Os pequenos e os grandes

Os acontecimentos me aborrecem, já dizia o poeta. Então eu me transporto para um tempo distante, em que a vida, entre o acordar e o dormir, fluía naturalmente como um rio. Não havia essa inflação de informação irritante, esse desfile de mentira dos poderosos do momento. Simplesmente não havia notícia alguma do mundo adulto, a não ser fatos ouvidos sem querer e nem se importar, mal compreendidos e não digeridos. A vida tinha calças curtas e era risonha como são as crianças, imunes às maldades dos canalhas espalhados pelo mundo. O mal só existia nos seriados em que heróis e bandidos se enfrentavam, armas nas mãos, e o bem sempre vencia.

Vejo-me subindo a ladeira, mole para o menino, em direção à Samambaia, em Diamantina. Converso com Maria do Cardênio, mulher e cozinheira, inesquecível. Entendo sua linguagem, estou acostumado. Em meio às suas frases curtas, ignorante do alfabeto mas conhecedora da vida, ela diz “ entonces” e “ arriba” em vez de então e para cima. Não era o que eu aprendera em casa e na escola. Havia outras palavras estranhas que ela usava, e eu gostava daquilo. Muito mais tarde, procurei explicação para aquele jeito de falar do povo simples do vale do Jequitinhonha, do interior mineiro.

Entoava muitas expressões que pareciam espanholas, mas poderiam ser, por que não?, resquícios do português vulgar, popular, que nos chegou do além mar. Nunca me animei a pesquisar o assunto, mas o que eu continuei escutando, mais tarde, no andar e conviver com o nosso povo de dentro, e o que eu descobri no mundo de Guimarães Rosa, me acenderam a intuição de que há um campo maravilhoso de estudo nesse território.

O meu caso é outro. Guardo as impressões fortes que trouxe de meu convívio com uma gente de sabedoria sem empáfia, disposta a entender e aconselhar os pequenos. Pois não é só quando meninos que somos pequenos. A pequenez nos acompanha para sempre. Quando ela é só a constatação de que somos minúsculos diante dos mistérios da vida e do universo, tudo certo, é inevitável. Mas ela costuma grudar mesmo é naqueles que se julgam reis. Esses são casos perdidos.

Um homem tem três metros de altura, esse é o título de um filme em que John Cassavetes interpretava um homem que atingia alta dignidade moral. A História está cheia de pessoas assim, mas a vida comum, para quem não está atento só às aparências, está repleta de exemplares humanos que nos fazem chorar de alegria só pela constatação de que somos seus semelhantes.

Não é o caso de personalidades que se acham grandes mas apenas nos chateiam, aborrecem, entediam. Desprezo esses tipos. E fico na lembrança da Maria de minha infância, de tantas outras Marias e Joões que estiveram e estão comigo até hoje, me ajudaram e me ajudam ainda a crescer, a continuar crescendo.

 Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

Um comentário para “Os pequenos e os grandes”

  1. Fernando,

    é confortador sentir que sei do que você fala. E como você fala/escreve bem!

    Beijo

    Vivina.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.