Carregando a vida

Talvez ela seja uma das personagens mais conhecidas por quem passa – a pé – pela Rua Augusta e suas vizinhanças.

Magra, miúda, cabelos desgrenhados, roupas simples – nem muito limpas, nem muito sujas – colchão de espuma cuidadosamente enrolado, amarrado e jogado às costas, sacolas sem fim, ela desfila pela região todos os dias, “mal rompe a manhã”.

De onde veio, não se sabe. Pra onde vai, não há quem não saiba.

Não há quem não saiba que ela vai subir ladeiras, descer, cruzar ruas, olhar vitrines, subir, descer.

Parar, de vez em quando – dúvidas, lembranças? –, olhar pros lados, mexer em bolsos, sacolas. Cigarro, fósforos.

Encostar na parede de uma loja qualquer, acender, aspirar, tragar, enfumaçar.

Olhar as pessoas, ser olhada. Observar. Ser observada.

Seu tom de voz não conhece meios termos. Ou é manso e suave, quando conversa sozinha ou com os desconhecidos conhecidos da rua, ou vira um berro estridente e ensurdecedor, quando vira bicho.

Se a chamarem pelo nome que afirma ser o seu – Toninha –, ela é mansa, suave. Toma café, compra revistas, aceita pequenas gentilezas.

Vira bicho se a chamam de Maria. Ou dona Maria, tanto faz.

Se gritam, provocadoramente – Maria! – vermelha, roxa, ardente de raiva, ela sapateia, grita, ameaça, enfrenta.

Acompanhados de gestos rápidos – dedo em riste, mãos fechadas, punhos levantados – os gritos, estridentes e ensurdecedores, podem durar uma, duas, muitas quadras. Fundo musical dedicado aos passantes, habituados.

Toninha vive na rua e da rua. Não de esmolas, que não pede, nem aceita.

Doações, sim, aceita de bom grado, como diz. E negocia.

Não há brechó na Augusta que não espere por suas sacolas, repletas das freqüentes doações que recebe e jamais usa. Roupas, sapatos, bijuterias, pequenos objetos, enfeites.

Negociações terminadas, dinheiro no bolso, nas sacolas, ela vai cuidar da vida.

Na livraria em que trabalha meu amigo Edilton, uma das esquinas da Augusta, ela compra revistas. Revista. Uma só, sempre. Sempre de turismo.

— Ela fica muito tempo olhando as fotos, ele diz.

Ele diz que, feito o pagamento, voz mansa, ela agradece, sai da loja e, encostada na parede, enfumaça o mundo lentamente, sem pressa. E viaja. Ora nas gôndolas de Veneza, ora debaixo da Torre Eiffel, ora sobre o Viaduto do Chá.

Época de Natal, paz, perdão e panetones, meu amigo tinha vários na livraria. Perguntou se ela queria um. Queria.

— Você vai comer com quê? Café?

— Coca-Cola.

— Coca-Cola?

— De dois litros.

-— A mais cara?

— Junto dinheiro. Se não dá, espero. Mas Coca pequenininha, isso não, não compro. Acaba depressa.

A lenda que corre na Rua Augusta cheia de lendas é a de que Toninha já foi rica, família importante. Apaixonada, casou-se. Traída, não quis mais saber. De nada, de ninguém.

Foi pra rua, carregar sua casa. Com amor e ódio, amor ou ódio. Tanto faz.

Tanto faz que a vejam aqui, ali.

Costumo vê-la, à noite, nove horas, um pouco mais, quando volto pra casa.

Na Alameda Franca, bem no meio da quadra, entre a Augusta e a Padre João Manuel, ela troca de roupa, toma banho. De desodorante.

Costumo vê-la. Passado o susto da primeira vez, me acostumei. Completamente sem roupa, pensando apenas em seguir carregando a casa e a vida, ela nunca me olhou, nem vai olhar. Talvez saiba que jamais a chamarei de Maria. Ou de dona Maria, tanto faz.

Esta crônica foi originalmente publicada no primeiroprograma.

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