Juízes de futebol, gatunos ou não

O gatunos do título devo a Nelson Rodrigues, que teceu as mais saborosas crônicas sobre o juiz ladrão. Como diria ele, vamos aos fatos, pelo menos a um deles:

“Mas em 1918, 17 ou 16, os gatunos constituíam uma briosa fauna, uma luxuriante flora. Evidentemente, havia as exceções. Mas os salafrários podiam apitar as partidas e com que glorioso, com que genial descaro! Certa vez, foi até interessante: — existia um juiz que era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um domingo, ele vai apitar um jogo decisivo. Que fazem os adversários? Tentam suborná-lo. Ora, o canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável. E o homem optou pela solução mais equânime: — levou bola dos dois lados. Justiça se lhe faça: — roubou da maneira mais desenfreada e imparcial os dois quadros. Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão. Mas o gângster já se antecipara, já estava pulando muros e galinheiros. Era uma figurinha elástica, acrobática e alada. Isto foi em 1917. O juiz gatuno está correndo até hoje.”

Vou aqui relembrar alguns episódios de juízes (gatunos ou não) que se tornaram célebres no futebol brasileiro. Um deles, o folclórico Mário Vianna, personagem desta historinha publicada anos atrás pela revista Placar:

“Corinthians e Bangu jogavam no Pacaembu pelo Torneio Rio-São Paulo em 1952. Partida dura. Baltazar entrou de mau jeito num adversário e Mário Vianna o expulsou. Os outros corintianos se aproximaram para reclamar e ele foi avisando:
– Não falem comigo, que também expulso vocês.

Goiano e Luizinho esboçaram um leve protesto.
– Mas seu juiz…
– Eu disse que não falassem comigo. Pra fora os dois.

Em Minas houve o famoso Cidinho Bola Nossa, atleticano fanático. O episódio abaixo foi postado por “Sapo Barbudo”, em 2004, na internet. Ele teve como fonte a revista Placar:

“Nos 25 anos como juiz, Cidinho – Alcebíades de Magalhães Dias – escapou de muitos linchamentos e ganhou o apelido de Bola Nossa devido ao seu amor pelo Atlético Mineiro. Ele mesmo conta esta história: ‘Atlético e Botafogo jogavam na inauguração do estádio do Cruzeiro em 1949. Afonso e Santo Cristo disputavam a bola para saber de quem era o lateral. Quando o beque do Atlético me perguntou de quem era a bola, deixei escapar uma frase que me acompanhou para o resto da vida – É nossa, Afonso, a bola é nossa’.

O entusiasmo foi tão grande que Santo Cristo saiu sorrindo e contou aos companheiros. Augusto Rocha, jornalista de O Veneno, ouviu tudo e no dia seguinte conseguiu vender mais de 2 mil exemplares em Belo Horizonte com a seguinte manchete – “O Galo pariu um rato.”

Também de “Sapo Barbudo” citando a Placar:

“O mesmo aconteceu com João Felix Junior num América x Atlético, em 1950, quando a torcida viu o primeiro clássico no velho Estádio Independência.
– Foi falta ou impedimento? – perguntou o atacante Vaguinho do América.
E João Felix virava constantemente a palma da mão.

Não entendendo, Vaguinho voltou a perguntar. Foi expulso por desrespeito à autoridade.
O juiz queria dizer que a bola era do Atlético, pois em sua mão estavam pintadas as cores do Galo.”

Outro juiz inesquecível foi Armando Marques – Armando Nunes Castanheira da Rosa Marques, que durante 25 anos apitou no futebol brasileiro. A fonte é sempre a revista Placar:

“Em 1973, na final do campeonato paulista, Santos e Portuguesa decidiram o titulo na cobrança dos pênaltis. Quando a Portuguesa ainda tinha condições de empatar, Armando pegou a bola e acabou o jogo com o Santos campeão. Quando percebeu o erro quis voltar atrás, mas os times já estavam nos vestiários. A Federação terminou proclamando Santos e Portuguesa campeões paulistas de 1973.

Outra confusão aconteceu em 1974. Nilton Santos era assessor técnico do Botafogo. Quando Armando foi chamar a atenção do ex-craque com o dedo em riste, recebeu de Nilton um soco que o atirou escadaria abaixo no túnel do Maracanã.”

A historinha a seguir teve como personagens Romeu Ítalo Ripoli, presidente do XV de Novembro de Piracicaba, e o juiz paulista Olten Ayres de Abreu. A fonte é A Província Online, de Cecílio Elias Netto e Milton Neves.

“Há pouco tempo, o amigo Antônio Ulisses Micchi – radialista de voz inigualável, à época – lembrou do fato que, parecendo folclórico, foi absolutamente real. Em almoço, lá estávamos, “en petit comité”: José Ermírio de Morais, Olten, Rípoli, Luiz Cunha e outros radialistas e repórteres.
Ao final do almoço, Rípoli anunciou: “Agora, um vinho especial para o Olten, um vinho que eu trouxe da Itália.” José Ermírio sorriu, feliz diante de tanto cavalheirismo. Olten, o chefe dos juízes, sentiu-se glorioso. Mas Rípoli impôs uma condição: “O Olten tem que ir buscá-lo. Está na geladeira.”
Não me lembro se o Olten retornou à mesa com o vinho, sem o vinho, se alguém o experimentou. Sei que, no dia seguinte, os jornais explodiam em manchetes indignadas: ‘Olten denuncia: Rípoli tentou suborná-lo’. Em vez de vinho, Olten dizia que Rípoli lhe oferecera dinheiro: ‘Ele deixou embrulhado num pacote, dentro da geladeira’. Deu processo, confusão, mas Rípoli não se abalou. Juro pelos céus que nunca soubemos a verdade.
Depondo sobre o assunto, Rípoli tentou inverter a situação: ‘Eu é que denuncio o Olten: é um larápio. Ele roubou o meu dinheiro. Pois a geladeira é minha, o dinheiro é meu. Se é meu, ponho o dinheiro onde eu quiser’.”

Agora voltemos a Nelson Rodrigues, agora comparando gatunos e juízes honestos.

“A arbitragem normal e honesta conferiu ao clássico um tédio profundo, uma mediocridade irremediável. Só o juiz gatuno, o juiz larápio dá ao futebol uma dimensão nova e, se me permitem, shakespeariana. O espetáculo deixa de se resolver em termos especificamente técnicos, táticos e esportivos. Passa a ter uma grandeza específica e terrível. Eis a verdade: – o juiz ladrão revolve, no time prejudicado e respectiva torcida, esse fundo de crueldade, de insânia, de ódio que existe, adormecido, no mais íntegro dos seres. O mínimo que nos ocorre é beber-lhe o sangue.”

 

Janeiro 2010

Um comentário para “Juízes de futebol, gatunos ou não”

  1. Anélio,

    futebol já era assunto de domingo? E agora, então?
    Adorei!

    Beijo

    Vininha.

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