Dez anos depois

Meu amigo Anélio Barreto me liga e fala do 11 de setembro.

Rarissimamente temos falado, Anélio e eu, porque somos dois ursos, cada um em sua caverna, e então fiquei um tanto surpreso com o telefonema.

Explicou que tinha se lembrado de mim porque, dez anos atrás, estava em Paris com a Lúcia. Beberam umas no Deux Magots; ele ficou sabendo que haveria, à noite, na igreja de Saint-Germain de Près, do outro lado da pracinha, um concerto, que prometia ser muito bom. Comprou as entradas, voltou para o Deux Magots, terminou o drink. Na volta para o apartamento que havia alugado, pararam numa lan house. Ele entrou então no estadao.com – e viu a notícia, com a frase “parecia um filme de ficção científica”. Claro, não foram a concerto algum, aquele dia.

Agora, dez anos depois, recordou-se disso, desse pequeno detalhe. E quis me contar.

Eu tinha esquecido completamente que usara essa frase, essa imagem, dez anos atrás. Mas sabia que havia guardado prints dos diversos momentos da home page do estadao.com no dia 11 de setembro de 2001. Fui atrás deles.

O primeiro título, às 10h01, foi “Avião bate no World Trade Center em NY”. Embaixo, o olhinho, a linha fina: “As TVs transmitem ao vivo uma cena da mais desvairada ficção científica: um avião chocou-se contra um dos dois prédios gêmeos do World Trade Center, em Nova York. Aguarde mais informações.”

O das 10h25 tinha quase o mesmo título: “Aviões batem no World Trade Center em NY”. Embaixo de uma foto, o olhinho começava do mesmo jeito: “As TVs transmitem ao vivo uma cena da mais desvairada ficção científica: um avião chocou-se contra um dos dois prédios gêmeos do World Trade Center, em Nova York. Poucos minutos depois, houve uma violentíssima explosão no outro prédio: era outro avião batendo. Gigantescas nuvens de fumaça saem dos dois prédios”.

Um print que também traz o horário de 10h25 mostra que a home do estadao.com tinha o título “Bush diz na TV que foi ataque terrorista”.

“A stranger came up and asked me if I’d heard John Lennon had died”

Alguns momentos a memória da gente acaba guardando para sempre. Outro dia Dona Lúcia, minha sogra, mandou para mim e para Mary uma mensagem em que lembrava que, no dia 24 de agosto de 1954, o dia em que Getúlio Vargas se matou, ela estava provando o vestido de noiva. Como era uma mensagem deliciosa, um texto bonito, elegante, publiquei neste site.

Paul Simon fez uma canção, “The Late Great Johnny Ace”, dizendo que estava andando na rua, através da “maré do Natal”, quando um estranho chegou pra ele e perguntou se já sabia que John Lennon morrera – e ele e o desconhecido foram para um bar e ficaram lá até a hora de fechar.

Me lembro bem onde eu estava na hora em que soube que John Lennon morrera. Tinha acabado de chegar em casa, vindo do jornal, mais de meia-noite, e o César Giobbi me ligou; tinha sido avisado, estava já no jornal preparando um segundo clichê; perguntou se eu poderia ajudar, escrever a discografia dos Beatles e de John.

O Jornal da Tarde foi o único dos jornais de São Paulo a noticiar no dia seguinte a morte de John Lennon.

Lembranças, lembranças.

Me lembro que, no dia seguinte, na redação, o Anélio me disse que o dr. Ruy tinha ficado puto com o destaque dado à morte “daquele roqueiro casado com aquela japonesa”.

Lembranças, lembranças.

Depois do telefonema surpreendente do Anélio, fui postar no site a crônica semanal do Fernando Brant – em que ele se lembra que, na manhã dos ataques terroristas às torres gêmeas, estava viajando de Belo Horizonte para o Rio.

O sujeito comemorou a derrota imposta pelos camaradas terroristas aos americanos

Me esquecera completamente de que, na hora, escrevi na home do estadao.com que as TVs transmitiam uma cena da mais desvairada ficção científica.

Claro, lembrava que estava no trabalho; era na época o editor-chefe do portal do Estadão. Lembrava do trabalho febril, louco, em um dia longo, que não terminava nunca. Quando a gente está trabalhando em cima da notícia, não tem muito tempo para examinar sensações, sentir dor, pesar, pânico: é preciso trabalhar – depois que fechar aí então a gente pensa, sente.

Do que mais me lembro, no episódio dos ataques do 11 de setembro, foi o choque que levei quando, uns dias mais tarde, uma amiga me contou que o marido dela tinha comemorado, feliz, a derrota que os camaradas terroristas tinham imposto aos filhos da puta dos americanos.

Gostaria de não me lembrar disso. Gostaria demais de ter esquecido isso. Infelizmente, não esqueci – e acho que, se fosse viver mais cem anos, jamais esqueceria.

Um sujeito comemorar, como num jogo de futebol, como ao final da apuração de uma eleição vencida, o assassinato de mais de 3 mil pessoas me parece tão chocante, absurdo, criminoso, quanto os próprios ataques do 11 de setembro.

Meu amigo Anélio se lembra é de uma frase que, em Paris, identificou como sendo minha – uma cena que parece ficção científica.

Anélio não é homem de fazer muitos elogios; os faz, mas não com freqüência.

11 de setembro de 2011

Um P.S. necessário:

Não quis, de maneira nenhuma, ao fazer o relato acima, dizer que a frase, a expressão “parece ficção científica” tenha sido boa, ou inteligente, ou uma bela sacada, nem muito menos original. Muito ao contrário: era o que todo mundo pensava na hora, no mundo inteiro, era o que todo mundo falava na redação. A única coisa diferente foi o fato de eu ter usado a frase – uma exclamação pessoal, emotiva, subjetiva – numa notícia, num portal de uma das maiores empresas jornalísticas do país. Foi uma pequena, pequeníssima, mínima transgressão à regra eterna da “objetividade”, do “distanciamento” que se exige dos jornalistas – só isso.   

 

12 Comentários para “Dez anos depois”

  1. Vaz, a sua frase, na minha cabeça, passou a fazer parte do acontecimento. Não sou capaz de colocar um adjetivo nela.

  2. Servaz, resgatei algo do seu trabalho naquele dia nesse post: http://migre.me/5FtKw

    Tentei achar imagens da home page, mas não consegui. Esse é o problema que discuto. Se puder, me manda alguma imagem de seus prints que eu publico lá.

    Abração

  3. Servaz, se o Anélio lembrou é porque achou a frase muito boa (certamente ninguém vai deixar de achar isso, a frase é otima). Agora, divertido dois homens da caverna falando sobre ficção científica…

  4. Hêhê… Agradeço aos amigos pelas gostosas mensagens. Os dois ursos das cavernas falando sobre ficcção científica é bem Valdir… E, Elói, põe babaca nisso.
    Agora, Ed, caríssimo, o trabalho que você fez é um brilho. Parabéns! Algo que só você mesmo poderia fazer, e tão rapidamente. Vou tentar scannear os prints, mas eles estão muito pálidos… Não sei se vou conseguir alguma coisa.

  5. UM, saia mais da caverna, assim como o AB também deve fazer. Sobre o teu texto, excelente comme d’habitude (ponha metidez nisso, hehehe). Mas não ncho que ter recorrido à ficção científica tenha desobedecido algum mandamento do bom jornalismo. Au contraire (acrescente mais metidez, já que o AB, conforme sua (sua mesmo) narrativa, recorre a uma de suas (dele) inumeráveis passagens por Paris. Hehehe… Todo mundo que assistia ao vivo a estupidez da tragédia das Torres Gêmeas teve mesmo a impressão de que se tratava do trailer de um filme saifai.

  6. Não é necessário a humanidade comemorar os ataques de 2001. Basta virar as costas para os EUA (que é o que eles merecem).

    Interessante isso: viram as contas para os petralhas, mas não o fazem para Washington!

    Eu, em 2001, demonstrei desprezo pelo que se passava. Comeria pizzas e iria ao concerto tranquilamente. Se eles não se sensibilizam com os 4 milhões de vietnamitas eliminados pelo agente-laranja, eu não tenho nenhum dever de demonstrar empatia com eles.

  7. Os chineses de Nanquim e de outras cidades não têm pena de Hiroshima.

    Neste planeta, onde as potências viram a cara para a humanidade, é necessário q

  8. Bem, perdão a todos pela agressividade e ódio – inéditos neste site. Recomendo, agora, o texto do Brant – é devido a ele que comecei a frequentar este site -, que explica melhor as minhas percepções acerca do tema.

    É claro que minha indignação permanece.

    Abraço a todos.

  9. Perdão por decepcioná-los. Hoje eu devo explicar de forma mais serena, depois da agressividade de ontem:

    Os ataques “assimétricos” de terroristas, reais ou fictícios, têm agora uma certa tradição: posso me remeter ao “ataque” dos poloneses ao III Reich, que “justificou” a conquista alemã do Leste e o posterior extermínio.

    Bem, senhores, eu não tenho nenhuma vocação para me compadecer do Reich, ou do Japão Imperial, ou da República Chinesa, ou dos EUA. E, ontem, demonstrei grave irritação com as [eternas] homenagens feitas por brasileiros a mortos no Norte. O velho provincianismo brasileiro, à enésima potência. A imprensa e o seu novo feriado religioso (11/Set).

    Não ouço falar dum único ianque que tenha perdido uma eleição por ter mandado matar milhões, ou torturado e mutilado. Isto porque a população dos EUA não tem nenhuma tradição de empatia em relação ao resto do mundo (principalmente ao sul do Equador). Na época do Vietnã, lamentavam os seus próprios 323 mil mortos, e não os milhões de mortos do maldito país comunista.

    A sensibilidade que os ianques não têm – talvez a esperem de nós.

    Não comemoremos a morte de ninguém; apenas viremos as costas para os que não se importam se NÓS morrermos. Nós: Eu, Zaidan, Vaia, Alquéres…

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