Um Gonzaguinha cheio de energia, e fascinante

Coisa Mais Maior de Grande – Pessoa, nono LP de Luiz Gonzaga do Nascimento Junior em 13 anos de carreira, demonstra algumas verdades fascinantes. Por exemplo: demonstra que ele – há tão pouco tempo considerado compositor maldito, hoje na boca de vários dos mais importantes cantores do país; há tão pouco tempo um dos nomes mais visados pela censura, hoje capaz de aparecer em capa de Veja e em horário nobre na Rede Globo – não mudou. Se parece mudado, mudou o país, mudamos nós. Ele não. Ele evoluiu sem rupturas; ele prosseguiu e prossegue, sempre coerente com o que disse ou fez, na mesma trilha que traçou para si no começo de sua carreira.

Em 1975, por exemplo, ao lançar o seu terceiro LP, Plano de Vôo (e o próprio título já é por si só muito significativo), ele afirmou: “Plano de Vôo é o começo de um caminho para a alegria. Não alegria com as coisas que estão em volta. Minha alegria é poder me colocar cada vez mais por inteiro em meu trabalho”.

E Gonzaguinha foi seguindo seu plano de vôo, e colocando-se cada vez mais por inteiro na sua música, como disse em “Sangrando”, no LP de 1980, sucesso nas rádios na voz de Simone e também na voz dele: “Quando eu soltar a minha voz por favor entenda que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando, coração na boca, peito aberto”.

O caminho para a alegria que ele traçou há tanto tempo prossegue com Coisa Mais Maior de Grande. Como ele mesmo diz no texto da capa interna: “Este é o trabalho mais calmo que já fiz”.

E reafirma em uma das belas 19 músicas do disco, “Eu apenas queria que você soubesse”: “Eu apenas queria que você soubesse/Que aquela alegria ainda está comigo (…)/Eu apenas queria dizer/A todo mundo que me gosta/Que, hoje, eu me gosto muito mais/Porque me entendo muito mais também”.

         Riqueza

A coerência do artista é fascinante – e ela se exprime nas constantes citações que faz da sua própria obra, pequenos trechos de músicas antigas juntadas às mais recentes. Gonzaguinha sempre usou esse recurso como um meio a mais de demonstrar a continuidade de seu trabalho. E é sintomático que este Coisa Mais Maior… se inicie com uma citação – belissimamente interpretada por Alcione – da última música do LP Plano de Vôo, “Geraldinos e Arquibaldos”, uma canção em que o único acompanhamento são diversas vozes, e que, nos tempos mais sombrios de 1975, anunciava as intenções do compositor: “No campo do adversário é bem jogar com muita calma, procurando pela brecha pra poder ganhar”.

Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior certamente soube colocar em prática a lição desta música – como comprovam os seus cada vez maiores prestígio e popularidade. Mas não é só pela admirável coerência que este Coisa Mais Maior de Grande é um belo disco, dos melhores da música brasileira recente. Com este disco, ele prova que é, hoje, um artista maior, no auge da sua criatividade. Gonzaguinha tem estado nos discos de gente como Bethânia, Simone, Ângela Maria, Fafá de Belém, Vicente Barreto, Elis Regina, Gal Costa, Luiz Gonzaga – e ainda lhe sobra energia para apresentar não as 12 tradicionais, mas nada menos que 18 composições, em um único LP (a 19ª que há no disco é “Légua Tirana”, de seu pai e Humberto Teixeira). Dezoito, das  quais já haviam sido gravadas apenas duas (“Mergulho”, por Maria Bethânia e por Agnaldo Timóteo, e “Redescobrir”, por Elis Regina).

A riqueza do trabalho recente do compositor é tal que ele se desobriga a seguir as regras tradicionais dos discos de música popular – três, quatro, cinco minutos para cada canção, em geral repetindo uma ou até duas vezes todos os versos. Em Coisa Mais Maior de Grande, cada canção dura o tempo exato de que se necessita para apresentar ao ouvinte os versos e a melodia, sem repetições desnecessárias. Mais ainda: ele vai fundindo uma música à outra, sem a pausa tradicional entre as faixas. A rigor, não há faixas, no disco: ele é contínuo, com novos temas se superpondo aos anteriores, sendo superpostos em seguida por ainda outros.

O resultado é belíssimo e emocionante. O cantor Gonzaguinha, sempre competente, é capaz e dar a impressão de que se está ouvindo pela primeira vez uma música como “Redescobrir” – e conseguir tal façanha com uma música já gravada por Elis Regina é algo surpreendente. Mas ele às vezes sai de cena, para dar lugar a outras vozes, como os dos velhos Golden Boys, de Alcione, de Roberto Ribeiro – e, em um momento de grande emoção, às vozes de Luiz Gonzaga e Milton Nascimento, interpretando, sem necessidade de qualquer instrumento, a belíssima “Légua Tirana”.

Ele expressa e transmite, e muito bem, ao longo de todo o disco, os mais diversos sentimentos e posições. Estão lá o deboche, a alegria, a amargura, o amor, a saudade, a dor, a lucidez, a ironia, a consciência, a força, o otimismo. E, claro, está lá o Luiz Gonzaga Junior político de sempre, falando do fim do dinheiro, da água no leite, da violência das cidades, da “revolução” de 1964 (“Coitada daquela gente que acreditou, marchando, por minha família, pedindo a Deus. Vai ter que rezar novamente ao São Salvador, pois a redentora prece pariu Mateus. Mateus a muitos matou e manteve a dor”.) com humor, ironia, deboche, graça. E esperança: “Que traga a alegria o toque feliz deste sino e faça dançar nas ruas meu povo menino”.

E se hoje Luiz Gonzaga do Nascimento Junior pode cantar isso no horário nobre, via Embratel, em cores, não foi ele que mudou. Ainda bem.

Esta resenha foi publicada no Jornal da Tarde em 24/4/1981.

3 Comentários para “Um Gonzaguinha cheio de energia, e fascinante”

  1. Cantar,falar,prosear gonzaguinha,prá quem viveu a época e conhecedor de sua obra,fui privelegiado com seus shows,difunde e evidencia essência do ser comprometido com seu tempo,poeta popular da sua simplicidade nos legitima ser gonzaguinha dentro de nós.Atual,Fé na vida,Recomeçando sempre e abragente. Obrigado por fazer parte da minha história.

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