Havia lógica, e até alguma sofisticação política, na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como a face mais moderada do bolsonarismo. Num país que permanece dividido praticamente ao meio, como reiteram sucessivas pesquisas de opinião, o centro de gravidade da disputa eleitoral deslocou-se para os eleitores independentes. Esse contingente, menos ideológico e mais pragmático, tornou-se o fiel da balança. Não se trata de um público entusiasmado, mas de um eleitorado que decide com base em percepções de estabilidade, previsibilidade e rejeição ao radicalismo. Em 2018, migrou para Bolsonaro; em 2022, para Lula. Agora, observa atentamente os dois principais contendores. Continue lendo “As duas faces de Flávio”
O Brasil falha onde tudo começa
É na infância que se descobrem histórias, personagens e ideias que ampliam o olhar sobre o mundo. Antes mesmo de compreender plenamente a linguagem, a criança intui que ali existe algo maior: uma possibilidade de imaginar, explorar e dar sentido ao que a cerca, muitas vezes por meio das imagens, que inauguram esse encontro com a mesma potência das palavras. A literatura infantil não é apenas uma etapa na formação do leitor. Ela constitui uma base essencial da formação cultural, cognitiva e criativa. Continue lendo “O Brasil falha onde tudo começa”
O voto passa pelo bolso
Lula e sua equipe queimam a pestana para entender por que o bom desempenho dos indicadores da economia, com inflação sob controle e emprego em alta, não se traduz na aprovação do governo. Tampouco produziu, até aqui, uma situação confortável para a disputa presidencial. Ao contrário, a curva de desaprovação cresce e o favoritismo se estreita, indicando um cenário mais competitivo do que o esperado. Continue lendo “O voto passa pelo bolso”
O STF perde sua autoridade
No dia 12 de fevereiro, os ministros do Supremo Tribunal Federal realizaram uma reunião fechada para discutir como retirar a Corte do epicentro da crise do Banco Master. Nos diálogos, divulgados pelo Poder360, ficou registrada uma frase da ministra Cármen Lúcia: “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”. A observação encontra respaldo na pesquisa AtlasIntel/Estadão: 60% dos brasileiros não confiam no STF. Continue lendo “O STF perde sua autoridade”
O grande ausente
Pela primeira vez desde a redemocratização brasileira, uma eleição presidencial se aproxima sem a presença clara de um candidato identificado com o campo do centro-democrático. Ao longo das últimas décadas, mesmo quando esse espaço parecia eleitoralmente frágil, ele sempre encontrou alguma forma de se expressar na disputa. Agora, o cenário é distinto: o centro político, entendido como um campo comprometido com a democracia liberal, com reformas graduais e com a conciliação social, encontra-se sem um porta-voz nítido. Continue lendo “O grande ausente”
Favoritismo de Lula em xeque
Autor do livro A mão e Lula: o que elege um presidente, o cientista político Carlos Alberto Almeida é uma voz respeitada por expoentes da esquerda, como o próprio Lula. É de sua autoria a sentença com poder de provocar pesadelos no presidente e em sua equipe: Lula “é favorito para perder”. Continue lendo “Favoritismo de Lula em xeque”
Irã, um novo atoleiro americano?
Não há dúvidas quanto ao caráter ditatorial do regime iraniano. Nas últimas décadas, milhares de manifestantes foram mortos pela repressão da teocracia instalada após a Revolução de 1979. Mulheres foram perseguidas por desafiar o código de vestimenta imposto pelo Estado. Algumas chegaram a ser condenadas à morte por apedrejamento, pena que em certos casos só não se consumou graças à pressão internacional. Outras morreram sob custódia policial após serem presas por não usarem corretamente o véu. Também é incontestável que o aiatolá Ali Khamenei consolidou um regime autoritário e intolerante. Continue lendo “Irã, um novo atoleiro americano?”
Lula e o voto evangélico
Às vésperas do carnaval, João Santana, ex-marqueteiro de Lula e de várias campanhas do PT, divulgou um vídeo que passou quase despercebido. Nele, fazia um alerta. Era preciso olhar para fora da avenida e avaliar os efeitos políticos que viriam após o desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo enredo celebrava a trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sua advertência era clara: a narrativa da escola poderia agradar à bolha petista, mas produzir efeitos negativos duradouros no universo evangélico e nas regiões onde o agronegócio possui peso econômico e cultural. Continue lendo “Lula e o voto evangélico”
O Supremo sob tensão
A crise institucional que tem o Supremo Tribunal Federal no centro do furacão deu mais um salto de patamar com a revelação da investigação sobre o vazamento de dados fiscais de ministros e familiares. A decisão de conduzir o caso no âmbito do inquérito das Fake News, já existente, provocou críticas no Congresso e também dentro do próprio tribunal, onde houve quem visse no ato conflito de interesses e defendesse a abertura de procedimento autônomo, com distribuição regular. Continue lendo “O Supremo sob tensão”
Lula e António José Seguro: duas esquerdas, dois caminhos
A vitória do socialista moderado António José Seguro na eleição para presidente de Portugal tem um significado que vai além de suas fronteiras por indicar o caminho da conciliação como o mais adequado para enfrentar o populismo e a polarização. Continue lendo “Lula e António José Seguro: duas esquerdas, dois caminhos”
Autocorreção – o momento decisivo do Supremo
O discurso recente do ministro Edson Fachin, ao reconhecer a necessidade de autocorreção no Supremo Tribunal Federal, sinalizou a percepção, dentro da própria Corte, de que a relação com a sociedade atravessa um momento delicado e que a credibilidade institucional passou a ser um tema incontornável. Continue lendo “Autocorreção – o momento decisivo do Supremo”
O custo de ter valores
Valores não se revelam nos discursos confortáveis, nem nos momentos de consenso. Eles aparecem quando incomodam, exigem renúncia, contenção, limite. Em política, só existem de fato quando deixam de ser convenientes e passam a ter um custo. Continue lendo “O custo de ter valores”
Direitos não caminham sozinhos
Em setembro de 1956, na pequena cidade de Clinton, no Tennessee, doze adolescentes negros precisaram ser escoltados por policiais estaduais para atravessar o portão de uma escola pública até então reservada apenas a brancos. A decisão de integrar a escola cumpria uma ordem judicial e um princípio constitucional já afirmado dois anos antes pela Suprema Corte americana. Ainda assim, exigiu proteção armada, patrulhamento permanente e a suspensão temporária da normalidade urbana. A democracia, ali, precisou de escolta. Continue lendo “Direitos não caminham sozinhos”
O adversário ideal
Diz-se que Lula voltou a ser contemplado pela fortuna com a candidatura de Flávio Bolsonaro. É o tipo de adversário ideal para um incumbente que busca o quarto mandato. O filho herda a rejeição do pai sem carregar o mesmo carisma; sem o sobrenome, seria um andor difícil de sustentar. Se já seria conveniente enfrentar uma chapa que ostentasse o nome Bolsonaro, ainda que na vice, o cenário tornou-se mais favorável com um Bolsonaro na cabeça da disputa. Continue lendo “O adversário ideal”
O Brasil e a doutrina Trump
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgada no início de dezembro, reposicionou a América Latina no centro da política externa americana e impôs desafios relevantes à diplomacia brasileira. Sob governo Donald Trump, Washington passou a tratar o Hemisfério Ocidental como prioridade absoluta, rompendo com a lógica predominante no pós-Guerra Fria, em que outras regiões como o Oriente Médio e a Ásia-Pacífico concentravam maior atenção estratégica A Europa, antes principal parceiro americano, também perdeu relevância. A mudança redefine hierarquias, alianças e zonas de influência, com impactos diretos sobre o Brasil. Continue lendo “O Brasil e a doutrina Trump”
