A Espécie Humana. Capítulo 28

o dia dois de julho é o exato meio do ano, falou meu pai, estando nós dois sentados na grama, atrás da casa, voltados para a cachoeira, enquanto o menino andava ao longe, para lá e para cá, vigiando os passarinhos.  o dia dois de julho é o exato meio do ano.  de primeiro de janeiro até primeiro de julho, são 182 dias.  separe-se então o dois de julho.  de três de julho até trinta e um de dezembro temos novamente 182 dias.  o dois de julho é o exato meio do ano.   

então eu nasci no primeiro dia da segunda metade do ano!

era isto que eu queria dizer.  lembra-se de que eu cheguei com o menino na véspera do seu aniversário?

nossa!  já faz algum tempo!

meses não chega a ser tempo.  tempo é algo como século ou milênio.   

ah, pai, o tempo pra você não é o mesmo que pra mim.   

claro!  no entanto, o tempo é um só; ou não é, nem sei.  o tempo poderia ser a única descomunal percepção da nossa existência.  sabemos que existimos não porque pensamos mas porque sentimos a atuação do tempo, sentimo-nos dentro dele.  animais, plantas e coisas não pensam mas existem.  porque sentem a presença e ou o efeito do tempo.   

silêncio

você está querendo falar algo que não estou querendo entender…  eu disse.   

então, vou ser preciso: você sabe que não ficarei aqui muito mais…     

séculos ou milênios?, perguntei sorrindo.   

meses, semanas, dias.  você sabe a que vim.  como vai o seu livro?

está uma confusão!  preciso de informações simples mas não as estou encontrando.   

viu como as enciclopédias não contêm aquilo de que necessitamos?

silêncio.   

mas vai ficar até o fim!, não vai?, pai.   

não vou abandoná-lo.  mas você sabe, faltam dois meses pro natal…   

então é preciso que amanhã você e o menino acordem antes de mim e saiam pra passear.   

assim será.   

o menino veio subindo até nós.   

vô, um passarinho todo azul passou por mim e voou naquela direção.   

lá é uma mata muito bonita.   

vamos passear lá amanhã?

pode ser.  você já viu o sol nascer?

acho que nunca.   

então, amanhã vamos acordar antes do sol e vamos até a mata pra onde foi teu passarinho.   

como vou acordar antes do sol?

deixa isto por minha conta.   

o pai vai?, perguntou a mim.   

não posso, filho.  tenho muitas coisas pra fazer.   

criança e velho sempre têm tempo, né?, vovô.  estou sentindo um pouco de frio.   

vamos entrar.  hoje eu acendo o fogão e faço a nossa sopa.  meu pai falou, levantando-se, batendo as mãos na roupa cheia de raminhos secos.  os cães levantaram-se a um tempo e nos rodearam.   

parece que faz cem anos que não como!  falou o menino.  entraram os dois e os cães.  Luluva ficou ao meu lado.   

A Espécie Humana, romance de Jorge Teles, está sendo publicado em capítulos.

Leia o capítulo anterior.

Leia a partir do capítulo O.

Continua na semana que vem.

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