Já não se olha para o céu

Menino, no interior, eu sabia dos rumos das nuvens, suas formas e presságios. Mas era na noite que eu dirigia meu olhar para o alto, buscando estrelas e lua. Não sou nem nunca fui conhecedor teórico dos mistérios celestes, mas minha atenção se dirigia naturalmente para cima. As cidades eram pouco iluminadas e o que rolava por cima de nossas cabeças era um atrativo.

As ladeiras da minha aldeia faziam com que, subindo ou descendo, o firmamento sempre estivesse diante de meus olhos. Espectador das belezas do céu das noites, eu agia como Alberto Caieiro, vivendo e sentindo, sem pensar nas razões e porquês das coisas e da existência:  “o luar através dos altos ramos,/ dizem os poetas todos que ele é mais/ que o luar através dos altos ramos./ mas para mim, que não sei o que penso,/ o que o luar através dos altos ramos/ é, além de ser/ o luar através dos altos ramos,/ é não ser mais/ que o luar através dos altos ramos.”

Minha relação com os corpos siderais era de instinto, natural. E eu tinha, sem refletir sobre isso, a certeza que eles estavam ali acima, me vigiando ou protegendo.

Quando vim para a Capital, esse sentimento me acompanhou. A natureza, a serra e o céu não eram escondidos pelos altos prédios de hoje e nem obscurecidos pelas luzes artificiais da metrópole. Fui crescendo e a cidade também. Assim como muitas vezes me vejo contemplando o que foi, o que fui, a vida por aqui hoje, pelo ritmo veloz, não nos permite fixar o olhar para cima, sob risco de sermos atropelados pelos carros e pelos acontecimentos. Só se olha para a frente e para os lados.

Eis que uma noite dessas, chego à janela do quarto e fico de frente a um espetáculo que há muito não via. Diante de mim, o movimento das nuvens faz com que a lua cheia, lentamente, apareça e, logo, se oculte. Esse nascer e imediato desaparecer lunar me comove. Fico ali, extasiado e, se ainda dessa vez, não procuro explicações para o que me é admirável, colho certezas e esperanças dessas visões.

Sei muito pouco desse universo celeste. Não sou especialista em constelações, aquelas de que ouço falar e leio nos livros: Cruzeiro do Sul, essa a minha, patrioticamente,  preferida; Grande Urso, Órion, Centauro, Sírio. Nem sei de adivinhações. Sou apenas um homem diante de uma brincadeira entre lua e nuvens.

Sonho de olhos abertos diante da lua, que se cobre e descobre, no espaço nublado. E sinto, verdadeiramente sinto, que tudo vai correr bem em meu território e no Brasil. Mesmo que alguém, que deveria liderar e unir, tenha feito tudo para partir o país ao meio. A vida segue.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas, em novembro de 2010.

Um comentário para “Já não se olha para o céu”

  1. Caro Fernando,
    daqui de longe, onde o c’eu me falta porque as ‘arvores s~ao muitas, compartilho do seu fasc’inio e agrade’co o seu momento de borbulho, essa urg^encia de botar pra fora o que a vis~ao da lua te trouxe, nos traz.Tamb’em vi muito o ceu aberto nos meus tempos de Sao Joao del -Rei, Prados e BH. Tudo vai estar bem, a lua gira, a lua volta. Abra’co grande de uma admiradora do Hemisf’erio Norte, Miryam Lucia (Milu)

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