Chove lá fora

E pinga aqui dentro, como se costuma dizer em Minas. Mas chover lá fora me lembra a canção de Tito Madi e a interpretação de meu amigo Agostinho dos Santos. Ele que estava em um avião errado em dia errado. Ele que foi minha primeira perda de amizade e música. A água que cai no pátio, na casa e na rua, refresca o fim de tarde e nos prepara para uma noite amena.

E o brasileiro que engoliu uma enormidade de jornais de domingo, papel escrito que pouco acrescenta, se pergunta por onde andam as idéias, os projetos, o pensamento sobre o presente e o futuro do país?

Até quando viveremos esse embate entre idolatria e negação absoluta?

Até quando não concordar com propostas e ações governamentais vai significar expurgo e traição? O pensamento tem de ser livre, o cidadão é que tem que mandar no Estado e não o contrário. Eu não suporto essa tentativa de se criar unanimidade. Toda unanimidade é burra, disse Nelson Rodrigues. Toda unanimidade é perigosa, digo eu. Sejamos plurais.

Estamos vivendo uma comédia de baixo nível que, espero, não se transforme em tragédia. Não que dessa Maria Mole saia algo violento, diferente da violência a que todos cidadãos estamos expostos. Mas é muito discurso e conversa inútil, muita piada e pouca ação. A solução democrática são os partidos, mas os problemas estão nos partidos, pois eles só enxergam a parte que lhes cabe.

O que tem o poder, que exacerba a fruição e elimina as convicções? Não sei, pois nunca o fruí. José Aparecido de Oliveira, brasileiro e mineiro imenso, me retirou do meu isolamento para ser diretor artístico da Rádio Inconfidência. Fiz o que pude, ajudado pelo Gonzaguinha e amigos (não remunerados), para que o projeto de uma rádio de música brasileira caminhasse. Nunca usei carro da emissora pública. Chegava e saía com meu chevette. Fiz o que já fazia, mas meu tempo de compositor foi prejudicado.

Dez anos depois, amigos ligados à política da cidade me jogaram na aventura de colaborar, na Secretaria de Cultura, durante o centenário de Belo Horizonte. Essas duas experiências me tomaram muito tempo e não foram boas para o escritor de canções que sou. Sempre fui à Secretaria com meu carrinho, desatualizado mas andante. Para não tomar o café absurdo que a Prefeitura comprava (compra-se pelo menor preço, mesmo que seja porcaria), eu comprava um ótimo e distribuía. O funcionário público tem de ser cobrado pelo que faz mas merece tratamento digno.

Não falo isso para me vangloriar. Apenas para lembrar que o belo discurso de posse do Presidente, e de todos os que vieram antes e virão depois dele, (e essa é uma realidade que um dia ele vai encarar) contém uma verdade: o Presidente é um servidor público. Os que estão abaixo dele também.

Esta crônica foi publicada no Estado de Minas.

2 Comentários para “Chove lá fora”

  1. Fernando,

    não me satisfiz em ler e concordar.
    Já que posso, quero dizer – por escrito – que concordo.

    Abraço

    Vivina.

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