Vou, não vou

Por mais que eu tente obedecer a conselhos médicos, tendo um mínimo de bom senso, durmo tarde. Muito tarde.

Madrugadas e mais madrugadas, rua sossegada, filhos sonhando, não resisto ao assalto noturno de livros, papéis, gavetas, computador. Músicas.

Antes de ir pra cama, impossível não ler mais um – ao menos, mais um! – capítulo da história que povoa meus pensamentos. Afinal, preciso saber se o autor vai fazer o que estou pensando, ou se teve idéia melhor. Vã pretensão. O autor sempre tem idéia melhor. Muito melhor.

Impossível não listar as tarefas do dia seguinte – contas, compras, médico, ginástica, escritório –, mesmo sabendo que a metade será adiada. Semana seguinte, mês seguinte, ano. Nunca mais.

Impossível não abrir uma gaveta – a última do dia, quem sabe? – e tentar a derradeira arrumação em linhas, botões, agulhas, alfinetes, tesouras, chaves, lixas, cartões, anotações, lembretes, ah!

Impossível resistir às mais recentes revelações do computador, só dois minutinhos, ligar e desligar. Ligo, e começam a desfilar belezas naturais da África, e cidadezinhas charmosas do sul da França. Textos a serem lidos, escritos, relidos, reescritos. Mensagens de amigos, de familiares. De familiares amigos.

–  Deixa isso pra amanhã! – Me ordeno.

–  São quase quatro horas! – Me aviso.

–  Só vou ler! – Me prometo.

–  Só vou responder essa mensagem, é urgente… – Me concedo.

–  Só mais essa… – Me presenteio.

–  Só essas todas! – Me empolgo.

A escuridão da rua ameaçando clarear, desligo os dois minutinhos que viraram tantos e, antes de ir pra cama, ainda costumo esperar que vozes amigas terminem um samba, uma música caipira. Uma lembrança.

Ontem, a voz de Nara Leão e o “Canto de Ossanha” me acompanharam até o quarto:

–  “O homem que diz, vou, não vai.”

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