analfabetismo, que atingia 93% da população. Fez, a pedido da ONU, um reconhecido estudo sobre os impactos das guerras na infância, o “Relatório Machel”. Como se sabe, além de lutarem pela independência, Moçambique e Angola, quando livres, sofreram por muitos anos a tragédia de guerras civis fomentadas pelos dois lados fortes que comandavam o mundo durante a chamada guerra fria. A insensatez das duas potências semeou miséria, ignorância e dor por toda a África.

Graça, esse o seu nome, Graça Machel, casou-se mais tarde, em 1998, com outro grande líder, o exemplo mais bem sucedido que conhecemos em nossos dias: Nelson Mandela, então presidente da África do Sul. Em vez de guerra e sangue, ele plantou paz e esperança. Quantos motivos não tinha esse homem para implantar um projeto de vingança? Ele preferiu unir o que parecia impossível de ligar. Ele pacificou a nação, mas teve a ousada sabedoria de não esconder os fatos horrorosos da história da África do Sul do apartheid. Criou a Comissão da Verdade, não para punir, para esclarecer. Para jogar luz sobre toda a violência e abusos cometidos.

Graça Machel esteve no Brasil, recentemente, onde recebeu, por Mandela, o título de doutor “honoris causa” da USP. Falou de sua amiga e irmã, Ruth Cardoso. Disse mais: “Não é a origem que tens que vai determinar o que és e o que queres ser.”

O que mais me chamou a atenção, em sua entrevista a um jornal paulistano, foi uma pergunta feita pelas duas autoras da matéria. Elas queriam saber o que ela aprendera com os dois maridos, ambos considerados libertadores e heróis nacionais. Seria uma pergunta natural, não tivesse Graça uma história pessoal, cultura e prática de ações humanitárias. E não estivéssemos cada vez mais necessitados da inteligência e afetividade das mulheres. E se as autoras não fossem, além de excelentes entrevistadoras, também mulheres. Imagino a firmeza da resposta, vinda daquela combatente solar e sábia: “A pergunta é outra. Vocês têm de perguntar o que eles aprenderam

comigo. Isso sim.”

Que beleza é essa Graça.

 Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

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