Nossa culpa, nossa máxima culpa

A campanha eleitoral foi como um jogo de pingue-pongue. No pingue-pongue, nivela-se por baixo. A campanha eleitoral de 2010 foi um desengonçado, baixo nível jogo de pingue-pongue.

O eventual leitor que alguma vez já jogou pingue-pongue sabe do que se está falando. É um jogo, talvez mais que todos os outros, para jogadores do mesmo nível. Na maioria dos outros jogos, se há um bom jogador e um jogador muito ruim, a coisa é simples: ou o bom ganha logo, direto, do muito ruim, ou então ele finge um pouquinho, engana, e aí, zás! vence.

No pingue-pong, é diferente. Se o jogador experiente – digamos, um adulto – tenta jogar como o que não sabe nada – digamos, uma criança –, pode ser surpreendido e derrubado. Porque ao dar um saque infantil, o jogador experiente pode ser surpreendido – e perder o ponto, e depois perder outro, e outro. 

A campanha presidencial de 2010 foi assim uma espécie de jogo de pingue-pongue.

No começo, bem no começo, tínhamos um expert contra uma criança. O experiente Serra, presidente da UNE quando jovem, depois exilado, depois bom deputado, depois bom ministro, depois bom ministro de novo, depois bom prefeito da maior cidade do país, depois governador do Estado que tem por volta de 40% do PIB e 25% dos eleitores do país, contra Dilma, guerrilheira quando jovem (mas que jamais pegou em armas, segundo sua propaganda, ou seja, uma guerrilha incompetente), depois secretária de Energia do Rio Grande do Sul, depois ministra de Energia, depois ministra-chefe da Casa Civil – jamais candidata a nada, sequer a síndica do prédio.

No começo, era o político experiente contra a criação do Lula que jamais tinha tido um único voto na vida.

No começo, as pesquisas davam Serra arrasando, com Dilma com uns 4%.

Aí veio o efeito pingue-pongue. Serra, o experiente, a pessoa mais qualificada para ser presidente do país em toda a História, Serra e sua campanha, eles começaram a jogar pingue-pongue com a mulher que jamais tivera um único voto na vida, que sempre teve fama de mandona, irascível, trator em cima dos aliados, e que – fantástico! – não conseguia falar uma frase inteligível.

Debate no primeiro turno: Dilma, pessoa que não consegue falar uma frase inteligível, rosna asneiras. Serra não fala muitas inteligências.

Botaram trocentos mídia trainers em ação. Transformaram Dilma, aquele pavor, aquele horror, aquela Eliza Doolittle, em uma outra pessoa completamente diferente. Enfiaram nela um sorriso que ela jamais havia sorrido na vida. Treinaram ela para não bufar. Treinaram ela para terminar um frase – essa fase do treinamento era difícil demais, e Dilma não conseguiu o que se pretendia. Mas ela melhorou, cara! Já no segundo debate, ela conseguia quase falar como se fosse um ser humano que conseguisse somar 1 + 1. Ainda demorava longos segundos para juntar uma frase com a outra, mas você quer o quê? Milagre, só Deus. Ela falava uma palavra, sorria em silêncio… e só depois de uns 10 segundos conseguia vir com outra frase. Tá certo que uma não falava muito bem com a outra – mas o fato é que, já no segundo debate, Dilma já parecia uma macaca um pouco treinada.

O povo do lulo-petismo respirava aliviado: olha aí, não é que ela dá pra ser treinada?

E o que o povo do outro lado – o meu lado – fez?

Jogou pingue-pongue.

Baixou o nível.

Se do outro lado tá uma pessoa que mal sabe pronunciar uma frase, e a cada frase ditada pelos marqueteiros agride o bom senso e a verdade dos fatos, então – parece ter dito a campanha de Serra – vamos jogar igual a ela.

Em vez de falar a verdade, vamos mentir, vamos mistificar, que nem ela, que nem eles.

         A campanha do meu candidato baixou o nível

Tenho um grande, um imenso nojo do que a campanha do meu candidato se permitiu fazer.

Tenho uma imensa vergonha do fato de o meu candidato ter optado por fazer um jogo tão baixo quanto o de Dilma.

Serra e sua campanha se apegaram à baixaria sobre o aborto. É vergonhoso. O aborto não deveria ter entrado em discussão. O tema é sério demais para ser tratado em um jogo de pingue-pongue.

O Papa Bento XV, os pastores evangélicos, eles que fossem plantar batatas.

A campanha do meu candidato se acovardou diante das mentiras, das mistificações a respeito de privatização. Chegou a fazer anúncio dizendo que Dilma privatizou mais do que o PSDB. Isso é nojento.

Privatizar é bom. Essa é a bandeira boa.

Meu candidato jogou pingue-pongue com Dilma, baixou o nível, não teve peito de dizer o que é a verdade dos fatos, o que precisava ser dito, Que privatizar é bom. Que o Estado não tem que mexer onde a iniciativa privada é que funciona.

O Estado não tem que minerar, perfurar poços de petróleo, construir hidrelétricas – ainda mais na Amazônia. O Estado não tem que ser dono de bancos, petrolíferas, mineradoras, fábricas de aviões, estaleiros.

O Estado tem que cuidar de educação, saúde e segurança. E de impor regras para as demais atividades.

Mas o meu candidato não disse nada disso. Jogou pingue-pongue. Baixou o nível. Baixou tanto, mas tanto, mas tanto o nível, que quase virou uma Dilma.

De repente, o meu candidato saiu falando asneiras – mais dinheiro para o bolsa família, mais dinheiro para os aposentados, mais dinheiro para o salário-mínimo.

Epa! Péra lá. O meu candidato era o Serra, o sujeito do PSDB, o sujeito das contas públicas acertadas, o sujeito do equilíbrio fiscal, o sujeito que sabia como administrar a máquina, o cara que, se eleito, iria desfazer a grande porcaria que o Lula fez, o inchaço horroroso.

Mas não. Em vez de defender a verdade, meu candidato e sua campanha começaram a brigar com o lulo-petismo para ver quem mais estufa a máquina pública.

Eles ditaram as regras do jogo 

É isso. Não é que o Brasil quisesse Dilma. No primeiro turno, a maioria disse, de maneira firme e clara, que não queria Dilma.

Mas o lulo-petismo ditou as regras do jogo. Tudo bem – violaram todos os pontos das leis eleitorais, e a Justiça deixou passar, fingiu-se de morta. Mas o fato é que a oposição não soube o que fazer. Acovardou-se. Deixou de defender o certo para tentar ficar parecido com o outro lado, para parecer mais populista ainda que o outro lado.

Optamos pelo pingue-pongue. Fomos vencidos pelo fantoche, pelo boneco, pelo poste. O campeão de pingue-pongue foi vencido pela criança.

31 de outubro de 2010, triste dia.

2 Comentários para “Nossa culpa, nossa máxima culpa”

  1. acho que tem uma série de fatores que contribuíram pra gerar esse estado de coisas. o marqueteiro provavelmente é um deles (ou quem quer que seja que tome as decisões fundamentais sobre os rumos da campanha).

    mas não é só isso. tu fala das promessas da campanha e de como elas significam que nos rebaixamos ao mesmo nível deles. eu quero acreditar que o Serra, bom administrador que é, não seja leviano a prometer mais do que pode cumprir.

    concordo contigo que houve um exagero eleitoreiro e acho que pode ter sido fruto do desespero. mas é como eu tenho dito: infelizmente o nosso povo gosta de Getúlios, de pais dos pobres, de assistencialismo. o povo acredita (e quando digo povo não me refiro só ao povão, tem gente muito estudada que já brigou comigo em discussões sobre isso) que o governo tem que dar tudo: casa, comida, saúde, educação, segurança, saneamento, emprego, dinheiro, estrada, tem que minerar, extrair petróleo, instalar telefone, dar dinheiro pra família do cara se o cara vai preso e tudo o mais que for possível.

    é um grande equívoco e sei que nesse ponto eu e tu concordamos; mas é a mentalidade do povo brasileiro. pra mudar isso precisa de educação. senso crítico. tudo o que o governo petista não quer que o povo tenha, afinal, um povo com senso crítico não sai elegendo qualquer poste só porque o “sinhô” mandou.

    a mesma coisa vale pra privatização: o cara que tem pouca instrução provavelmente é contra a privatização sem nem saber o que isso significa! ele não sabe que não teria o celular super bacana que ele carrega no bolso se a Telebrás não tivesse sido privatizada. as pessoas são contra a privatização porque o Lula vai pra tv e desce o pau na privatização. de novo, a solução pra esse tipo de situação é educação e senso crítico. pra ninguém cair no conto do vigário, pra ninguém mais sair acreditando em alguma coisa só porque o Lula falou. assim se construíram todas as mentiras que o Lula contou sobre o PSDB e que o PSDB não se deu ao trabalho de desmentir.

    as pessoas também não sabem quais são as implicações do inchamento da máquina pública. a maioria das pessoas, se pudesse, pegava um carguinho de confiança também. da mesma forma, se tem um dinheirinho no bolso pra comprar a prestação, o cidadão comum não tá nem aí pra corrupção, afinal “todo mundo rouba”. é o conformismo do bolso cheio. é triste, mas é vero.

    a coisa do aborto acho um pouco mais complicada. acho inegável que a sociedade brasileira é conservadora. a maioria das pessoas é contra o aborto, seja por questão religiosa, seja por crença pessoal. eu sou da opinião de que devia ser descriminalizado, e cada mulher que decida se faz ou não. até porque não se trata só de um dogma religioso, mesmo entre os cientistas não há consenso sobre quando começa a vida. isso é tema de muito debate na área médica e me parece que estamos longe de um veredicto. então é questão de consciência individual mesmo.

    agora, não acho que o governo tem que botar médico no SUS a fazer aborto a três por quatro, sem ser naqueles casos já previstos por lei. fez filho, nego? se vira! quer abortar aborta, mas o governo já te dá camisinha, anticoncepcional e ligadura de trompas. não soube usar? não é culpa do governo. quer fazer aborto? pode fazer, mas não com grana do governo. senão aborto acaba virando método anticoncepcional, e não acho improvável que ia ter mulher fazendo aborto mês sim, mês não porque não se cuidou, engravidou e não tem como sustentar o filho.

    pra mim, os problemas mais sérios quanto a isso são dois: o primeiro, a estatização do aborto irrestrito, como falei aí em cima. o segundo, a Dilma ter mentido sobre as posições dela e do partido. teve gente que foi expulsa do PT por votar contra leis pró-aborto! isso é absurdo em tantos níveis que eu nem saberia por onde começar a criticar, então nem vou tentar.

    agora, no meio disso tudo o Serra falou uma coisa que eu gostei: se o aborto passa a ser tratado como um direito humano, uma pessoa que é contrária ao aborto por acreditar que o aborto é um assassinato (não é nada óbvio que não seja) acaba sendo contra os direitos humanos. isso é uma grande contradição, e eu não consigo achar que faça sentido. e olhe que sou a favor da descriminalização! mas acho que descriminalizar é uma coisa, fazer disso um direito humano é outra bem diferente.

    então acho que concordamos em muita coisa. mas também acho muito revoltante, como cidadã, ver o presidente burlando todas as leis, escarnecendo da justiça, fazendo campanha há dois anos, abandonando a liturgia do cargo, passando o tempo todo em cima de palanque, manipulando a opinião das pessoas, transformando vítima em algoz, mentindo sobre o passado do país, jogando no lixo tudo o que os antecessores dele fizeram, tentando igualar Paulo Preto e Erenice, enquanto o partido dele rouba descaradamente, encomenda dossiê, quebra sigilo, enfim, todas as formas possíveis de jogo sujo, e a gente cruza os braços e banca os bons moços? é revoltante.

    não que eu ache que a nossa campanha devesse ter partido pro jogo sujo à la lulismo, mas nesse contexto, acho que entendo um pouco por que se usou o aborto e as promessas eleitoreiras. é porque é nisso que o povo presta atenção. infelizmente, Sérgio, o povo não tá nem aí se a Erenice roubou ou não roubou, desde que tenha um dinheirinho no bolso.

    não tou dizendo que endosso a postura da campanha. de forma alguma. só tou dizendo que acho que entendo por que as coisas correram desse jeito.

    eu poderia ficar aqui me estendendo sobre esses temas até amanhã. mas acho que já tomei muito mais do que o espaço que poderia me caber. de todo modo, agora só nos resta esperar que o poste dê o melhor de si na presidência, e tentar desfazer esses mitos do assistencialismo e do antiprivatismo que assolam o país. pra usar uma frase muito cara ao nosso futuro ex-presidente, “a luta continua”.

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