Uma carta

Geraldão,

Se você resolver doar o Beto, remeta para o meu endereço. Foram gratificantes os dias que passamos juntos.

Saí daí prevendo alguns atritos com ele – tinha notado uma certa tendência ao excesso de exigência, a querer impor sua vontade como se fosse a única. Mas agora estou certa de que isso é fenômeno de relação pais-filhos. Comigo, Beto se mostrou companheiro, democrático e bem humorado. Foi, muitas vezes, a alegria da festa. Não vi nele vestígios daquele menino inseguro que esteve aqui dois anos atrás.

Certamente ele já terá contado, ou ainda vai, algumas das nossas aventuras. Eu quero contar especialmente o carnaval, que passamos em Avaré, os três: eu, ele e Inês. Sérgio Vaz ficou em casa trabalhando: matéria sobre o Paul McCartney, o frila da Status. Chegamos a discutir, na véspera, a possibilidade de ele ir e fazer lá a matéria. Acabamos, democraticamente, desistindo. A geladeira da casa estava pifada, teríamos que improvisar com gelo, dentro de um ispor, e com a geladeira da casa dos caseiros. Eu e as crianças somos relativamente frugais, mas Servaz já tem estômago mais exigente, sobretudo quanto aos líquidos. Para mim, levei só três latinhas de cerveja. Para ele, teríamos que levar duas dúzias e a infra-estrutura se complicaria. Consideramos, ponto por ponto, e concluímos que a viagem podia se revelar um desastre, em vez de diversão. Sérgio talvez não conseguisse fazer a matéria na única sala da casa, sem luz adequada, que serve de passagem e de pouso principal. Como conter as crianças – “olha o tumulto”, “o Sérgio tá trabalhando”, “não atrapalha” – num lugar ideal para soltá-las?

Então a intrépida caravana de nós três partiu no sábado, quase nove da manhã. Voltamos na quarta, às duas da tarde. Foram quatro dias fascinantes, e não teriam sido tanto, se o Beto não estivesse junto. Passeamos de bote a remo pelo lago formado pela represa, nadamos longas distâncias, ouvimos música.

Beto e Inês fizeram contato com os donos da casa em frente, do outro lado da represa. Andaram na lancha a motor do bem sucedido proprietário – é advogado, tem negócios e fazendas em Avaré, um liberal que se liberou –, almoçaram lá duas vezes e, pelo gosto deles, teriam freqüentado mais o buchicho da casa cheia de gente, comida boa e mordomia. Mas como eu recusei o primeiro convite para ir até lá à noite – já me imaginaram freqüentando a burguesia avareense, em preciosos dias de folga? –, outros não foram feitos, e eles foram obrigados a viver talvez mais do que gostariam a pobreza franciscana do lado de cá da represa. Mesmo assim, aproveitaram muito. Fiquei momentos embevecida, vendo os dois remando no meio da represa, nadando, fazendo bonecos de lama, inventando brincadeiras. Uma vidinha saudável.

Entrei muito na deles, especialmente nas excursões náuticas, e constatei uma antiga suspeita: a minha idade verdadeira não deve estar muito além dos 12, 13. Se tiver que escolher companhia para viajar, tirando os três adultos mais chegados, fico com Inês e Beto na cabeça. Eles são dispostos e disponíveis, pouco complicados e arrojados. Qualquer proposta é aceita, e quanto mais louca, mais votada. Briga-se o dia inteiro, mas ninguém briga por causa disso. E eles ainda botam pra fora as aflições.

Inês, por exemplo, me disse um dia que eu estava protegendo mais o Beto. Com razão. Disse, para me consolar, que ela achava que toda mãe fazia isso – proteger mais o visitante, o não-filho. De novo, com razão. Com o filho, a gente tem uma relação diária, contínua, sujeito a tanto desgaste… O não-filho é a novidade, o sangue novo, e não acrescenta à alma da gente o peso da responsabilidade da educação, da formação, da criação. Relação com filho é sempre tão cheia de culpas, de obrigações, de exigências, que é comum a gente ser pior com o nosso do que com o dos outros. A convivência com o Beto me ajudou a ver isso.

Ele e Inês viraram irmãos, com o tempo. Nos primeiros dias, incluindo os que passamos em Santa Catarina, eram os bons amigos se reencontrando, solidários e dedicados um com o outro. Com o tempo, a convivência, ficaram tão íntimos que debatiam o dia inteiro, e se patrulhavam, e reprimiam. Logo que percebi isso, me alarmei: “meu deus, eles estão reproduzindo as patrulhas e repressões que exercemos continuamente. que calamidade”, mas também logo saí dessa vida, e passei o filme com outro diretor, menos sério: “coisas de irmãos”. Me lembrei muito da minha relação com meu irmão Ronaldo, quatro anos mais velho que eu. Brigávamos sem parar, discutíamos incessantemente, e nos adorávamos. Ele é a figura que ilumina a minha infância.

Inês, evidentemente, teve ciúmes do Beto. De repente, a mãezona exclusiva passou a dividir afeto e atenção. Mas as disputas não surgiram daí, e sim da própria relação deles. Despediram-se com Inês dizendo que não quer ver o Beto nunca mais. Mas com o olho piscando pra mim, admitia que daqui a um mês terá saudades. Propus outras viagens a eles – Rio Amazonas, Rio São Francisco, Porto Seguro. Inês dizia “o Beto não vai, porque com ele não viajo mais”. O Beto dizia “não vou com você, vou com a sua mãe, e, além disso, comigo a viagem fica muito melhor”.

Quero mesmo voltar a viajar com eles. Enquanto eles curtem a minha companhia; daqui a pouco vou ser “aquela velha chata”.

Preciso terminar esta carta, que me parece meio descoordenada – jamais cobicei a organização dos Vaz –, mas deu o recado principal: o Beto me deu uma grande alegria, e à Inês também, mande-o de volta sempre.

Três machices do Beto, só pra distrair:

1) Fizemos o jantar, eu e a Inês, e ele dormiu. Após o jantar, ele foi designado para lavar a louça, e chiou. Nós argumentamos o jantar feito, etc. Ele disse: “Mas vocês são mulheres, têm que lavar a louça”. Foi longamente vaiado.

2) Saímos de barco, eu e Inês, e fomos para bem longe. Na volta, ele estava berrando, da margem: “Como é que vocês foram para tão longe. Fiquei preocupado. Já pensou ter que ir lá buscar vocês?”

3) Sobre viajar ou não com a gente, futuramente: “Mas, Inês, eu tenho que ir. Vocês precisam de um homem com vocês…”

Beijos, beijos, beijos,

Regina

A carta foi enviada sem data. Foi escrita em 1982.

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