A vida tem excesso de imaginação

A rea­li­dade ins­pira a arte. Os exces­sos de rea­li­dade bloqueiam-na. Hoje, a impla­cá­vel rea­li­dade, uma equí­voca ban­deira, a baleia do desem­prego, cons­tran­gem a cri­a­ti­vi­dade. Livros e fil­mes nas­cem de peque­nas pin­ce­la­das de rea­li­dade, não de uma rea­li­dade cicló­nica que os afogue. Continue lendo “A vida tem excesso de imaginação”

Não existe esse troço de melhor filme de todos os tempos

Cidadão Kane é o melhor filme jamais feito. Durante meio século, essa verdade foi martelada na nossa cabeça. Recentemente, surgiu uma lista, vinda da Inglaterra, que subvertia essa verdade meio-secular: Um Corpo que Cai, sim, é o melhor filme que jamais foi feito. Continue lendo “Não existe esse troço de melhor filme de todos os tempos”

A luva branca

Usava luvas. E, filho de mãe de ori­gem fran­cesa, uma desi­lu­dida ben­gala aris­to­crá­tica. Escre­via tão bem como se ves­tia. Uma ele­gân­cia cép­tica em cada frase. Um ela­bo­rado ritmo des­cri­tivo que sugere acção e intriga onde acção e intriga quase não exis­tem. É pre­ciso talento. E com­bi­nar bem tumul­tu­o­sos subs­tan­ti­vos com dis­cre­tos adjectivos. Continue lendo “A luva branca”

Três balas e uma laranja

Enter­re­mos hoje os nos­sos sonhos como ontem Michael Cor­le­one enter­rou os dele. Foi no pri­meiro, o mais per­feito The God­father. Don Vito Cor­le­one já fora bale­ado antes. Ouvira-se o baru­lho seco dos tiros e o Padri­nho dan­çara hesi­tante, um pé a fugir ao outro, o vulto patri­ar­cal a tom­bar sobre uma banca da fruta e legu­mes. Duas, tal­vez três balas no corpo, e uma laranja a rolar no can­sado alcatrão. Continue lendo “Três balas e uma laranja”

“Do you ever read the books you burn?”

A pergunta é feita por uma das duas personagens interpretadas por Julie Christie, a musa, a deusa, ao protagonista da história, o bombeiro-queimador de livros feito por Oskar Werner, em seu segundo filme sob a batuta de François Truffaut, apenas quatro anos após Jules et Jim. Continue lendo ““Do you ever read the books you burn?””

Começa sem mim

Nenhuma janela é indis­creta. Há jane­las em todos os fil­mes de Hit­ch­cock, mas foi na janela das tra­sei­ras que ele fil­mou a sua melhor obra. A janela das tra­sei­ras dá para as tra­sei­ras do mundo e é pelas tra­sei­ras que o mundo se deixa filmar. Continue lendo “Começa sem mim”

O fim do mundo

O fim do mundo, sim. O começo do mundo, o big bang ou outra hipó­tese mais mítica, pouco me inte­res­sam. Mesmo a ideia de um paraíso cheio de maçãs, uma nudez sem his­tó­ria nem pecado, e uma ser­pente a insinuar-se em con­ver­sas melo­sas, não me farão levan­tar o rabo da cadeira. Continue lendo “O fim do mundo”

O chimpanzé da minha rua

Estive na man­são de Hugh Heff­ner. Em Beverly Hills, coli­nas e flo­resta à volta, tocava-se jazz, play­ma­tes ves­ti­di­nhas, sauna esca­vada na rocha, um jar­dim zoo­ló­gico de ara­ras, mir­ra­dos maca­cos, coe­lhos e supo­nho que coe­lhi­nhas, uns des­par­da­la­dos pink flamingos. Continue lendo “O chimpanzé da minha rua”