Concerto para clarineta

Sempre que chove à noite como hoje aqui em Campinas, uma chuva mítica e de lentos espantos, lembro de Lars Bjenikold. Imagine uma pequena cidade perdida no litoral do Pará, onde a estação das águas provoca dias de umidade tão intensa que as gotas de vapor chegam a escorrer em nossa própria alma. Pois ali eu tinha uma casinha, franciscana e simpática, há tempos.

Por que não em Ubatuba ou Ilhabela?, hão de perguntar os mais afoitos, uma vez que moro em São Paulo. Respondo: é que naquele pedaço da Amazônia, ao contrário dos invernos chuvosos, os verões são de uma luminosidade estonteante e o céu, escandalosamente azul, só é de vez em quando fendido pelos enormes flocos (de algodão) de nuvens alvíssimas. E a abóbada noturna se apresenta crivada de tantas estrelas e é tão clara que, em certas ocasiões, a silhueta da Via Láctea se desenha. Foi o que Olavo Bilac deve ter visto, em algum outro lugar, quando escreveu o seu famoso soneto. Aquele do ora, direis, ouvir estrelas etc. etc.

Sim, mas eu dizia que era inverno, a estação das águas, e saí, uma noite, munido de exíguo guarda-chuvas, em busca da birosca de um cara conhecido como Ceará, no fim da remota praia do Maçarico, para curtir uma sopinha de caranguejos, que a mulher do bom homem preparava com engenho e arte. Ao me aproximar, no deserto não só de pessoas, mas, até, de fantasmas, escutei, vindo da biboca, o Concerto para Clarineta, de Mozart. Está claro que parei, espantado.

Assim é que conheci Lars Bjenikold, o ornitólogo dinamarquês. Ele havia chegado ao litoral alguns dias antes de mim e, à noitinha, ia para a barraca do Ceará, sempre deserta então, comer peixe lendo um livro posto ao lado do prato. De quebra levava uma fita com o Concerto que eu ouvira, e que pedia pro barraqueiro colocar no sonzinho capenga, porém suficiente.

O gringo se encontrava na região fazendo pesquisa sobre certo pássaro, porém não um pássaro qualquer. Buscava, para fotografar e gravar o canto, um tipo de sabiá que só existia nos mangues daquela área, ou alguns outros que se estenderiam até o litoral do Maranhão. Na terceira noite de papo, em que nos entendíamos através de um inglês e um portunhol medonhos, o cientista me convidou:

– Venha conosco, já localizamos o passarinho.

O “conosco”, constatei no dia seguinte, era Ingrid, a esposa sueca de Lars. Loura, lindíssima, corpo de negra calipígia, acumulava as funções de fotógrafa. Incorporei-me ao duo como uma espécie de ajudante para carregar tralhas. Com o casal passei a me enfiar nos mangues e caminhos tortuosos, em certas manhãs tão derretidas sob chuvas que acabei perguntando a Lars qual a razão de não ter optado pelo verão, a estação mais seca.

– É que no inverno – explicou – os sabiás se tornam mais visíveis. Acasalam então, e praticamente só nesta época cantam.

Quando Lars e Ingrid partiram, após quase um mês de convivência comigo, senti falta deles. Principalmente dos papos que tinham se tornado a três na birosca do Ceará. Voltei para Campinas antes da data que marcara.

Mas foi no verão amazônico, seis meses depois, que, ao chegar à minha casinha no então ainda poupado litoral, recebi, do caseiro, um pacote. Ao verificar, pelos selos, que vinha de Estocolmo, abri com avidez. Dei então de cara com um belo livro, publicado anos antes por Lars Bjenilkold sob o patrocínio da Real Academia da Dinamarca, intitulado Pássaros da Nicarágua. Que ficou comigo durante algum tempo, porém, ao final, teve melhor destino: o doei à bela professora campineira Raquel de Almeida Prado que, na época, organizava, junto com o falecido escritor Darcy Ribeiro (ele se apaixonou pela obra de Lars), a Biblioteca do recém inaugurado Memorial da América Latina, em São Paulo.

Ah, sim, algum volume sobre os tais sabiás que ajudei a procurar naquela parte do litoral atlântico do Pará, nunca recebi. Contudo, junto com o que chegou no verão tão especial, encontrei também um pacotinho com uma fita cassete e um bilhete de Ingrid. Era o “Concerto para Clarineta”, de Mozart. Que escutava ainda há pouco, nesta noite de chuva e um razoável frio ao qual caberia, até, uma lareira. Fundo musical para as boas lembranças do nunca mais.

Esta crônica foi originalmente publicada no Correio Popular

4 Comentários para “Concerto para clarineta”

  1. Que bela crônica, vc não mais teve contato com eles? quem sabe pela internet ?

  2. Os acontecimentos narrados ocorreram nos anos 80, faz um bocado de tempo. Depois que pintou a Internet tentei descobrir o casal, porém não achei nada. Talvez tenha anotado o nome do gringo com alguma letra a mais ou a menos. No livro que recebi estava, claro, correto, porém o volume foi doado ao falecido antropólogo Darcy Ribeiro. Mas fiz os cálculos e imagino que Lars possa ter morrido. Pois de 1980 para cá são 30 anos. Na época em que esteve em Salinas rondava pelos 65, mais ou menos. Mesmo para os nórdicos 95 é uma idade difícil de alcançar.
    Antonio Contente

  3. “é que naquele pedaço da Amazônia, ao contrário dos invernos chuvosos, os verões são de uma luminosidade estonteante e o céu, escandalosamente azul, só é de vez em quando fendido pelos enormes flocos (de algodão) de nuvens alvíssimas. E a abóbada noturna se apresenta crivada de tantas estrelas e é tão clara que, em certas ocasiões, a silhueta da Via Láctea se desenha.”

    Obrigado por narrar a verdade, Antônio.

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