Do forte ao sutil, na soma de Fagner

Os fanáticos com a arte irremediavelmente presa às raízes, os que não aceitam mistura ou evolução, as pessoas que acham que lugar de músico crioulo é (só) na quadra da escola de samba, ou na Marquês de Sapucaí, e que lugar de músico nordestino é (só) nos forrós, puxando xote e baião, esses devem passar bem ao largo de Traduzir-se, 8º LP de Raimundo Fagner.

O disco é, antes de mais nada, um canto de amor justamente à mistura, à mescla, à soma de elementos diversos, diferentes. À cooperação, ao intercâmbio de culturas, tradições, sonoridades de origens variadas. Tem Brasil, tem Nordeste, tem a Espanha dos ciganos, da influência moura, da música flamenca. Tem um toque de Argentina e uma pitada da Cuba de hoje. Tem a sutileza requintada de poetas como Federico Garcia Lorca e Rafael Alberti e a força apaixonada, solta, violenta e abertamente presunçosa de Raimundo Fagner. Tudo misturado.

Os puristas, que esconjurem e passem ao largo. Os que exigem da música popular qualidade, em vez de pureza, certamente terão motivos de sobra para ficar satisfeitos.

Fagner, quer se queira ou não, virou um fenômeno, um astro, nestes dez anos de carreira. O músico que vendia escassas 5 mil cópias de seu LP de estréia, em 1973, hoje conquistou multidões e horários nobres. Porque conseguiu isso, Fagner pode-se dar ao luxo de contar com todo o respaldo de sua gravadora para a superprodução que é este novo LP, um disco cheio de estrelas, como a argentina Mercedes Sosa e os espanhóis Manzanita, Camaron de La Islã e Joan Manuel Serrat.

As estrelas são responsáveis por parte do brilho do LP. O dueto de Fagner e Mercedes Sosa na música “Años”, do cubano Pablo Milanês, por exemplo, é emocionante. E resultou belíssimo o encontro de vozes tão diferentes quanto as de Fagner – apaixonada, berrada a pleno pulmões – e de Joan Manuel Serrat – tradicional, contida, suave –, na faixa “La Saeta” (poema de Antônio Machado, música de Serrat).

Mas é fundamental, também, a participação dos músicos que acompanharam Fagner e as estrelas – nomes menos conhecidos, mas competentíssimos, como os nordestinos Manassés (viola, cavaquinho, violão) e Fernando Falcão (percussão), e como os espanhóis Henrique de Mechor (a incrível guitarra flamenca) e Osias (contrabaixo elétrico).

 É verdade que Fagner sempre teve bom gosto na escolha dos músicos que o acompanham. Alguns dos melhores músicos do Brasil já tocaram com ele: Egberto Gismonti, Naná Vasconcelos, Wagner Tiso, Hermeto Paschoal, Sivuca, Robertinho do Recife, para citar só alguns. Acontece que, neste LP, os músicos trabalham sobre um repertório excelente, talvez o melhor já reunido por Fagner em todos os seus discos.

 “Fanatismo”, a música que abre o LP, feita por Fagner sobre um poema da portuguesa Florbela Espanca, é talvez a mais brasileira do LP (é inclusive a única gravada no Brasil, só com músicos daqui – as demais foram gravadas em Madri). O poema – uma declaração de amor apaixonado, capaz de comparar a mulher a Deus – é um interessante contraponto à segunda faixa, “Años”, em que Pablo Milanés descreve, com uma tristeza sutil, os efeitos do passar do tempo sobre uma relação de amor.

A fascinante mistura de Nordeste e Andaluzia, através das raízes brasileiras e árabes de Fagner, chega na terceira faixa, “Verde”, música de José Ortega Heredia sobre um trecho do “Romance Sonâmbulo”, de Lorca. O cavaquinho de Manassés se justapõe ao violão espanhol de Manzanita; os versos originais de Lorca se misturam à tradução que Fagner despudoradamente fez. Mas é em “Trianera”, música de Fagner, letra (em descarado portunhol) do também cearense Fausto Nilo, que a mistura se põe ainda mais clara, e um coro cigano feito por duas espanholas se mistura à voz propositadamente taquara rachada do compositor brasileiro. O coro lembra o som dos cânticos religiosos do Oriente Médio, Fagner faz lembrar os cantadores roucos do sertão nordestino.

 Todo o segundo lado prossegue mesclando Brasil e Espanha. Mesmo nas duas faixas compostas apenas por brasileiros: “Flor de algodão” (Fagner-Manassés), uma espécie de pedido de trégua na velha rixa entre Fagner e Caetano Veloso, e “Traduzir-se”, música de Fagner sobre o poema de Ferreira Gullar, que fala justamente sobre a distância e a necessidade de aproximação entre as diferentes facetas de cada ser humano. Do nome “Traduzir-se” saiu o título do LP, uma inteligente sacada: a diferença entre o português e o espanhol, nesta palavra, está apenas na letra z, que lá é substituída pelo c. A distância entre Ceará e Andaluzia é mais curta do que imaginam os puristas.

 Este texto foi publicado no Jornal da Tarde em 3 de outubro de 1981

3 Comentários para “Do forte ao sutil, na soma de Fagner”

  1. Sérgio, pô!

    pra nós, fãs de Fagner desde o primeiro LP, é sempre bom voltar aos tempos de “Traduzir-se”. Valeu!

    Beijo

    Vivina.

  2. Fagner é muito versátil.Excelente musicador de poemas,e não fica preso a um só gênero musical,é dos mais criativos do Brasil!!!!!

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