“Do you ever read the books you burn?”

A pergunta é feita por uma das duas personagens interpretadas por Julie Christie, a musa, a deusa, ao protagonista da história, o bombeiro-queimador de livros feito por Oskar Werner, em seu segundo filme sob a batuta de François Truffaut, apenas quatro anos após Jules et Jim.

– “Do you ever read the books you burn?”

A frase é dita assim, em inglês. O inglês de Truffaut nunca foi lá especialmente bom, como se pode observar em Contatos Imediatos de Terceiro Grau, de Steven Spielberg, em que o extraordinário realizador faz o papel de um cientista francês que fala num inglês macarrônico. Mas Fahrenheit 451, de 1966, foi sua primeira produção em língua inglesa. Primeira e única, se não estou enganado.

Aqueles eram anos interessantes, em que geniais realizadores faziam duas travessias: do preto-e-branco para a cor e do Continente para as Ilhas Britânicas. Fahrenheit 451 não foi apenas a primeira (e única) produção britânica de Truffaut, mas também seu primeiro filme em cores. Exatamente no mesmo ano de 1966, o sorumbático, preto-e-branquíssimo Michelangelo Antonioni também faria seu primeiro filme em língua inglesa, no coração da Swingin’ London. Blow-Up tem mais cores que o arco-íris. Só as fotos que serão blow-upadas é que são em preto-e-branco.

Mas estou tergiversando. Queria falar da frase. Queria fazer um texto curto sobre a frase.

O problema é que não consigo deixar de tergiversar, e não consigo fazer textos curtos. Depois de 37 anos de jornalismo mexendo com os textos dos outros, agora que falam por mim mesmo os dedinhos não conseguem parar de apertar as teclas.

Mary estava me contando sobre um trabalho dela, um seminário que vai reunir na USP bambambãs do mundo editorial universitário.

E aí me vieram à cabeça cenas de Fahrenheit 451. A velhinha se queimando no meio dos livros que os bombeiros queimam.

E a frase da rebelde, subversiva personagem interpretada por Julie Christie.

Só mesmo o gênio de Truffaut para botar a mesma Julie Christie, a musa de absolutamente todos nós, que tínhamos entre 15 e 35 anos em 1966, para interpretar ao mesmo tempo Linda, a mulher zumbizona do bombeiro Montag, e a rebelde, guerrilheira, subversiva Clarisse.

É de Clarisse, claro, a pergunta a Montag: – “Do you ever read the books you burn?”

Tenho paixão incontida pela última flor do Lácio, inculta e bela, mas há muita coisa, o Aldo Rabelo e seu comunista e ultranacionalista ódio das demais línguas do planeta que me perdõem, que ficam mais sonoras, e cheias de significado, em inglês.

Não há tradução que faça jus à frase “Do you ever read the books your burn?”

O problema, acho, está no ever, que no inglês soa tão natural, e tão forte.

“Você alguma vez lê os livros que queima?”

Esse “alguma vez” soa falso. Pretensioso. Ninguém falaria assim em português. Nos livros, talvez. Na verdade dos fatos e das ruas, nunca.

Para exprimir o significado da frase original na linguagem cotidiana, teria que ser algo assim: “Mas, porra, cê nunca teve vontade de ler um dos livros que queima?”

É comprido. Palavroso.

“Do you ever read the books you burn?” é preciso, é exato, é forte. Curto.

Por causa dessa pergunta, Montag vai passar a ler os livros que antes apenas queimava.

É como se, em algum momento, no DOI-Codi, ou em qualquer prisão da Gestapo, ou da KGB, ou da CIA (todas as polícias políticas são iguais, não importa a posição delas no espectro ideológico), o torturador fosse instigado a pensar: e se o cara que estou torturando tiver razão?

O estopim da dúvida. A primeira chama que faz a pessoa duvidar de tudo o que até então era líquido e certo, axioma, dogma.

Não me lembro de ter visto esta frase entre as melhores que o cinema já falou. Mas ela é brilhante. Das mais brilhantes destes cento e tantos anos.

8 de outubro de 2012

Nuuuu… Gostei pacas desse texto. Se eu fosse muito metido (coisa que não sou), diria que esse texto parece de um aprendiz dos do Manuel S. Fonseca. Mas devo agradecer é ao pentelho do meu amigo Miltinho, que me torrou tanto o saco que resolvi fazer textos curtos sobre qualquer coisa que vem à mente, para que o 50 Anos de Textos não fique parecendo um blog político. 

 

5 Comentários

  1. Rafael
    Postado em 09/10/2012 às 4:00 am | Permalink

    Sérgio, belíssimo texto para uma belíssima frase.

    Abraço!

  2. miltinho
    Postado em 09/10/2012 às 7:17 pm | Permalink

    Sérgio Vaz não precisa agradecer é só obedecer. Você é dono do blog é pode editar qualquer coisa. Mas editar Jorge Teles, Mary, Brant. Manuel Fonseca ou simplesmente… você me deixa muito contente. O blog ao contrário do que você pensa é totalmente político. Adoro sua adoração ao FHC não suporto es extensos textos reacionários que s[o enchem a rama.

    Seu texto de lembrou um caso ocorrido nos porões da ditadura onde o carcereiro, verificando os documentos apreendidos junto com o militante político, saiu com esta: _”poxa, tenho que reconhecer que você é um militante muito organizado. Seus arquivos são
    perfeitos, em ordens alfabética e cronológica.”
    Um subversivo ter reconhecido, pelo próprio carcereiro, sua inegável organização pessoal é antes de hilária situação o reconhecimento de que os lados opostos possuem a ternura de que fala o “Che”.

    Resumindo: o blog pode ser político sem perder a ternura.

  3. José Luís
    Postado em 09/10/2012 às 7:23 pm | Permalink

    Uma maravilha este texto sobre uma frase de um filme também excepcional e que eu há vários anos quero rever.
    Tenho o livro que é também uma maravilha escrito por Ray Bradbury falecido recentemente.

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 09/10/2012 às 8:56 pm | Permalink

    Muitíssimo obrigado, meu caro José Luís!
    E você deu o devido crédito que eu não havia dado no meu texto ao autor do livro em que se baseia o filme de Truffaut, o grande Ray Bradbury! Obrigado também por isso!
    Um grande abraço!
    Sérgio

  5. Luiz Carlos Toledo P
    Postado em 16/08/2018 às 1:45 am | Permalink

    Bem,Sérgio, a verdade é que você não tergiversa, mas sim “Sergiversa” bem pra caramba. Esses rodeios em que você vai do sotaque do Truffaut, ao nacionalismo jeca do Aldo Rebelo e às cores do Blow-Up, são típicos de quem tem muita história pra contar, mil informações passando na cabeça enquanto escreve. Está bem acompanhado: no A Hora da Estrela, Clarice Lispector, o tempo todo, desdenha do próprio texto. Se auticritica por demorar demais a entrar direto no assunto, coisa que ela só vai fazer quase no meio do livro.
    Belo texto, como sempre.
    P.S: Mais um comentário sobre texto antigo, para deixar o Sérgio Vaz embatucado, se perguntando “do que é mesmo que esse cara está falando?”

Um Trackback

  1. […] Pois é. Na semana passada, a mesma semana em que troquei mensagens com a Thaís, recebi do meu amigo Luiz Carlos Toledo a seguinte mensagem, enviada como comentário sobre um texto que publiquei em outubro de 2012: […]

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