A revolução sardinista

Nessa eu embarco com força, vontade e apetite. Não confundir com o que ocorreu na Nicarágua há alguns anos, tempos quentes da guerra fria. Estou me referindo à sardinha, o peixe mais democrático e barato que existe. E o melhor, na minha opinião. Lembro-me das sextas-feiras de minha infância, dia de feira livre no meio da rua perto de casa. Eu era fascinado também com as mexericas, as ameixas, maçãzinhas, peras nacionais e marmelo. Vem desse tempo, talvez, meu namoro com as bananas, principalmente a prata.

Mas o dia era delas. Na hora do almoço, limpas, as sardinhas eram cobertas com farinha ou fubá e fritas aos montes. Inesquecíveis almoços sardinianos, que repito até os dias atuais da maturidade. Gosto muito de peixe, seja de mar ou de rio, mas igual a elas não há.

Hoje, quando me delicio com os quilos que compro, chamo amigos e abasteço a geladeira de cervejas. O líquido faz a vez do arroz, providencio uma salada de verduras cruas e me entrego a elas por todo o começo da tarde. Amigos, sardinha e cerveja são uma mistura que só traz felicidade.

Lembrei-me disso ao ler sobre um movimento mundial de valorização do pequeno peixe miraculoso. Campeão para a saúde e o paladar. Há uma onda de prestígio desse pescado, que parece não interessar ao nosso Ministério, veja, só, da Pesca. Não custaria nada, e seria bom para os brasileiros, que se fizessem campanhas de incentivo ao consumo de sardinhas. Alimento que existe por muitos mares, em grande quantidade e que, pelo baixo preço, todos podem comer. Sardinha: fome zero e sabor mil.

E a revolução espalha o valor e a qualidade dessa jóia dos mares, que pode ser frita, cozida ou assada. E estão aprimorando, ó maravilha, a maneira de as conservar e embalar. Nos momentos de aperto, banana e sardinha em lata são imbatíveis.

De falar nelas, chega-me o cheiro maravilhoso que se sente ao se caminhar pelas ruas da Alfama, em Lisboa. Ou, por todos os cantos da cidade, se é dia de Santo Antônio. Ou na Praça da Sardinha, no centro do Rio de Janeiro.

Pescador de lambaris, outro acompanhante inseparável das cervejas e dos vinhos, me filio com orgulho e ardor a essa revolução meritória que, aos poucos, vai se espalhando pelo mundo e conquistando os sentidos. Quem for da sardinha que me acompanhe. Sardinheiros do mundo, uni-vos.

Eu, que não sou “Maria vai com as outras”, procuro afinar meu gosto e meu pensamento, no mínimo para justificar o esforço de meus pais em me educar. Por isso tenho pouca disposição de seguir a boiada, aceitar a impostura, a falsidade ou seguir o rumo imposto pela publicidade, o marketing e a cultura de massa. Mas quando se trata de sardinha, eu sou é do popular.

Esta crônica foi originalmente publicada no Estado de Minas

Um comentário para “A revolução sardinista”

  1. Delícia de artigo! Assino embaixo, feliz da vida. E vivam as sardinhas e lambaris da vida inteira! Ou morram – pela nossa boca…

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