Velho candidato

A Itália tem uma tradição de cultuar seus velhos mais importantes, que tiveram uma vida marcante e construíram obras para a posteridade, e costuma reverenciá-los, chamando-os de “grandi vecchi” (grandes velhos). Foi assim que nos últimos anos os italianos se referiram, por exemplo, a Indro Montanelli no jornalismo, a Mário Monicelli no cinema, a Norberto Bobbio no pensamento político, a Sandro Pertini na política partidária.

Plínio de Arruda Sampaio, candidato do PSOL à Presidência da República, que na sua longa trajetória política avançou da esquerda da Democracia Cristã à esquerda de um partido desgarrado do PT, poderia ser um dos “grandes velhos” da política brasileira, se aqui houvesse algum tipo de reconhecimento parecido com aquele que os italianos dedicam aos seus, e se ele não se tivesse encapsulado em uma versão cada vez mais obsoleta e reacionária de sua utopia regressiva.

Plínio Sampaio faz parte de uma tribo que deixou o PT num primeiro momento por razões morais, e num segundo momento, por não considerar o partido suficientemente esquerdista para merecer o esforço e o calor de sua militância. A sua candidatura provocou um racha num partido que já é minúsculo pela sua própria natureza e ainda não conseguiu encontrar o eixo por onde tentar fazer fluir o seu projeto utópico de conciliar o socialismo com a liberdade. O PSOL (Partido do Socialismo e da Liberdade) – que tem em seus quadros ex-comunistas que chegaram a se comprometer no passado com a idéia da democracia como valor universal – não conseguiu ainda se desvencilhar das armadilhas de ser, mais do que um partido político, um intrigante oxímoro histórico: não se conhece um único caso real de convivência entre socialismo e liberdade, sendo que em todas as experiências feitas no mundo nesse sentido, um conceito acaba funcionando como negação do outro.

Para quem acreditava, no começo, que o PSOL viesse a ser uma tentativa de um sopro de renovação numa idéia que ampara o velho sonho de uma maior igualdade entre os homens, a campanha de Plínio está sendo uma decepção. Nenhuma centelha de novidade, nenhuma tentativa de regeneração da idéia, a mesma retórica velha e desgastada, e até mesmo a incorporação da recorrente idéia das bases de esquerda do PT, de domesticação da imprensa através do eufemismo do “controle social”. Plínio disse que é contra a censura à imprensa, mas que apóia todas as ações do tenente-coronel venezuelano Hugo Chávez em sua paciente cruzada para limitar a liberdade de expressão em seu país. “Chávez cumpriu a lei de seu país”, disse Plínio, sem levantar nenhuma sombra de objeção ao fato de que as leis num regime de violações constitucionais nada mais fazem do que institucionalizar a exceção, e que é exatamente nesse processo que se dá a legitimação das tiranias.

Um partido que pretendia renovar a esquerda, e que concorre à Presidência da República com um candidato que promete desapropriar qualquer propriedade – produtiva ou não (grifo inspirado por ele) – acima de 500 hectares, que manteria a desatinada política externa que vem sendo praticada por este governo, e que gostaria de estabelecer o controle social da imprensa (por ele, aliás, esse controle seria estabelecido desde já , porque ele gostaria de obrigar as TVs a convidá-lo compulsoriamente para todos os debates), não está muito longe de ser uma réplica de um grupelho com a mesma importância e representatividade de um PSTU.

O PSOL perde a oportunidade de ser um partido renovador, e Plínio a sua oportunidade de ser um “grande vecchio”.

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat

Um comentário para “Velho candidato”

  1. O sr. Vaia diz: “não se conhece um único caso real de convivência entre socialismo e liberdade”

    Eu conheço um caso, que o Vaia não citou: as aldeias indígenas às portas da cidade em que o Vaia mora, em que moramos.
    [basta sair do apartamento e conhecer o mundo em volta]

    Os índios são mestres da política (em nível local). É uma quase mania, ignorar os nobres indígenas, como se não contassem! Eles “criaram” o socialismo e o cultivaram e o mantém, sem sobressaltos. Pois estes trazem consigo uma coisa raríssima entre os branquelos: um contrato social, não escrito, que lembra aquilo que Rousseau buscava.

    Entre os branquelos, a convivência existente é entre social-democracia e liberdade: os países mais livres do mundo usam esta mistura: Noruega, Luxemburgo, Falkland Is. etc.

    [não disse capitalismo e liberdade; disse social-democracia e liberdade. O capitalismo perde aí o seu protagonismo]

    Abaixo da linha do Equador, tal convivência é considerada absurda – daí a dificuldade dos políticos em tentar a social-democracia na América do Sul. São perseguidos pelo imperialismo, abandonam a social-democracia e se turvam em regimes cada vez mais fechados (Equador, Venezuela, Bolívia).

    Rousseau tem força apenas em dois lugares do mundo: o Norte da Europa e as aldeias silvícolas – por coincidência, locais onde as ideias socialistas, de fato, penetraram. Pelo visto, o Rousseau deveria ser apenas um “maldito comedor de criacinhas que quer destruir o Ocidente”.

    No resto do mundo, apenas fome e miséria: a Europa Ocidental (França, Espanha) tinha 50 milhões de miseráveis nos Anos 90. Miseráveis brancos como a neve, não eram africanos; nos atuais EUA, metade da população é pobre; 1/6 dos estadunidenses jaz na miséria, com ou sem crise, já que a pobreza e miséria, quando chegam, vêm para ficar (assim quer o mercado).

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