O dia em que Lana Turner se apaixonou por um piloto brasileiro

Durante a Segunda Guerra, os grandes astros de Hollywood dos anos 30 e 40 costumavam visitar as bases americanas espalhadas pelo mundo. Chegavam discretamente em vôos especiais das Forças Armadas americanas, faziam o que tinham que fazer e, discretamente, iam embora. Segundo a crença geral, o moral dos soldados crescia com a simples aparição dos artistas.

No Brasil, as bases americanas ficavam em Belém, no Pará, e em Natal, Rio Grande do Norte. Como os focos dos meus textos têm sido a primeira, os seus domínios é que foram o cenário de um empolgante caso de amor envolvendo uma das maiores estrelas americanas de todos os tempos.

Num dia gloriosamente claro do verão amazônico em junho de 1943, a enorme aeronave da US Air Force desceu na base. Desembarcaram os atores Kirk Douglas, Bob Hope e Dana Andrews, além das estrelas Joan Crawford e Lana Turner. Isso ocorreu pela manhã. Quando foi à tarde, pouco antes do crepúsculo, um pequeno avião de patrulha North America, o famoso NA que a nossa Esquadrilha da Fumaça usou por vastos anos, surgiu na linha do horizonte se preparando para pousar. Já tomara o rumo da cabeceira da pista; o piloto, todavia, arremeteu. Para logo fazer algumas piruetas sobre a base. Finalmente após a, se assim podemos chamar, exibição, o pequeno aparelho tocou o solo. Taxiou até um ponto onde estavam diversas pessoas. Entre elas o comandante da base e vários americanos. Apenas coadjuvantes da nossa história que então começa. Pois foi ao colocar os olhos sobre o piloto brasileiro a sair do cockpit do monomotor que a atriz Lana Turner, no vigor de seus vinte e poucos anos, mas já tendo emplacado alguns sucessos, entre eles a versão, com Spencer Tracy, de O Médico e o Monstro, estremeceu. Até porque o aviador, de fato, era um tremendo boa pinta. De colocar para escanteio qualquer ator americano, inclusive os presentes.

Na mesma noite em recepção com orquestra a tudo no cassino da base, o casal dançou. Não até o sol raiar, como muitos outros. É que, num determinado momento em que a lua se escondeu entre as nuvens, tomaram rumo para lugar incerto e não sabido, entre os arbustos que cercavam o prédio.

Daí por diante os acontecimentos se precipitaram. De um lado os brasileiros da base, inclusive o brigadeiro-chefe, acharam o máximo o romance do jovem piloto com a ascendente estrela; já os gringos torceram o nariz. Com o que, de resto, a beldade em nada se importou. E, enquanto seus colegas seguiam para outras bases no norte da África e Europa, ela se mudou para o Grande Hotel, o melhor da cidade, em frente à lateral do lindo Teatro da Paz. Acobertado pelos seus superiores, o brasileiro foi junto. Oficialmente como guia da visitante.

A continuação da história veio através de murmúrios e informações que não seriam difíceis de comprovar. A mais conveniente ao apetite insaciável das fofocas é que a estrela queria, a todo custo, levar o brazuca para Los Angeles. O argumento dele para a recusa teria sido o óbvio: não poderia, simplesmente, dependurar a farda e se mandar, pois seria considerado desertor.

– Terminada a guerra vou – teria prometido.

– Ora – veio a resposta –, depois desta guerra o mundo não será mais o mesmo.

Como na época não havia vôos comerciais entre Belém e os Estados Unidos, Lana embarcou para o Rio, onde teve em sua cola, porém sem resultados, os repórteres da revista O Cruzeiro, entre eles o famoso David Nasser. De lá a beldade se foi a bordo de um avião da PanAm.

Durante muitos anos sequer o nome do piloto/galã nacional se sabia. Porém a saga do breve romance já estava definitivamente inscrita entre os acontecimentos, reais ou romanceados, que permearam a estada dos americanos em Belém nos quentes anos 40.

Quem acabou por descobrir os detalhes finais do empolgante caso foi o professor aposentado da Universidade de Brasília, escritor e pesquisador Eldonor Pimentel, que está prestes a lançar um livro sobre os reflexos, no Brasil, do conflito que rolou entre 1939 e 1945. Ele encontrou o antigo piloto do romance com a estrela morando numa pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, de onde era oriundo. Ao ser procurado, num primeiro momento não quis falar nada. Porém, na continuação, o brigadeiro-do-ar reformado Orlando de Menezes Martins, do alto dos seus 80 e tantos anos, apenas confirmou os acontecimentos. O pesquisador, todavia, formulou a única pergunta que realmente interessava:

– E o senhor se arrependeu de não ter ido com ela para Los Angeles?

O antigo aviador, em vez de responder, levantou, abriu uma gaveta e tirou foto que entregou ao escritor. Ele olhou e murmurou, ante a imagem da jovem:

– Mas esta não é a Lana Turner.

– Claro que não. Porém é muito mais bonita, não acha?

– De fato, lembra um pouco a Ingrid Bergman do tempo de Casablanca.

– Era minha noiva, me esperava aqui na época da guerra.

Foi então que entrou na sala uma idosa senhora de cabelos brancos azulados e rosto a exibir traços de beleza que o tempo não apagou de todo. Trouxe para o marido chimarrão; para o visitante, café. Ao sair deixou no ambiente o leve aroma de um antigo, muito antigo talco pós-banho. Royal Briar…

Sérgio Vaz se intromete

O texto acima foi, como os demais de Antonio Contente transcritos aqui, originalmente publicado no jornal Correio Popular, de Campinas.

Mas, ao colocar o post no ar, não consigo me conter: quero dizer duas coisinhas.

A foto acima é da época de lançamento do filme Slightly Dangerous, de 1943, o ano da aventura brasileira de Lana Turner.

Contente diz que Lana Turner estava com vinte e poucos anos. É necessário dizer a idade exata da moça: em 1943, estava com exatos 22 aninhos. Por muito pouco, muito pouco mesmo, nosso bravo piloto não teve que responder por corrupção de menores…

Só para lembrar: em 1946, apenas três anos depois que nosso piloto atingiu o alvo, Lana Turner apareceria em uma das mais extasiantes, sensacionais seqüências do cinema, aquela no começo de O Destino Bate à Sua Porta/The Postman Always Rings Twice, de Tay Garnett: num botequim quase inteiramente vazio de beira de estrada, rola no chão um batom. A câmara focaliza o chão, acompanha o batom rolando no chão, movimenta-se suavemente para a frente, focaliza os pés, as pernas de uma mulher. Corta, vemos o rosto do único freguês que está no bar – um extasiado John Garfield, a boca aberta de choque. Corta, vemos o rosto da mulher – Lana, na pele da mulher do dono do bar. Está selado um pacto sinistro, um pacto de sangue, vem aí a tragédia. Não há nada mais noir.  

Não sei quanto de imaginação meu amigo Antonio Contente botou na narrativa do encontro do piloto com Lana Turner. Mas não importa: é uma beleza de texto, o dele.  

2 Comentários para “O dia em que Lana Turner se apaixonou por um piloto brasileiro”

  1. Isto é verdade? Desconhecia… Eu acho a Lana turner tão engraçada (no bom sentido). A ideia que tenho dela é que ela é uma jovem despreocupada e romântica. Eu tenho a ideia de que o Sérgio tb gosta mt dela, mas já reparei que a Ingrid é a sua diva! A Ingrid transmite uma serenidade apaixonaste

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.