A desgraça da mentira

12 de agosto de 2005. Lula vestiu o semblante de vítima e foi à TV. Em rede nacional, no horário nobre, o presidente pediu desculpas pelo envolvimento do governo e dos seus no que o país apelidou de mensalão. “Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos de pedir desculpas. O PT tem que pedir desculpas. O governo, onde errou, tem que pedir desculpas…”.

Um ato digno, raro, quiçá único, de reconhecimento de erros, que, agora, Lula joga no lixo. Quer transformar toda roubalheira e baixeza do mensalão em tentativa de golpe. Para tal, chega a conferir créditos à oposição. A mesma que, de tão frouxa, pouco ou nada fez.

Nem importa se à época ministros caíam como frutas podres, parlamentares da base aliada renunciavam no afã de evitar a exposição na lista de morte do publicitário Marco Valério, o mineiro operador da dinheirama, que continua solto por aí.

Muito menos se o presidente, secretário-geral e tesoureiro de seu partido fossem o próprio olho do furacão. Dane-se. Se há cinco anos agia-se pela sobrevivência, agora o que importa é purgar máculas de seu governo, ser consagrado.

As chances que Lula tem de reescrever a história do jeito que lhe convém são enormes. Até porque usa uma fórmula já testada e aprovada.

Em Paris, pouco mais de um mês depois do estouro do escândalo, Lula encenou uma patética entrevista no quintal da embaixada brasileira, em que uma repórter fantoche perguntava o que lhe fora instruído, e ele, que sempre fora rebelde, respondia conforme o ensaiado.

Ali, chancelou a armação que começara dias antes: a de que não havia mensalão e sim caixa 2 de campanha ou, nas palavras do tesoureiro petista Delúbio Soares, “recursos não contabilizados”. Um crime comum, que todo mundo comete. “O que o PT fez é o que é feito sistematicamente por outros partidos”, explicou o presidente.

Por essa lógica torta – usada e abusada pelo governo Lula -, se todos roubam todo mundo pode roubar.

Confundir mensalão com caixa 2 foi uma saída de mestre. Atribuída ao então ministro da Justiça, Márcio Tomáz Bastos – um gênio nos meandros jurídicos, que aparece sempre em bastidores ou nas luzes de casos polêmicos, como o da estranha morte do prefeito de Celso Daniel, de Santo André, ou na quebra do sigilo do caseiro Francenildo -, a estratégia foi espetacular.

Chegou ao ponto de o marqueteiro Duda Mendonça oferecer-se à CPI instalada no Parlamento para confessar que seu pagamento da campanha de 2004 era fruto de caixa 2 e fora depositado no exterior. Dois crimes. E revelados de graça. Nem o mais ingênuo dos patinhos acreditaria nesse circo.

A oposição, fora a meia dúzia de sempre, fingia reagir. Por medo da balbúrdia popular – chantagem confessa do presidente Lula -, ou por ter contas no mesmo cartório ou por motivos inconfessos. Assim, o mensalão foi se confundindo com caixa 2, a CPI que o apurava nem mesmo foi concluída, os “40 ladrões” ainda aguardam julgamento pelo Supremo Tribunal Federal.

Com tudo parado, quase esquecido, nada deveria motivar o presidente a atiçar podridões de seu governo. Quer livrar os seus? Teme o julgamento, previsto para 2011 e 2012, quando suas possibilidades de intervenção estarão, obviamente, mais reduzidas?

São hipóteses possíveis, mas que não conseguem bater a idéia de que o que Lula quer mesmo é idolatria total. Quer bater no peito, ser glorificado.

Assim como o seu vizinho Hugo Chávez – que deve lhe causar um tanto de inveja pelas sucessivas reeleições que consegue aprovar -, quer dizer que venceu os que desejavam surrupiar-lhe o mandato; que venceu preconceitos, moveu montanhas, multiplicou peixes e, se ainda der tempo, andou sobre os mares.

Mas, verdade seja dita, Lula segue à risca o que disse na entrevista de Paris: “A desgraça da mentira é que, ao contar a primeira você passa a vida inteira contando mentira para justificar a primeira que contou.”

Este artigo foi originalmente publicado no Blog do Noblat, em 5/12/2010.

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