Vi inteirinha a entrevista de Lula a Igor Coelho no Flow Podcast. Muito bem humorado — sorridente, confiante, racional, afiado —, Lula deu banho. À vontade no estilo do canal, que vai do informal à conversa de botequim, o presidente se sentiu como um peixinho na água.
Alguns palavrões de lado a lado saíram espontaneamente, como interjeições e sem ofender ninguém. Lula foi, a uma só vez, presidente, candidato e animador de auditório. Contou histórias — deixou algumas incompletas, infelizmente —, respondeu sobre temas espinhosos, não fugiu de nenhuma pergunta, muitas vezes longas demais e sem muito foco do entrevistador.
Em duas palavras, divertido e arrebatador! Deixando no ar uma sensação de quero mais.
Só não foi espetacular porque o entrevistador perdia constantemente o foco e pareceu algumas vezes não saber o que perguntar, apesar do maço de papéis de roteiro que segurava nas mãos. Tive a impressão de que Igor Coelho estava esperando encontrar um velhote sem graça e repetitivo e tomou uma invertida surpreendente. Embasbacado, creio eu, ele perdeu o rumo.
A extrema direita sentiu o golpe. A entrevista no Flow engajou 1,6 milhão de internautas, contra 600 mil do principal adversário em outro canal das redes, após desistir do debate na Globo logo que o ministro Gilmar Mendes sacramentou o direito de Renan Santos participar. O canal dos Marinho e o Rachadinha tomaram uma fumbrecada que não esperavam.
O banquete estava pronto e a mesa veio abaixo antes da cortina se abrir no picadeiro.
O desastre teve também a participação direta da juíza do TSE que vetou a cadeira vazia reservada a Lula no cirquinho armado com o Rachadinha. Empolgado, este já tinha uma lista de perguntas a fazer para o ausente.
A juíza, Estela Aranha, ministra do TSE, chutou a cadeira e derrubou o circo. Fechou, assim, uma noitada de constrangimentos na Vênus Platinada carioca. Vergonha explícita para uma das maiores emissoras de TV do mundo. Tinha a obrigação moral de fazer o debate mesmo sem a cadeira vazia, mesmo sem Lula, mesmo sem o Rachadinha, mas com Renan. Moral, no entanto, é raro de ver naquele endereço.
Seria interessante, talvez cômico, ver um debate entre três nanicos descendo a lenha nos dois ausentes favoritos do eleitorado. Daria boa audiência. Mas isto, definitivamente, estava fora do script. O “debate” era para descer a lenha só em Lula.
A falta de comando, certo bom senso e coerência na cúpula do grupo — desde a morte de Roma, acrônimo que ele usava para assinar artigos nos tempos em que trabalhei no jornal dele —, bateram ontem à noite o último prego no caixão do fundador.
Nelson Merlin é jornalista aposentado, mas revigorado e querendo mais .
2/10/2026
