A Espécie Humana. Capítulo 21

meu pai preparou a charrete, atrelou a égua e saiu com o meninodeito-me nas almofadas e semifecho os olhosas aves silenciaram lá foravirá chuva?  os cães dormemouve-se muito fraquinho o barulho das águas lá embaixo.   

tudo em ordem por aquitenho preguiça de lerfecho os olhos e penso num sono curto 

um vulto branco se desenha em meu cérebroestou imaginando um vulto branco, eu pensose eu abrir os olhos e houver um tipo de fantasma à minha frente, estarei tendo um tipo de alucinaçãosei que nada verei mas, para confirmar esta certeza frágil, eu abro os olhosas aves silenciaram, os cães dormem, nada se move e não consigo ouvir o ruído das águas lá embaixo 

todavia, o vulto branco está diante de mimfiníssimos véus transparentes que, esvoaçando, formam o contorno de uma figura humana; nada se vê de pele ou fisionomia, apenas os volumes como que flutuando no espaçoe sobre a cabeça uma imensa coroa 

a Morte!  exatamente como um dia eu a desenhei!  e por que está sorrindo?  como sei que está sorrindo?

um abalo, em todo meu corpo, me acordaabro os olhosum sonho!  um sonho?

nenhuma ave canta 

os cães devem dormir 

o eterno ruído das águas lá embaixo prende por um momento minha atençãoe mergulho aos poucos num sono sem imagens 

o que é que ela veio fazer aqui?

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Leia a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

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