Um texto sobre Ivan Lins de 1981. E um mea culpa hoje

Ivan Lins andou melhorando bastante, ao longo destes dez anos de carreira profissional. (Este texto foi escrito em 1981.)

Essa constatação é inevitável, ao se ouvirem os dois LPs do compositor lançados simultaneamente, nas últimas semanas, pela PolyGram: A Voz de Ivan Lins e Daquilo que eu sei. A Voz… é uma coletânea, que reúne faixas dos três primeiros LPs gravados por Ivan, na então Phonogram, em 1971, 72 e 73, e hoje fora de catálogo. Daquilo que eu sei marca a volta de Ivan à sua primeira gravadora, depois de uma passagem pela RCA e pela EMI-Odeon: mais que isso, este que é seu décimo LP marca os dez anos de carreira profissional – comemorados também, no início do mês, com o show do mesmo nome, no Tuca.

E Daquilo que eu sei mostra que, sem sombra de dúvida, Ivan Lins melhorou bastante, desde o comecinho dos anos 70.

Também, pior do que ele era é impossível.

Era tudo ruim, no Ivan Lins daquele começo de carreira. As melodias eram chatas, bobocas, monótonas, insistindo em um ritmo acelerado, meio dançante, necessário para manter atenta a platéia do programa “Som Livre Exportação”, da Rede Globo, de que Ivan era o principal astro. Os arranjos eram sem brilho, sem imaginação, repetitivos, quando não simplesmente atordoantes. As letras ou eram apenas imbecis, ou então tinham trechos incompreensíveis. Basta lembrar Madalena, seguramente uma das coisas mais chatas da história da música popular brasileira. E havia ainda a voz. Ivan Lins, que sempre reconheceu não ser um cantor, fazia um esforço supremo para cantar com a voz dos crioulos americanos do soul. Saía uma coisa horrorosa, falsa – a voz em falsete, pretensamente rouca mas sequer isso.

Fazia sucesso. Incrível, mas fazia.

Em 1974, Ivan Lins abandonou a voz falsa, passou a cantar com sua própria voz. Não é maravilhosa, não é lá muito poderosa, não possui um timbre extremamente agradável. Mas é muito, mas muito melhor que a outra; é real, possui emoção e não tem os antigos maneirismos. Também em 1974, o compositor passou a trabalhar em parceria com Vitor Martins, um letrista de inegável competência. Cercou-se de músicos melhores.

O resultado é que, de lá para cá, ao lado de Vitor Martins, Ivan Lins já produziu algumas músicas belíssimas, como, para citar só algumas, “Começar de novo”, “Saindo de mim”, “Cartomante”, “Aos nossos filhos”.

É este Ivan Lins mais amadurecido, e bem acompanhado, que está no décimo LP da carreira. Não é um disco desagradável. Tem bons momentos, como a faixa “Amor”, em que Ivan canta junto com sua mulher, a loura Lucinha de voz suave que o Maracanãzinho inteiro vaiou; ou como “Quem me dera”, melodia gostosa e fácil, embora meio repetitiva dentro da carreira do compositor; ou ainda como a música que dá título ao LP, “Daquilo que eu sei”, boa letra de Vitor Martins.

Mas nenhuma das dez músicas do disco (todas de Ivan Lins, nove em parceria com Vitor Martins, uma, instrumental, em parceria com o tecladista e diretor musical Gilson Peranzzetta) é bonita ou marcante como suas melhores obras. Algumas são francamente dispensáveis, monótonas, repetitivas, como “Canavial” e “Lembrança”. Assim, se o LP de 1981 é muito melhor que os do começo da carreira, não chega a ser melhor que o penúltimo, ou o antepenúltimo. Uma pena.

Um mea culpa, quase 30 anos depois

O texto acima foi publicado no Jornal da Tarde em 11 de outubro de 1981.

Não faria, hoje, um texto assim. É pretensioso, cheio de certezas, meramente opinativo, sem informações, pouco embasado. Frívolo.

Publico neste site porque estou reunindo nele os textos que escrevi na vida, vários deles no período em que fiz resenhas sobre música popular brasileira no Jornal da Tarde. Mesmo os ruins.

É verdade que Ivan Lins foi melhorando muito, ao longo da carreira – como compositor, como instrumentista e como cantor. É verdade que algumas de suas primeiras composições são fracas. Mas o tom todo do texto é menos respeitoso do que o artista merecia já na época em que foi escrito.

E isso hoje é ainda muito mais grave.

Acho Ivan Lins um dos maiores músicos brasileiros – e um dos mais injustiçados e menosprezados. Conheço muita gente que não ouviu direito o que Ivan compôs, ao longo de todos estes anos, apenas se lembra vagamente de algumas coisas do começo da carreira dele, e afirma com segurança que ele é um horror.

Besteira pura.

Depois de ter feito várias canções na época do combate à ditadura que viraram históricas, na voz de Elis Regina, e outras belíssimas canções de amor – como algumas das citadas no texto acima –, Ivan se firmou como um compositor de melodias elaboradas, delicadas, de imensa riqueza harmônica, algumas delas do nível das melhores obras de Edu Lobo, talvez o compositor mais completo, mais requintado da MPB pós Tom Jobim – como, aliás, dizia o próprio maestro.

Não é à toa que Ivan Lins é respeitadíssimo por um bando de grandes nomes do jazz e do pop mais elaborado feito nos Estados Unidos, como comprova, por exemplo, o disco A Love Affair – The Music of Ivan Lins, em que 11 canções do compositor são cantadas por Dianne Reeves, Sting, Vanessa Williams, Grover Washington Jr., Brenda Russell, Fred Cole.

A gravação de Jane Monheit em dueto com Ivan da canção Rio de Maio, feita para o disco de 2007 da cantora, por exemplo, é de babar.

De um inusitado encontro, em 1983, com o excepcional compositor português Sérgio Godinho, saiu uma obra de arte, uma canção especialmente bela, “O que há-de ser de nós”, cantada em dueto bilíngüe, português e brasileiro, por afiadíssimos Ivan e Godinho.

 Além de toda a obra vasta, importantíssima e muito menos conhecida do que deveria como compositor, Ivan teve também um importante papel como produtor, com sua gravadora Velas, que lançou um bando de ótimos discos que as grandes multinacionais não teriam interesse em fazer.

Os dois volumes do Tributo a Noel Rosa que Ivan organizou em 1997 são dos melhores dedicados a recriar pérolas do grande mestre. Ivan juntou ali 35 canções de Noel, diversas delas garimpadas entre as menos conhecidas da obra magistral do compositor de Vila Isabel, em arranjos finíssimos, e com participações especiais de cantores e instrumentistas do primeiro time, de Chico Buarque a Caetano Veloso, do Nó em Pingo d’Água a Época de Ouro, de Leila Pinheiro a Boca Livre, de Fátima Guedes a Nelson Sargento.

Em suma: é preciso tirar o chapéu para Ivan Lins.

Setembro de 2010

3 Comentários para “Um texto sobre Ivan Lins de 1981. E um mea culpa hoje”

  1. Reconhecer um erro e fazê-lo publicamente é digno dos espíritos mais honestos e dos melhores caracteres que se podem encontrar neste mundo. Parabéns! Todavia, como músico profissional – em fim de carreira – posso dizer que o texto de 1981 não é totalmente falso como possa parecer. A música e a voz de Ivan Lins melhoraram bastante após sua primeira década de profissionalismo e, sem dúvida, isso se deve não apenas à parceria com Vítor Martins, como também devido à qualidade dos arranjos de Gilson Peranzzetta. Isso é inegável.

    Não sei até que ponto as harmonias originais do Ivan Lins permanecem nos arranjos de Peranzzetta, mas em todo o caso, a beleza melódica de suas canções se prestam aos belos encadeamentos harmônicos que as acompanham. Observando os shows e vídeos, posso dizer que o piano de Ivan Lins é básico, para não dizer mais. Porém as melodias de muitas de suas baladas impressionaram (e impressionam sempre) os ouvidos mais exigentes quando elas estão dentro de arranjos de Peranzzetta e de suas harmonizações, isso é audível. “Velas Içadas”, “Começar de Novo”, “Luas de Pequim” e “Setembro” são apenas exemplos dentre muitos outros.

    No que toca essa última canção, uma das mais belas que já foram escritas até hoje, reconhecida por músicos internacionais do gabarito de um Quincy Jones e de uma Sarah Vaughan (que a gravou mesmo sem letra, apenas cantarolando, coisa jamais vista!), entre outros, eu só teria que fazer uma pequena confissão de músico que a tocou e a arranjou diversas vêzes: a letra “Amada” demoliu o que eu, mesmo que muito vagamente, poderia esperar de uma letra para uma tal obra-prima melódica. Não sei quem é o autor (se o Vítor Martins ou mesmo o Ivan), mas ela é pobre em suas construções, sem invenção de imagem e plena de lugares-comuns. Posso até entender que se trate de uma letra para uma história pessoal do autor, mas nem por isso devo deixar de dizer que uma melodia atemporalmente bela como “Setembro” merecia – e merece ainda! – uma letra que nos leve aos mesmos sublimes espaços da alma que a versão puramente instrumental da mesma.

    Saudações amicais, um abraço.

  2. Caro Maurício,
    Seu comentário me deixa extremamente honrado.
    É até emocionante ver que um texto que você escreveu em 1981 – e do qual em boa parte você até se arrependeu – mereça um comentário tão rico, tão informativo, vindo de um músico!
    Muitíssimo obrigado.
    Sérgio

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