Certa manhã nas areias de Copacabana

Vinte anos de idade, meio confuso diante do que estava acontecendo nos últimos dias, eu fora poucas vezes ao Rio de Janeiro. O desconhecido, as pessoas, o mar, a cidade enorme me assustavam. Estava hospedado num hotel na Avenida Atlântica, juntamente com os artistas que participavam do Segundo Festival Internacional da Canção, em terras cariocas. A cada dia eu conhecia mais pessoas que admirava. Dividia um apartamento com o cantor Agostinho dos Santos, voz e talento inesquecíveis, um dos que me ajudaram a pôr o pé na profissão.

Nas noites anteriores saíra com meu amigo Milton Nascimento, que ia me apresentando ao mundo musical da Guanabara. Conheci mestres e futuros mestres da canção brasileira. Fiz amizades que perduram até hoje e me dão orgulho, alegria. Música e poesia passavam a ser minha linha do horizonte, meu campo de pouso e decolagem, meu trabalho feliz.

Estávamos, em uma manhã daquelas, sentados à beira-mar, os olhos se deliciando com o marzão besta à frente, a brisa acariciando nossas peles que o sol fustigava. Eu e meu parceiro, junto com alguns amigos novos. Um desses me apresentou a primeira interpretação de minha primeira, e única até então, letra para melodia, que fora selecionada entre milhares para a competição. Era uma charge e nela se via um avião cruzando o céu por cima de uma rodovia e, saltando de pára-quedas, uma dezenas de velhinhas.

A legenda: solto avós nas estradas. Uma boa gozação que recebi com satisfação. Estavam me levando a sério.

Melhor do que a pergunta que ouvi de vários jornalistas, durante um coquetel no Copacabana Palace, que chique eu, hein? Todos queriam saber o que eu queria dizer com a minha letra. Tímido, mas estranhando aquele tipo de questão, eu respondia declamando as palavras que iniciavam nossa canção: “quando você foi embora fez-se noite em meu viver”. Para mim estava claríssimo. Só muito mais tarde eu me acostumei com os repórteres e suas inusitadas indagações.

Naquela manhã nas areias de Copacabana éramos jovens felizes vivendo o mundo da música. Uma melodia, tocando num radinho ao lado, atraiu a nossa atenção: era “Cantador”, de Dori Caymmi e Nelson Motta, cantada por Elis Regina. Depois de ouvi-la, Milton se virou para mim e disse: ainda bem que ela está concorrendo lá em São Paulo.  

O fato é que existia muita música boa no festival, mas, no do Rio, a qualidade de cobras musicais novas e antigas não era brincadeira.

Enquanto na paulicéia o concurso envolveu, além do artístico, muita questão de política e de costumes, a terra de São Sebastião assistiu ao aparecimento de uma explosão de harmonia, ritmo, melodia e voz que mudaria o rumo da música popular brasileira que viria a seguir. Milton Nascimento foi essa revolução.

Julho de 2010.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas.

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