Oriente Médio: uma nova chance para a paz

Há 30 anos, a paz batia à porta de israelenses e palestinos com a conclusão do Acordo de Oslo, fruto de negociações conduzidas secretamente na Noruega. Para a história, ficou a imagem do aperto de mão entre Yasser Arafat, líder da Organização para a Libertação da Palestina, e Yitzhak Rabin, primeiro-ministro de Israel, nos jardins da Casa Branca, sob o olhar de Bill Clinton. Os dois seriam agraciados com o Prêmio Nobel da Paz de 1994 como símbolos de uma reconciliação. Continue lendo “Oriente Médio: uma nova chance para a paz”

Ao Direito o que é do Direito

O ministro Edson Fachin assumiu a presidência do Supremo Tribunal Federal em meio a enormes expectativas. Com seu estilo discreto, Fachin toma para si a missão de restaurar a autocontenção do Supremo e de reafirmar valores como moderação, transparência, separação de poderes e decisões colegiadas. Tempos de comedimento e austeridade se anunciam. Emblemática a sua recusa de realizar a festa de posse, tradicionalmente financiada por lobby de associações de juízes. Continue lendo “Ao Direito o que é do Direito”

A sentença que encerra um ciclo

Pela primeira vez, a Justiça brasileira levou ao banco dos réus e condenou generais de quatro estrelas e um ex-presidente da República por tentativa de golpe. Um feito inédito, com profundo significado histórico. Mais do que isso: o Brasil está virando uma página de sua história, que atribuía às Forças Armadas o papel de tutora e guardiã moral da Nação. Continue lendo “A sentença que encerra um ciclo”

A política está nos reels e no TikTok

A política contemporânea já não é encenada apenas nos palanques, nos plenários ou nos telejornais. A proliferação dos vídeos curtos, em formato vertical, sinaliza uma transformação estrutural na mediação entre representantes e representados. É uma linguagem concebida para o celular — para ocupar a palma da mão e infiltrar-se na intimidade da nossa rotina. Assistimos ao político no ônibus, na fila do banco, durante as refeições — e, muitas vezes, no exato instante em que ele publica sua mensagem. Continue lendo “A política está nos reels e no TikTok”

Emanoel Araújo, o legado que resiste e inspira

Neste 7 de setembro, completam-se três anos da morte de Emanoel Araújo, artista, curador e fundador do Museu Afro Brasil. Sua ausência ainda ressoa, mas sua obra segue viva, inspirando novas gerações e lembrando-nos do poder transformador da cultura. Continue lendo “Emanoel Araújo, o legado que resiste e inspira”

Fim de um ciclo na esquerda latino-americana

Depois de 20 anos termina o poder do Movimento ao Socialismo (MAS) de Evo Morales. Pela primeira vez em duas décadas a esquerda ficará de fora da disputa da presidência da Bolívia, na qual o segundo turno será disputado entre um candidato de centro-direita e outro de direita. A simbologia da derrota transcende as fronteiras da Bolívia. Representa uma espécie de pá de cal em um projeto que galvanizou corações e mentes na América do Sul e levou a esquerda a subir no poder na Venezuela, Equador, Argentina, Bolívia e Brasil, conhecido como bolivarianismo e chamado por seu fundador, Hugo Chàvez, de “socialismo do século XXI”. Continue lendo “Fim de um ciclo na esquerda latino-americana”

A crise semiterminal do bolsonarismo

Até recentemente Jair Bolsonaro era a grande liderança do campo da direita e o bolsonarismo sua principal força orgânica, capaz de encher as ruas com multidões. Esse capital político é coisa do passado. Hoje, está encurralado em um labirinto de crises judiciais, fragmentação interna e rejeição popular. A imagem do mito — como seus seguidores o aclamavam — foi substituída pela de um político que só pensa em seus interesses pessoais e nos de seu clã. Os brasileiros percebem isso, como revelou a última pesquisa Quaest, na qual sete em cada dez entrevistados avaliam que Eduardo Bolsonaro defende os interesses do pai e da família, e não os do Brasil. Continue lendo “A crise semiterminal do bolsonarismo”

Brasil e Estados Unidos: dois séculos de aproximação e o risco de ruptura

As relações entre Brasil e Estados Unidos atravessaram mais de dois séculos, combinando afinidades ideológicas, interesses estratégicos, trocas econômicas e culturais — mas também períodos de distanciamento, desconfiança e, mais recentemente, choques abertos. Desde o século XIX, a convivência entre as duas maiores potências do continente oscilou entre o pragmatismo diplomático e o idealismo político, sem nunca romper de modo irreversível. A história, no entanto, mostra que essa durabilidade não é garantida: parcerias sólidas também se corroem quando faltam previsibilidade, reciprocidade e visão estratégica. Continue lendo “Brasil e Estados Unidos: dois séculos de aproximação e o risco de ruptura”

O Brasil em um mundo em transição

Ao longo do século XX os Estados Unidos foram o principal parceiro do Brasil, do ponto de vista comercial e geopolítico. Essa relação se acentuou após a II Guerra Mundial, da qual os EUA saíram como a principal potência econômica e militar do planeta. Nossas relações, apesar da assimetria de poder entre as duas nações, foi por décadas funcional: o Brasil buscava desenvolvimento econômico, segurança e inserção internacional; os EUA queriam estabilidade política e aliados firmes. Continue lendo “O Brasil em um mundo em transição”

Trump e a transição geopolítica

Desde o fim da II Guerra Mundial, os Estados Unidos assumiram um papel sem paralelo na história contemporânea: o de arquitetos e garantidores de uma ordem internacional baseada em instituições multilaterais, economia de mercado, segurança coletiva e valores liberais. Não se tratava apenas de poder militar ou hegemonia econômica — embora ambos fossem expressivos. Tratava-se, sobretudo, da capacidade de oferecer ao mundo um projeto, uma promessa de estabilidade e progresso. Continue lendo “Trump e a transição geopolítica”

Entre o palanque e a diplomacia

À medida que se aproxima o prazo final para a entrada em vigor do tarifaço imposto por Donald Trump — 1º de agosto —, o governo brasileiro revela um descompasso interno que fragiliza sua atuação internacional. A crise provocada pelas medidas protecionistas dos EUA revelou uma divisão tática de papéis: o discurso de Lula mobiliza sua base, enquanto ações diplomáticas e gestos pragmáticos — compartilhados por Alckmin e outros atores institucionais — procuram preservar canais de negociação. Continue lendo “Entre o palanque e a diplomacia”

Entre o necessário e o possível

Nesta semana foram publicadas duas portarias pelo MEC que, mais do que medidas administrativas, representam intenções políticas de fundo. A primeira institui o Programa Escola Nacional Nêgo Bispo de Saberes Tradicionais, voltado à valorização dos saberes afro-brasileiros, indígenas e populares. A segunda cria a nova Política Nacional de Educação do Campo, das Águas e das Florestas, ampliando e redesenhando o escopo do antigo Pronacampo. Continue lendo “Entre o necessário e o possível”

Com que roupa vai a direita?

Desde que foi tornado inelegível, Jair Bolsonaro passou a vagar como uma espécie de “rei nu” da política brasileira. Mantém ainda poder simbólico sobre parte do eleitorado — especialmente nas redes sociais — mas já não comanda, de fato, nenhuma articulação relevante nem define os rumos do campo conservador. O bolsonarismo sobrevive como cultura política — ressentida, antissistema, agressiva —, mas começa a se tornar, cada vez mais, uma cultura sem centro. Continue lendo “Com que roupa vai a direita?”

A solidão do Brasil num mundo em realinhamento

O tarifaço imposto por Donald Trump às exportações brasileiras é mais um sintoma de um mundo em realinhamento. O que chama atenção e preocupa é a resposta frágil do Brasil. Não por falta de indignação inicial, mas pela ausência de uma estratégia compatível com a gravidade do momento — num cenário em que o país aparece isolado, vulnerável e cada vez mais irrelevante para os rumos da política internacional. Continue lendo “A solidão do Brasil num mundo em realinhamento”

Uma diplomacia fora de lugar

A revista The Economist foi certeira ao classificar o presidente Lula como “incoerente no exterior” e “impopular em casa”. Também destacou que, ao se alinhar a um Brics dominado por China e Rússia, o Brasil “parece cada vez mais hostil ao Ocidente”. Dias depois, a reunião do bloco no Rio de Janeiro confirmou o diagnóstico. O discurso do presidente e a declaração final do encontro evidenciaram que a política externa brasileira se deslocou do seu papel tradicional de equilíbrio e perdeu sintonia com o mundo real. Continue lendo “Uma diplomacia fora de lugar”