A Guerra e a Paz de Portinari

Meu primeiro contato com sua obra foi na Igrejinha da Pampulha. Seu São Francisco cercado de bichos, entre eles um cachorro, o que acendeu a ira e intolerância de Dom Cabral, bispo metropolitano de Belo Horizonte, que proibiu por muitos anos que ela fosse utilizada como templo religioso.

Eu fiquei foi maravilhado, como muitos ficam até hoje. Depois, ele morto, me encantei com os versos de Drummond, “A mão”: “e voa para nunca-mais a mão infinita a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari”.

Na sala da casa de meus pais, uma gravura reproduzindo meninos jogando bola em Brodósqui, acompanhou as brincadeiras e refeições da filharada e dos netos. E quando fui trabalhar, acabei me deparando com os belos quadros que cobriam as paredes da sala principal da revista O Cruzeiro, no Rio de Janeiro. E com os que continuam embelezando o edifício Gustavo Capanema, obra inovadora da arquitetura moderna brasileira.

Portinari viveu pouco mais de 59 anos e, nesse pouco tempo, traçou um extraordinário panorama do povo brasileiro: os músicos, os trabalhadores no campo, a infância pobre do interior com seus jogos, a cidadezinha, a gente simples, as mulheres, as noivas de branco, os santos, os nordestinos morrendo de fome e seca, os pescadores, suas velas e arrastões. “Sabe por que eu pinto menina e menino em gangorra e balanço? Para botá-los no ar feito anjo”, disse ele certa vez.

Proibido de continuar pintando, atacado gravemente pelo veneno das tintas de então, foi convidado a criar uma obra grandiosa, que seria o presente do Brasil para a sede das Nações Unidas. Diante do desafio e da possibilidade de realizar uma obra monumental, que fosse síntese do que ele era, pensava e criava, Candinho, como era conhecido pelos amigos, escolheu arriscar a vida em nome de sua arte. Durante quatro anos, dos esboços iniciais até a finalização, trabalhou com amor e genialidade. Exposta por uns dias no Teatro Municipal do Rio, foi inaugurada, na ONU, em 6 de setembro de 1957, sem a presença do autor, impedido pelo governo americano de entrar naquele país.

Graças a João Cândido Portinari, filho do mestre, e à Fundação Portinari, as obras-primas voltam agora ao Brasil, por três anos, para que os brasileiros as conheçam. Para a festa da volta, realizada no Teatro Municipal, eu escrevi essa letra para que Milton Nascimento musicasse:

A Guerra e a Paz de Portinari

“A guerra é uma cavalgada

cruzando o azul da paisagem

cortejo de fome e de morte

ferindo o coração dos homens.

A mulher velando o filho morto

a mulher e a criança chorando

a mãe e a filha em desespero

de cabeças rolando na grama.

A guerra são os quatro cavalos

regendo a sinfonia de dores

são os braços erguidos em prece

pedindo o final dos horrores.

A paz é um coro de meninos

é a voz eterna da infância

as mulheres dançando na roça

os meninos pulando carniça.

É a noiva de branco sorrindo

na garupa de um cavalo branco

a mulher carrega um carneiro

crianças no espaço balançam.

A paz está nos meninos

que brincam nos campos da infância

nos homens, nas mulheres cantando

a harmonia, a esperança.”

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

3 Comentários para “A Guerra e a Paz de Portinari”

  1. Querido Fernando,
    Que alegria ler a sua crônica!
    E reler, sob nova emoção — cada vez que a leio, surgem novos significados, novos encantamentos —, a belíssima letra que você nos deu a honra de dedicar a Guerra e Paz…
    Com o abração muito grato e fraterno do seu
    João Candido

  2. João Cândido: a crônica foi escrita antes daquela inesquecível noite de 21
    de dezembro, no Teatro Municipal. Depois de ver de perto as duas monumentais
    obras-primas de Portinari, eu me arrepiei todo, comovido como o diabo, assim diria
    Drummond. Eu teria que buscar palavras mais belas para descrever minha emoção.
    Obrigado por dar aos brasileiros a oportunidade de conhecer melhor a obra de gênio de seu pai.
    Tenho imenso orgulho de ser conterrâneo dele. E seu.
    Um grande abraço.
    Fernando Brant

  3. Texto sublime tão emocionante quanto a imagem de guerra e paz PARABENS OBRIGADA!

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