O grito da sirene morre em uma freada brusca. A equipe desce do carro e invade o restaurante, com a autoridade da fiscalização. “Aqui está tudo correto, casa limpa, alimentos frescos, higiene absoluta” – defende-se o proprietário. “Sim”, diz o fiscal. “Mas o senhor está preso e vai direto para uma cela”.
O acusado protesta: “Como? A Vigilância Sanitária não pode fazer isso.” E o fiscal, com ar de enfado: “Meu amigo, nós somos da Zeladoria Gramatical. A sua casa pode estar perfeita, mas essa sua ‘comida a kilo’ é crime hediondo. Renda-se”.
“Um momento!”, apela o indigitado. “Por que kilo está errado, se o símbolo de quilo é K?” “Além disso – prossegue – não se trata mais de gramática, mas de marketing. Kilo virou uma marca, é a maneira de cunharmos nossa casa.”
O fiscal balança, põe-se a meditar, enquanto o outro prossegue. “Afinal, já existem marcas que trocam o ch por xis, o z por s… Por isso eu sugiro que a fiscalização seja menas rigorosa”.
Em gesto rápido, o fiscal pega as algemas e as fecha nos punhos do infrator. Preso em flagrante!
Na Corte de Apelações, corre o julgamento de um caso. O promotor da Vara de Prevenção ao Economês acusa: “O réu tem graves antecedentes. Já disse em discurso que o governo privilegiou o setor elétrico. Não favoreceu ou protegeu, privilegiou!”
O réu reage. “Se for condenado, vou recorrer. Meu caso será julgado a nível de Tribunal Superior.
A NÍVEL DE? – Chocam-se os jurados, atordoam-se acusação e defesa, assombra-se o juiz. O advogado ergue-se do chão, onde tinha ido parar de susto, e grita.” Meritíssimo, peço a condenação do meu cliente. Reconheço, é um caso perdido!”
Esta crônica foi originalmente publicada no blog Vivendo e Escrevendo, em 22/1/2026.
