Que pena, Gal. Que beleza, Wanderléa

Gal Costa é uma artista esplendorosa, uma das maiores cantoras de todos os tempos deste país de tantas, tantas, tantas ótimas cantoras.

É uma das artistas que marcaram as vidas de uma geração inteira.

Gal é divina-maravilhosa.

O que fizeram com ela nesta live dos seus 75 anos idade, no sábado, 26 de setembro, foi um desrespeito.

Parecia o tempo todo que a diretora Laís Bodanzky queria aparecer mais do que a Gal.

Luz errada o tempo todo, câmaras inquietas, entortando a toda hora, marcação rígida não ensaiada, não explicada para a estrela da festa.

Sem contar os diversos problemas no som.

E a falta de sensibilidade total da direção de não dar uma parada para a Gal enxugar o suor do rosto.

Como definiu com brilho alguém no Twitter: o bom da live da Gal é que a gente não ouve com os olhos.

***

Fiz essas observações num post do Facebook, assim que a live acabou. O post chamou a atenção de muita gente. Um tempinho antes, quando a live – iniciada às 22 horas, horário nobre, como Gal merece – estava começando, eu já havia feito um primeiro post:

“Estranho: a Gal não está à vontade na live dos 75 anos… Parece um tanto nervosa… Como se não tivesse mais de 50 anos de estrada…”

Uns minutos depois, acrescentei:

“Opa! Melhorou! Tá mais à vontade! Gal maravilha!”

Esse primeiro post, feito quando a live estava ainda no início, também provocou muita reação.

É claro, é natural, é evidente que há todo tipo de opinião, nos comentários feitos sobre os dois posts. A imensa maioria, quase a totalidade, era de gente que admira Gal. Algumas pessoas falaram que a voz dela não é a mesma de antes. A maioria, de alguma maneira, concordou com minhas críticas à forma com que a live foi feita.

***

Mary achou que eu iria querer escrever um texto sobre a live – e era bastante natural que ela pensasse isso. Desde que me aposentei – após passar uns 35 anos basicamente mexendo nos textos dos outros, numa carreira de copydesk a subeditor, editor, editor executivo, redator-chefe -, passei a escrever sobre tudo, o tempo todo. Como se estivesse me vingando dos 35 anos em que eu mesmo pude escrever pouco. “Tudo na sua vida agora vira texto, paiê”, sentenciou algum tempo depois que me aposentei a minha filha, acostumada que é, por profissão, a sentenciar.

Respondi para a Mary que desta vez não eu não iria escrever nada, não. O que tinha a dizer já havia dito nos posts do Facebook.

Mas hoje veio a live da Wanderléa. Menos de 24 horas depois da da Gal.

Botei no Facebook:

“Wanderléa faz uma live como se deve. Em casa. À vontade. Bem iluminada. Sem estouro no microfone. Sem diretor que quer aparecer mais que a estrela.”

A diferença entre as duas lives é tão incrível, tão chocante, tão gigantescamente amazônica, jupiteriana, que não dá para não fazer um texto aqui no meu site.

O que a live de Gal teve de horrorosa, de vergonhosa, de horripilante, por ser tão trabalhada, tão teoricamente caprichada, tão cheia de frescura, a de Wanderléa teve de simplicidade, de simpatia, de naturalidade.

Enquanto havia marcações rígidas para Gal seguir no amplo espaço da Casa de Francisca – o belo prédio no Centro Velho de São Paulo, a poucos metros da Praça da Sé, transformado em local de shows –, enquanto Gal era obrigada a caminhar de um lado para outro seguindo as determinações da diretora, às quais ela não havia sido muito bem apresentada previamente, Wanderléa estava em sua casa, perto de uma poltrona na qual podia se sentar quando quisesse, quando estivesse a fim.

Enquanto Gal ficava em locais sombrios, tetricamentre sombrios, e enfumaçados. Wanderléa estava absolutamente iluminada.

Enquanto Gal era mostrada por cinco diferentes câmaras, que estavam sempre em movimento – e várias delas entortavam-se desnecessariamente, e em alguns momentos mostravam o chão, ou coisa absolutamente alguma, por evidente imperícia de quem as segurava, Wanderléa estava diante de uma única câmara fixa, calma, tranquila.

A diretora Laís Bodanzky elogiou, na live da Gal, o fato de ela estar com cinco câmaras operadas por mulheres.

Euzinho prefiro mérito às cotas. Não me importo com o gênero, a cor da pele, a religião de quem opera as câmaras: me importo com a qualidade do trabalho, sejam os operadores machos, fêmeas, bi, tri, gays, lésbicas, trans ou qualquer uma das demais letras do alfabeto, brancos, negros, vermelhos, verdes, o que for. E parece que muita gente que comentou meus posts no Face também achou sacal o trabalho das moças das cinco câmaras da Laís.

Em um dos comentários no Face, Betty Vidigal levantou um ponto que merece muita consideração: “Detesto direção que a gente percebe. Como a de ‘Coringa’. Direção boa é imperceptível.”

“Direção boa é imperceptível.”

É uma tese, e é uma tese importante. Já li muita gente boa dizer que boa trilha sonora é a que o espectador mal percebe. Mas isso se refere a filme, não a show – e, quando se trata de cinema, não concordo muito com a tese. É bom que o diretor de um filme se mostre, eu acho. Não demais da conta, mas um tanto – mas o fato é que filme é filme, show é show.

E, quanto a show, acho que a tese da Betty Vidigal é perfeita: direção boa é imperceptível.

Não sei quem do Sesc dirigiu a live da Wanderléa – mas o fato é que ele/ela fez um excelente trabalho. Não apareceu – quem apareceu, quem ocupou a cena foi ela, a estrela, a cantora, Wanderléa.

Laís Bodanzky, bem ao contrário, apareceu em cada minuto da live da Gal – e por isso estragou o show. Fez a gente – nós, fãs da Gal – ficar com vergonha daquilo.

Laís é uma das grandes diretoras em atuação no cinema brasileiro. Tem um bando de filmes importantes em sua filmografia – Bicho de Sete Cabeças (2000), Chega de Saudade (2007), As Melhores Coisas do Mundo (2010), Como Nossos Pais (2017).

Ao dirigir a live dos 75 anos da Gal, errou. Errou completamente. Quis demonstrar que é brilhante, inteligente, diferenciada, sensacional. Abafou uma das maiores artistas do país. Fez Gal passar vergonha.

***

Algumas pessoas que comentaram meus posts sobre a live da Gal disseram que pararam de ver, de tão ruim que estavam achando aquilo.

Pois elas perderam o que a live, na minha opinião, e também na da Mary, teve de melhor: o bis, e a circunstância em que o bis foi apresentado.

Depois que Gal, com um profissionalismo perfeito, impecável, terminou sua apresentação, com “Você não entende nada”, que Caetano compôs no comecinho dos anos 70, lá já se vão 50 anos, Laís informou a Gal – tudo ao vivo – que a TNT estava feliz da vida, que a audiência havia sido um recorde, e que ela poderia fazer quantos bis quisesse.

Ao longo da live, várias vezes Gal estranhou que não estivesse havendo edição, montagem – que tudo estivesse sendo transmitido rigorosamente ao vivo,.

Ninguém havia dito a Gal Costa que poderia haver um bis – e ela demonstrou isso, disse que não havia ensaiado uma outra música além das que já havia apresentado, ao longo de uma hora e meia de show ao vivo.

Chegou a dizer que talvez pudesse repetir uma das músicas já apresentadas.

Um dos instrumentistas falou em “Festa do interior” – e então Gal Costa, uma profissional que não está, de forma alguma, acostumada a apresentar uma canção que não ensaiou, enfrentou a saia justa. Mandou brasa no frevo trava-língua de Moraes Moreira e Abel Silva.

E foi divina-maravilhosa.

***

Evidentemente, obviamente, não se está aqui, hora alguma, fazendo qualquer tipo de comparação entre as cantoras Gal Costa e Wanderléa.

Não se trata disso, de forma alguma.

Até porque, como disse com brilho Geraldo Vandré no Maracanãzinho em 1968, “a vida não se resume a festivais”. A vida não tem a ver com ranking de os melhores.

Só quis comparar as duas lives, apresentadas uma após a outra, com uma diferença de 22 horas.

Impuseram a Gal uma live que acabou ficando monstruosamente pavorosa. Wanderléa fez uma live gostosa, solta, à vontade.

***

Já que escrevo demais, sem parar, gostaria de acrescentar umas observações sobre Wanderléa – e também sobre Gal.

Com a fantástica capacidade de percepção das coisas que tem, Mary comentou depois da live da Wanderléa que a gente nunca acompanhou a carreira dela, nunca a seguiu de perto: “Ficamos só com a imagem dela da Ternurinha da Jovem Guarda”.

É bem verdade.

E a expressão “a gente” aí não significa apenas ela e eu – significa nós todos, ela, eu, os amigos dela, os meus amigos, os amigos dos nossos amigos.

Mal e mal sei, da Wandeca, além da presença dela na Jovem Guarda, que nos anos 70 (ou seriam os 80?) ela gravou um disco sob as bênçãos do monstro Egberto Gismonti. Foi um gesto simbólico, claro, nítido, de Gismonti: ele quis demonstrar para os que se achavam bem-pensantes, descolados, inteligentes, inteligentsia, que Wanderléa era muito mais que a Ternurinha da Jovem Guarda, que tinha talento, luz própria. Também nos anos 70 (ou, de novo, já seriam os 80?), ela fez uma bela gravação de “Feito gente”, do mais maldito dos malditos compositores da MPB, Walter Franco – e deu ao álbum o nome da música.

Sim, sei disso. Sei também da gigantesca tragédia da vida pessoal dela, a perda de um filho em circunstâncias simplesmente inimagináveis, algo semelhante ao que aconteceu com Romy Schneider – e da relação firme, séria, que teve com um dos filhos do Chacrinha, que depois sofreu um acidente e ficou paraplégico.

E mais nada.

Na live de hoje, Wanderléa nos mostrou que erramos, nós todos. Deveríamos ter prestado mais atenção a ela, ao longo de todos estes anos.

***

Durante alguns poucos anos, na década de 80, escrevi sobre música brasileira no Jornal da Tarde. Não me lembro de ter sido chamado para escrever sobre algum show ou disco de Wanderléa. Sobre Gal, escrevi mais de uma vez.

Em 1982, fiz um texto sobre o relançamento de três discos do início de carreira dela que estavam fora de catálogo: “A Gal dos velhos tempos, ótima como sempre”.

Quando Gal fez a turnê em 1982 em que cantava aquela mesma “Festa do Interior”, o JT publicou minha crítica do show com o título ‘“Afinadíssima, versátil, alegre: Gal, a nossa superstar”.

Antes, em 1981, quando ela lançou o álbum Fantasia, fiz uma afirmação superlativa – e o Jornal da Tarde comprou: “Gal é a voz mais bonita da MPB”.

Minha admiração eterna por essa moça, quer dizer, essa senhora, pode explicar minha decepção com o trabalho que Laís Bodanzky fez para estragar a apresentação dela no dia dos seus 75 anos.

Os comentários no Facebook provam que não estou sozinho.

27 e 28/9/2020

2 Comentários para “Que pena, Gal. Que beleza, Wanderléa”

  1. Obrigada por seu texto. Preciso. Longo é verdade, mas justo com o tamanho da vergonha que nós fomos obrigados a viver. Essa senhora cineasta deve à Gal, e a seu público, um honesto pedido de desculpas .Errou feio. Imperdoável.
    O nervosismo de Gal , o desconforto transparecia
    superlativamente, dedos
    percorriam o microfone inquietos.
    Fiquei angustiada com tudo aquilo. Gal merecia um diretor artístico à sua altura.
    Ao fim, creio que sua doçura, salvou a memória que temos dela, da voz divina, maravilhosa. E seu profissionalismo, expandiu o descompasso ao mencionar, os poucos ensaios ,o que a diretora completou: dois ensaios!
    Foi um resultado triste , com um término digno.
    Gal está acima de toda essa vaidade e suposta ” competência”
    Gal é arte! Viva Gal!

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