Há um tempão, meses e meses e meses, seguramente mais de dois anos, eu vinha pensando que tinha finalmente de começar o movimento de me desfazer de discos.
Não de todos, não. Nada radical. Começar como se começa a beber a sopa muito quente – pelas beiradinhas.
Começar pelos discos que dificilmente vou botar pra tocar. Não porque sejam ruins, mas porque, diacho, não são os meus preferidos, e a vida é curta, curta – o segundo “curta” como verbo, no imperativo afirmativo.
A vida é curta, curta – e a casa é pequena, pequena (os dois pequenas como adjetivos mesmo) para tanto terém que a gente afinal de contas não usa. E, diacho, eu sou um juntador de teréns. Credo em cruz. Quase um acumulador compulsivo.
Enfim, começar a desapegar.
Começar, vai. PelamordeDeus, Sérgio Vaz!
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Bem. Hoje, um sabadão tranquilo, resolvei fazer uma tentativa.
Peguei a escada, subi até o terceiro degrau, e alcancei um punhado de CDs na prateleira mais alta da estante que vai até o teto, e fui botando em cima da mesa da Mary. Desci da escada, juntei todos eles em um montinho de pouco menos de 20 centímetros.
A idéia era levar para a mesa da sala e lá, calmamente, dar uma olhada, para ter a certeza de que poderia me desfazer deles. Já havia até guardado algumas caixas de papelão para colocar os CDs, para algum dia levá-los até a Galeria Nova Barão, onde há vários sebos de discos.
Aqueles CDs, especificamente, foram colocados lá no alto da estante do escritório exatamente porque não são muito usados – para não dizer que nunca são usados. São discos que o Pedro França começou a colecionar, tudo da mais pura MPB tradicional. Algum tempo depois da morte dele, a Sandrinha Abdalla me ofereceu a coleção – como o Pedro, ela sabia que sou um colecionador inveterado.
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Pois bem. Então peguei o monte de uns 20 centímetros de CD, botei junto da barriga e fui em direção à sala.
A distância a ser percorrida é um metro, dois metros no máximo.
No corredor, quase chegando à sala, o monte se desequilibrou – três dos CDs caíram no chão.
Pousei os demais na sala, recolhi os que haviam caído no chão – e, claro, tiveram partes de suas caixinhas quebradas.
Um deles é Quando os Astros se Encontram – Angela Maria e Waldir Calmon, gravação Continental de 1958, transferida para o digital em data não informada. Outro é Flores em Vida, de Nelson Sargento, um raro lançamento da Rádio MEC. No encarte de 12 páginas, há um texto de apresentação do João Máximo, um dos mais respeitados pesquisadores da MPB, e um outro assinado pelo próprio Nelson Sargento. O terceiro é de Monarco, gravado pelo respeitadíssimo Estúdio Eldorado.
Não posso afirmar com segurança, e ainda não chequei, mas tanto o disco de Monarco quanto o de Nelson Sargento são jóias raras. Os dois grandes compositores gravaram muito poucos discos com suas próprias vozes.
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Entre os discos que não deixei cair no chão e portanto não tiveram suas caixinhas quebradas estão pérolas bem antigas, da velha guarda, e também lançamentos um tanto mais recentes – só coisa boa. Alguns exemplos:
* Tavinho Moura, Minhas Canções Inacabadas;
* Cascatinha & Inhana, Primeiros Anos, Grandes Sucessos, Vol. 2;
* Andy Summers & Fernanda Takai, Fundamental;
* Fernando Brant & Tavinho Moura, Fogueira do Divino;
* Lia de Itamaracá, Eu Sou Lia;
* Vassourinha, Vasssourinha (uma compilação reunindo todos os fonogramas gravados pelo cantor paulistano na Continental);
* Noite Ilustrada canta Ataulfo Alves;
* Demônios da Garoa, 2 LPs – Dose Dupla;
* Dilermando Pinheiro, Batuque na Palhinha;
* Dona Edith do Prato, Vozes da Purificação.
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Depois de dar uma olha naquele punhado todo de discos, peguei a caixa de papelão em que guardo caixas de CD, as jewel boxes, vazias – que no passado comprei às dezenas para acondicionar os discos que gravei ao longo de muitos anos -, e reconstituí, cuidadosa e pacientemente, as três caixinhas que haviam se quebrado.
Creio que dá para dizer com alguma certeza que cerca de 99% das mulheres de colecionadores de discos e/ou acumuladores compulsivos teriam incentivado o marido nesse tão adiado movimento de tentativa de desapego.
Mary pertence às cerca de 1% das outras mulheres.
Acompanhou meio de longe minha movimentação toda, e lá pelas tantas sentenciou: – “Eu não acho que os discos devam ser a primeira coisa pra a gente jogar fora. Tem coisa que me incomoda muito mais, feito aqueles aparelhos de som quebrados que a gente nunca manda consertar e aquele computador velho escondidos ali naquele canto da sala, sem contar aquela papelada e outras porcarias em cima da cama no escritório.”
Vou guardar os CDs herdados do Pedro França de volta lá no lugar deles, a prateleira perto do teto.
Minha tentativa de desapego não deu muito certo.
Mas vou continuar tentando. Quem sabe um dia…
25/4/2026
Nota do acumulador, perdão, do administrador: Este texto faz parte da série Sobre Suportes Físicos, que contém diversas elocubrações sobre este tema de uma nota só.



Hahahahaha! Que delícia de texto! Entendo perfeitamente seu apego. Já disse pros meus netos adolescentes que eles herdariam meus discos. Usei um tom orgulhoso de quem fala de jóias preciosas.
Acho que não preciso falar sobre a reação.
Eu tinha uma coleção com 178 LPs. Todos catalogados. Foram transformados em 178 CDs, que se juntaram aos novos. Cheguei a quase 500. Já nem tinha mais aparelho para tocar. Passei tudo para o Spotify, também catalogados.
Guardei umas capas dos LPS
Conforme minha vontade, escolho o que quero ouvir e passo horas me deliciando.
Morri de rir. Você e desapego correm em trilhos paralelos.